Importar 85% do adubo custa caro e enfraquece a soberania
Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes. A volta da Ansa e as obras da UFN-III ajudam, mas o gás caro ainda pesa no custo do adubo.
Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Pau-Brasil.

Em 2025, o Brasil comprou do exterior 45,5 milhões de toneladas de fertilizantes. Foi o maior volume da série histórica, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O adubo que sustenta a lavoura chega, em grande parte, de navio.
Cerca de 85% dos fertilizantes usados no país são importados, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Para nós, essa dependência é uma fragilidade nacional. Ela encarece a produção e deixa o campo exposto a crises que começam longe daqui.
Em 11 de março de 2022, o governo lançou o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF). A meta do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), segundo a CNA, é reduzir esse percentual para 45% até 2050. A proporção varia conforme a fonte, mas 85% é o número mais citado. Os principais fornecedores são Rússia, China, Canadá, Marrocos e Belarus.
Mais barato no porto não é mais seguro
Em 2026, o país comprou menos, mas pagou mais. De janeiro a julho, importou 22,4 milhões de toneladas, 7,5% a menos que no mesmo período de 2025. Mesmo assim, gastou US$ 8,8 bilhões, segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex).
Quem vende também define o preço. Em 2025, a China passou a Rússia como maior fornecedora. De janeiro a outubro, foram 9,76 milhões de toneladas chinesas, contra 9,72 milhões russas, segundo a CNA. Na conta da consultoria Datamar, Rússia e China somaram 58,3% das importações do ano.
Quando dois países concentram quase 60% da compra, uma crise em um deles vira crise na lavoura. Ter produção própria não elimina o preço internacional. Mas reduz o estrago quando o preço dispara.
A Petrobras tenta reduzir essa exposição. Em 30 de abril de 2026, a Ansa (Araucária Nitrogenados S.A.), no Paraná, voltou a produzir ureia, um dos adubos nitrogenados mais usados no campo. A fábrica estava parada desde 2020. Segundo o Poder360, sua capacidade é de 720 mil toneladas por ano, cerca de 8% do mercado nacional. A reativação custou R$ 870 milhões.
O gás caro é o argumento contrário, e ele é real
O argumento contra a produção nacional é sério. A ureia depende de gás natural, e o gás brasileiro é caro. Em novembro de 2023, o Eixos citou um estudo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Segundo ele, novas fábricas precisariam de gás entre US$ 3 e US$ 9 por milhão de BTU, unidade de medida de energia. Na época, o consumidor industrial pagava US$ 19 pela mesma unidade.
A experiência da Bahia mostra o risco. A Unigel, que arrendava a Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados da Bahia (Fafen-BA) desde 2021, anunciou a parada em novembro de 2023. A Proquigel, que administrava a unidade, disse que ela operava no prejuízo desde o fim de 2022, principalmente pelo gás fornecido pela Petrobras.
A crítica também vai além do gás. Em maio de 2025, Antonino Gomes, diretor-executivo da Ama Brasil, afirmou: “Levar ureia de Sergipe ou da Bahia para o interior do Mato Grosso ou para o Sul do país é caro.” Para ele, “a ureia brasileira terá custo mais alto”.
Esse argumento merece resposta, não desprezo. Uma fábrica que só funciona com subsídio pode encarecer o adubo e pesar no bolso do produtor. Mas o preço do gás não é lei da natureza. Depende de contratos, de prioridades e de decisões públicas.
Por isso, defendemos que a política industrial faça parte da saída. A Petrobras aprovou a retomada das obras da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN-III), em Três Lagoas (MS), em 13 de abril de 2026. Segundo a Agência iNFRA, a unidade deve produzir 3.600 toneladas de ureia por dia. A estatal prevê início da operação comercial em 2029 e fala em mais de R$ 5 bilhões de investimento.
O que diz a Petrobras: Em declaração publicada na retomada da Ansa, em 30 de abril de 2026, e reproduzida pelo Poder360, o diretor de processos industriais, William França, afirmou: “Com as Fafens e, agora, a Ansa em pleno funcionamento, reduzimos a dependência externa de ureia.”
Até 2029, o país seguirá dependendo de importados para a maior parte do adubo. Segundo a Petrobras, suas unidades do Nordeste e do Paraná atendem cerca de 20% da demanda dos produtores rurais. A conta ainda não fecha.
Soberania não é fechar a porta do mercado. É ter fábrica, gás a preço competitivo e política que continue quando o governo muda. Sem isso, o produtor paga a conta da dependência, e o país perde margem para decidir. O próximo governo terá de dizer se o plano sai do papel e como o gás será precificado.
Como fizemos: Usamos dados da Conab (importações de 2025, boletim de janeiro de 2026), da Secex (janeiro a julho de 2026, via Economic News Brasil), da CNA (boletim de novembro de 2025, dados de janeiro a outubro de 2025) e da consultoria Datamar (2025, via SunSirs), acessados em 22/10/2026. A soma de 58,3% é nossa conta: 32,2% da Rússia mais 26,1% da China. O custo do gás vem de estudo da EPE citado em novembro de 2023, e o preço pode ter mudado. A proporção importada varia entre fontes, e os recortes de volume de Conab e Secex não são iguais.
Fontes
- CNA participa de lançamento do Plano Nacional de Fertilizantes — CNA Brasil
- Importação de fertilizantes atinge nível recorde no Brasil — Revista Cultivar (dados da Conab)
- Brasil importa menos fertilizantes, mas troca de nutrientes muda a conta da safra — Economic News Brasil (dados da Secex)
- China ultrapassa Rússia e assume liderança nas vendas de fertilizantes ao Brasil — Itatiaia
- China ultrapassa Rússia em importações de fertilizantes do Brasil em 2025 — SunSirs (dados da Datamar)
- Fertilizantes Petrobras (acesso em 22/10/2026)
- Petrobras inicia produção de ureia em usina desativada há 6 anos — Poder360
- Petrobras aprova retomada de fábrica de fertilizantes com investimento de US$ 1 bi — Agência iNFRA
- Petrobras investe R$ 5 bilhões para reduzir importação de fertilizantes — Movimento Econômico
- Petrobras reativa plantas de ureia no NE, mas carência de fertilizantes preocupa — Movimento Econômico
- Unidade da Petrobras gerida pela iniciativa privada encerra atividades na Bahia — Brasil de Fato
- Quanto o gás deveria custar para o setor de fertilizantes, segundo a EPE — Eixos



