Logística

Pedágio por eixo de caminhão sobe 50% em novas concessões federais

Nas concessões federais, cada eixo comercial passa de 2 para 3 vezes a tarifa básica. O desconto do leilão, porém, não é o preço final.

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Em 31 de março, a B3, em São Paulo, realizou o leilão de cerca de 735 km de rodovias federais em Minas Gerais. A vencedora, a Ecorodovias, ofereceu 19% de desconto sobre a tarifa básica de pedágio, segundo a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Em maio, a Rota dos Sertões teve desconto de 19,60%, também na B3.

Esse desconto é o número que aparece nas notícias. Mas a conta que chega ao caminhoneiro e ao produtor depende de outras regras: reajuste, obras e a forma de cobrança.

Como funciona uma concessão

Concessão é um contrato em que uma empresa privada opera uma rodovia por um prazo longo. Os contratos recentes têm 30 anos. Em troca, a empresa cobra pedágio e assume obras, que a ANTT fiscaliza.

O edital, documento com as regras da disputa, fixa a tarifa básica, que serve de referência. As empresas disputam o desconto sobre essa tarifa.

O pedágio muda todo ano

Os contratos preveem reajuste anual pela inflação, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 17 de setembro, a ANTT aprovou reajuste de 4,64% na concessão EPR Litoral Pioneiro, em vigor desde 20 de setembro.

Na Rio-SP, o reajuste técnico pelo IPCA seria de 4,44%. Com ajustes de reequilíbrio previstos no contrato, o impacto médio para o motorista ficou em 1,32%, informou a ANTT.

Obras são a contrapartida

Na Rota Gerais, a concessionária prometeu mais de R$ 13 bilhões em investimentos, concentrados nos primeiros anos. Segundo a ANTT, “a tarifa só será aplicada após a execução das melhorias iniciais e validação pela ANTT”.

Quando a obra não sai, a tarifa deve cair. Em decisão de 29 de novembro de 2023, o Tribunal de Contas da União (TCU) mandou reverter ao usuário, por meio da tarifa, o valor de obras não executadas em quatro concessões. Segundo o tribunal, essa redução “deve ocorrer sem a necessidade de comprovar que haja culpa da concessionária nas inexecuções”.

Free flow: pedágio sem cancela

No free flow não há cancela. Pórticos instalados na pista fazem a cobrança, e o sistema depende da adesão ao pagamento automático, feito por tag, o dispositivo eletrônico preso ao carro.

Segundo a Agência iNFRA, a Rota 2 de Julho, na Bahia, será a primeira concessão federal feita só com free flow. O TCU aprovou o projeto em 26 de agosto de 2026. O usuário avulso que paga em até 30 dias pagará 1,25 vez a tarifa básica.

Auditores do TCU apontaram “conflito de interesses claro” na forma de receber essas tarifas. Por isso, a divisão da cobrança mais alta foi alterada.

O que muda para o frete do grão

Caminhões e ônibus pagam pelo número de eixos. Segundo a Confederação Nacional do Transporte (CNT), cada eixo comercial valia duas vezes a tarifa básica. Nos projetos da 6ª Etapa de concessões, passa a valer três vezes.

Um caminhão de oito eixos passa a ter equivalência de 12 eixos, segundo o Jornal do Comércio. Na parte da conta que depende do eixo, isso é um aumento de 50%.

A Associação Nacional dos Usuários do Transporte de Carga (ANUT) estima um custo adicional de R$ 42 bilhões em pedágios ao longo dos contratos de sete projetos. É uma estimativa da entidade, não de órgão oficial.

O que diz o Ministério dos Transportes: Segundo o Jornal do Comércio, de 9 de outubro de 2026, a pasta afirma que “a mudança considera o impacto dos veículos comerciais sobre a infraestrutura rodoviária”. A reportagem não traz o documento técnico que embasa a regra.

O que isso significa

O desconto do leilão é só uma parte da conta. Reajuste, obras e cobrança por eixo também pesam no valor pago em cada praça. Quanto mais eixos tem o caminhão, maior a diferença em reais.

Ficam em aberto dois pontos. A CNT pediu ao ministério os estudos que fundamentam a mudança, e a reportagem não diz se foram divulgados. A Rota 2 de Julho, com leilão previsto para 18 de dezembro, tem reportagem própria neste site.

Como fizemos: Usamos comunicados da ANTT, da B3 e do TCU, e reportagens do Jornal do Comércio, da Agência iNFRA e da CNT, acessados em 22/10/2026. Cálculos próprios: 12 dividido por 8, e 3 dividido por 2, ambos iguais a 1,5, ou seja, aumento de 50% no fator por eixo. Não calculamos o pedágio final de nenhuma rota, que depende do edital, do desconto vencedor e da categoria do veículo. Os dados não mostram quanto o pedágio pesa no frete de uma safra.

Fontes