Rios baixos isolam ribeirinhos em quatro estados da Amazônia
Amazonas tem 42 municípios em emergência por estiagem, e em Santarém moradores relatam barcos que não chegam mais às vilas.

Na terça-feira (20), a Defesa Civil do Amazonas contava 41 municípios em situação de emergência por causa da estiagem. Na quarta-feira (21), eram 42 municípios e 104.690 famílias afetadas.
A seca dos rios não se limita ao Amazonas. Acre, Rondônia e Pará também têm decretos de emergência ou rios em queda forte. Nas margens, o rio é o caminho até a escola, a cidade e o posto de saúde. Quando ele baixa, a travessia pode parar.
Os decretos ligam a estiagem ao El Niño, fenômeno de aquecimento das águas do Oceano Pacífico que altera as chuvas no Norte do país.
Onde a emergência já foi decretada Situação em 22 de outubro de 2026, segundo decretos e boletins informados pela imprensa
| Onde | Decreto | Números informados |
|---|---|---|
| Acre | Estadual, publicado em 3/8, todo o estado, 180 dias | Risco para 36 terras indígenas e 246 aldeias |
| Amazonas | Estadual, publicado em 21/9, 62 municípios, 180 dias | Até 648 mil pessoas afetadas (estimativa oficial); 42 municípios em emergência |
| Rondônia (Porto Velho) | Municipal, “desastre de nível II”, 180 dias | Cerca de 22,9 mil pessoas em 85 localidades |
| Pará (Santarém) | Municipal, decreto nº 774/2026, de 15/10, 90 dias | Rio Tapajós a 1,67 m em 17/10, 1,40 m abaixo de 2025 |
Fontes: decretos e boletins citados no texto. Elaboração: redação.
O decreto estadual do Amazonas, publicado em 21 de setembro, abrange os 62 municípios. Os boletins mostram quantos já decretaram emergência local. A diferença entre os dois últimos boletins é de 2.245 famílias.
Isolamento e transporte
Em Parintins, no Amazonas, um dos principais pontos de atracação de barcos secou antes do previsto. Segundo o G1, desde o fim de setembro o acesso à região só é feito a pé. Trabalhadores de barcos e canoas, que dependem do rio para trabalhar, são diretamente atingidos.
Em Santarém, no Pará, não chove desde 23 de julho, segundo O Liberal. Moradores relatam que os barcos já não chegam perto das vilas. A prefeitura enviou quatro caminhonetes às comunidades Quilombo do Saracura, Igarapé da Praia, Costa do Tapará e Água Preta.
O presidente da comunidade Santa Luzia, Abel Aparecido, disse ao G1: “Tem mais de 3 mil pessoas aqui dentro que acabam ficando isoladas, com grande dificuldade de ajuda humanitária, de água”. A reportagem não informa o município da comunidade.
Em Porto Velho, Rondônia, a prefeitura classificou a estiagem como “desastre de nível II”. Segundo o Portal Amazônia, cerca de 22,9 mil pessoas são afetadas em 85 localidades. Comunidades ribeirinhas do Madeira dependem de poços que secaram.
O decreto do Acre, de agosto, cita risco de isolamento para comunidades indígenas e ribeirinhas. Também cita falta de água, comida e remédios. Comunidades acessíveis só pelo rio podem perder o transporte e a merenda escolar.
O que o poder público faz
Em 11 de outubro, o governo federal reconheceu no mesmo dia a emergência decretada pelo Amazonas, naquele momento em 36 municípios, segundo o ministro Waldez Góes. A força-tarefa inclui o Ministério de Minas e Energia, que atua para levar combustível a comunidades isoladas, segundo a Agência Brasil.
Em 21 de outubro, o deputado Amom Mandel (Republicanos-AM) apresentou a Indicação 1635/2026. O texto pede rapidez na liberação de cestas básicas, água, insumos de saúde e combustível. A indicação é uma sugestão ao Executivo e não tem força de lei.
Não encontramos balanço público de quantas comunidades isoladas receberam cestas, água ou combustível.
O que diz o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional: Em 11 de outubro, o ministro Waldez Góes disse: “Não vai faltar nada: equipamentos, veículos, homens, recursos, tudo o que for preciso será disponibilizado”. A fala foi dada à Agência Brasil durante a coletiva sobre as queimadas e a estiagem no Amazonas.
O que vem a seguir
O quadro não é uniforme. Em Manaus, o rio Negro estava em 17,99 metros em 7 de outubro, nível que o Serviço Geológico do Brasil (SGB) considera normal para a época. Já no Tapajós, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) registra nível muito abaixo do ano passado.
Jussara Cury, superintendente regional do SGB, disse ao G1: “Há um processo de vazante ainda em andamento e com tendência a continuar nas próximas semanas”. Instituições federais de pesquisa ouvidas pela Radioagência Nacional dizem que a Amazônia ainda não vive uma seca excepcional e generalizada.
Os boletins mostram quantas famílias são afetadas. Eles não mostram quantas recebem comida, água e combustível. Esse é o dado que falta para saber quem fica isolado.
Como fizemos: Reunimos boletins da Defesa Civil do Amazonas (20 e 21/10/2026), decretos estaduais e municipais e leituras de rios da ANA e do SGB, além de reportagens publicadas entre agosto e outubro de 2026, acessados em 22/10/2026. A diferença de 2.245 famílias entre os dois boletins é cálculo da redação. Os totais mudam a cada boletim, e os números de pessoas afetadas são estimativas dos governos.
Fontes
- Governo ajudou assim que Amazonas decretou emergência, diz ministro — Agência Brasil (acesso em 22/10/2026)
- Estiagem prolongada no Amazonas faz mais de 40 cidades decretarem situação de emergência — Aliados Brasil, com dados do G1 (acesso em 22/10/2026)
- Eventos climáticos: Amazonas registra 41 municípios em situação emergencial — Portal Você (acesso em 22/10/2026)
- Estiagem atinge mais de 104 mil famílias no Amazonas — BMA (acesso em 22/10/2026)
- Amazonas decreta emergência por estiagem e prevê até 648 mil pessoas afetadas — Portal Amazônia (acesso em 22/10/2026)
- Acre decreta situação de emergência devido à seca severa — CNN Brasil (acesso em 22/10/2026)
- Governo decreta situação de emergência devido à seca severa no Acre — Portal Amazônia (acesso em 22/10/2026)
- Rio Madeira vira “deserto” de areia e Porto Velho entra em estado de emergência — Portal Amazônia (acesso em 22/10/2026)
- Rio Tapajós chega a 1,67 metro após nível baixar 24 centímetros em cinco dias — O Liberal (acesso em 22/10/2026)
- Nível do Rio Negro em Manaus é de 17,99 m, ainda normal na vazante — Amazonas Atual (acesso em 22/10/2026)
- Pesquisa e inovação: estiagem já compromete rotina de comunidades ribeirinhas no Amazonas — Mundo Positivo, com Radioagência Nacional (acesso em 22/10/2026)
- Deputado Amom Mandel sugere ao Ministério da Integração agilizar recursos humanitários a municípios do Amazonas — Atlas Público (acesso em 22/10/2026)
- Foto: Navio de Assistência Hospitalar Oswaldo Cruz no rio Japurá e Solimões, 2023 — Wikimedia Commons (acesso em 22/10/2026)



