Interior

Rios baixos isolam ribeirinhos em quatro estados da Amazônia

Amazonas tem 42 municípios em emergência por estiagem, e em Santarém moradores relatam barcos que não chegam mais às vilas.

Militares da Marinha atendem moradores em uma varanda à beira de um rio, com um navio ao fundo, no Amazonas
Equipe do navio-hospital Oswaldo Cruz atende moradores ribeirinhos no Amazonas em 2023, na região dos rios Japurá e Solimões.Foto: Marinha do Brasil / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

Na terça-feira (20), a Defesa Civil do Amazonas contava 41 municípios em situação de emergência por causa da estiagem. Na quarta-feira (21), eram 42 municípios e 104.690 famílias afetadas.

A seca dos rios não se limita ao Amazonas. Acre, Rondônia e Pará também têm decretos de emergência ou rios em queda forte. Nas margens, o rio é o caminho até a escola, a cidade e o posto de saúde. Quando ele baixa, a travessia pode parar.

Os decretos ligam a estiagem ao El Niño, fenômeno de aquecimento das águas do Oceano Pacífico que altera as chuvas no Norte do país.

Onde a emergência já foi decretada Situação em 22 de outubro de 2026, segundo decretos e boletins informados pela imprensa

Onde Decreto Números informados
Acre Estadual, publicado em 3/8, todo o estado, 180 dias Risco para 36 terras indígenas e 246 aldeias
Amazonas Estadual, publicado em 21/9, 62 municípios, 180 dias Até 648 mil pessoas afetadas (estimativa oficial); 42 municípios em emergência
Rondônia (Porto Velho) Municipal, “desastre de nível II”, 180 dias Cerca de 22,9 mil pessoas em 85 localidades
Pará (Santarém) Municipal, decreto nº 774/2026, de 15/10, 90 dias Rio Tapajós a 1,67 m em 17/10, 1,40 m abaixo de 2025

Fontes: decretos e boletins citados no texto. Elaboração: redação.

O decreto estadual do Amazonas, publicado em 21 de setembro, abrange os 62 municípios. Os boletins mostram quantos já decretaram emergência local. A diferença entre os dois últimos boletins é de 2.245 famílias.

Isolamento e transporte

Em Parintins, no Amazonas, um dos principais pontos de atracação de barcos secou antes do previsto. Segundo o G1, desde o fim de setembro o acesso à região só é feito a pé. Trabalhadores de barcos e canoas, que dependem do rio para trabalhar, são diretamente atingidos.

Em Santarém, no Pará, não chove desde 23 de julho, segundo O Liberal. Moradores relatam que os barcos já não chegam perto das vilas. A prefeitura enviou quatro caminhonetes às comunidades Quilombo do Saracura, Igarapé da Praia, Costa do Tapará e Água Preta.

O presidente da comunidade Santa Luzia, Abel Aparecido, disse ao G1: “Tem mais de 3 mil pessoas aqui dentro que acabam ficando isoladas, com grande dificuldade de ajuda humanitária, de água”. A reportagem não informa o município da comunidade.

Em Porto Velho, Rondônia, a prefeitura classificou a estiagem como “desastre de nível II”. Segundo o Portal Amazônia, cerca de 22,9 mil pessoas são afetadas em 85 localidades. Comunidades ribeirinhas do Madeira dependem de poços que secaram.

O decreto do Acre, de agosto, cita risco de isolamento para comunidades indígenas e ribeirinhas. Também cita falta de água, comida e remédios. Comunidades acessíveis só pelo rio podem perder o transporte e a merenda escolar.

O que o poder público faz

Em 11 de outubro, o governo federal reconheceu no mesmo dia a emergência decretada pelo Amazonas, naquele momento em 36 municípios, segundo o ministro Waldez Góes. A força-tarefa inclui o Ministério de Minas e Energia, que atua para levar combustível a comunidades isoladas, segundo a Agência Brasil.

Em 21 de outubro, o deputado Amom Mandel (Republicanos-AM) apresentou a Indicação 1635/2026. O texto pede rapidez na liberação de cestas básicas, água, insumos de saúde e combustível. A indicação é uma sugestão ao Executivo e não tem força de lei.

Não encontramos balanço público de quantas comunidades isoladas receberam cestas, água ou combustível.

O que diz o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional: Em 11 de outubro, o ministro Waldez Góes disse: “Não vai faltar nada: equipamentos, veículos, homens, recursos, tudo o que for preciso será disponibilizado”. A fala foi dada à Agência Brasil durante a coletiva sobre as queimadas e a estiagem no Amazonas.

O que vem a seguir

O quadro não é uniforme. Em Manaus, o rio Negro estava em 17,99 metros em 7 de outubro, nível que o Serviço Geológico do Brasil (SGB) considera normal para a época. Já no Tapajós, a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) registra nível muito abaixo do ano passado.

Jussara Cury, superintendente regional do SGB, disse ao G1: “Há um processo de vazante ainda em andamento e com tendência a continuar nas próximas semanas”. Instituições federais de pesquisa ouvidas pela Radioagência Nacional dizem que a Amazônia ainda não vive uma seca excepcional e generalizada.

Os boletins mostram quantas famílias são afetadas. Eles não mostram quantas recebem comida, água e combustível. Esse é o dado que falta para saber quem fica isolado.

Como fizemos: Reunimos boletins da Defesa Civil do Amazonas (20 e 21/10/2026), decretos estaduais e municipais e leituras de rios da ANA e do SGB, além de reportagens publicadas entre agosto e outubro de 2026, acessados em 22/10/2026. A diferença de 2.245 famílias entre os dois boletins é cálculo da redação. Os totais mudam a cada boletim, e os números de pessoas afetadas são estimativas dos governos.

Fontes