Opinião

Importar 85% do adubo custa caro e enfraquece a soberania

Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes. A volta da Ansa e as obras da UFN-III ajudam, mas o gás caro ainda pesa no custo do adubo.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Pau-Brasil.

Duas autoridades de macacão vermelho da Petrobras, uma delas o presidente Lula, em cerimônia da fábrica de fertilizantes Ansa
Cerimônia de retomada das operações da Ansa (Araucária Nitrogenados), fábrica de fertilizantes da Petrobras no Paraná, em 15 de agosto de 2024.Foto: Lula Oficial / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

Em 2025, o Brasil comprou do exterior 45,5 milhões de toneladas de fertilizantes. Foi o maior volume da série histórica, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O adubo que sustenta a lavoura chega, em grande parte, de navio.

Cerca de 85% dos fertilizantes usados no país são importados, segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Para nós, essa dependência é uma fragilidade nacional. Ela encarece a produção e deixa o campo exposto a crises que começam longe daqui.

Em 11 de março de 2022, o governo lançou o Plano Nacional de Fertilizantes (PNF). A meta do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), segundo a CNA, é reduzir esse percentual para 45% até 2050. A proporção varia conforme a fonte, mas 85% é o número mais citado. Os principais fornecedores são Rússia, China, Canadá, Marrocos e Belarus.

Mais barato no porto não é mais seguro

Em 2026, o país comprou menos, mas pagou mais. De janeiro a julho, importou 22,4 milhões de toneladas, 7,5% a menos que no mesmo período de 2025. Mesmo assim, gastou US$ 8,8 bilhões, segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex).

Quem vende também define o preço. Em 2025, a China passou a Rússia como maior fornecedora. De janeiro a outubro, foram 9,76 milhões de toneladas chinesas, contra 9,72 milhões russas, segundo a CNA. Na conta da consultoria Datamar, Rússia e China somaram 58,3% das importações do ano.

Quando dois países concentram quase 60% da compra, uma crise em um deles vira crise na lavoura. Ter produção própria não elimina o preço internacional. Mas reduz o estrago quando o preço dispara.

A Petrobras tenta reduzir essa exposição. Em 30 de abril de 2026, a Ansa (Araucária Nitrogenados S.A.), no Paraná, voltou a produzir ureia, um dos adubos nitrogenados mais usados no campo. A fábrica estava parada desde 2020. Segundo o Poder360, sua capacidade é de 720 mil toneladas por ano, cerca de 8% do mercado nacional. A reativação custou R$ 870 milhões.

O gás caro é o argumento contrário, e ele é real

O argumento contra a produção nacional é sério. A ureia depende de gás natural, e o gás brasileiro é caro. Em novembro de 2023, o Eixos citou um estudo da Empresa de Pesquisa Energética (EPE). Segundo ele, novas fábricas precisariam de gás entre US$ 3 e US$ 9 por milhão de BTU, unidade de medida de energia. Na época, o consumidor industrial pagava US$ 19 pela mesma unidade.

A experiência da Bahia mostra o risco. A Unigel, que arrendava a Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados da Bahia (Fafen-BA) desde 2021, anunciou a parada em novembro de 2023. A Proquigel, que administrava a unidade, disse que ela operava no prejuízo desde o fim de 2022, principalmente pelo gás fornecido pela Petrobras.

A crítica também vai além do gás. Em maio de 2025, Antonino Gomes, diretor-executivo da Ama Brasil, afirmou: “Levar ureia de Sergipe ou da Bahia para o interior do Mato Grosso ou para o Sul do país é caro.” Para ele, “a ureia brasileira terá custo mais alto”.

Esse argumento merece resposta, não desprezo. Uma fábrica que só funciona com subsídio pode encarecer o adubo e pesar no bolso do produtor. Mas o preço do gás não é lei da natureza. Depende de contratos, de prioridades e de decisões públicas.

Por isso, defendemos que a política industrial faça parte da saída. A Petrobras aprovou a retomada das obras da Unidade de Fertilizantes Nitrogenados III (UFN-III), em Três Lagoas (MS), em 13 de abril de 2026. Segundo a Agência iNFRA, a unidade deve produzir 3.600 toneladas de ureia por dia. A estatal prevê início da operação comercial em 2029 e fala em mais de R$ 5 bilhões de investimento.

O que diz a Petrobras: Em declaração publicada na retomada da Ansa, em 30 de abril de 2026, e reproduzida pelo Poder360, o diretor de processos industriais, William França, afirmou: “Com as Fafens e, agora, a Ansa em pleno funcionamento, reduzimos a dependência externa de ureia.”

Até 2029, o país seguirá dependendo de importados para a maior parte do adubo. Segundo a Petrobras, suas unidades do Nordeste e do Paraná atendem cerca de 20% da demanda dos produtores rurais. A conta ainda não fecha.

Soberania não é fechar a porta do mercado. É ter fábrica, gás a preço competitivo e política que continue quando o governo muda. Sem isso, o produtor paga a conta da dependência, e o país perde margem para decidir. O próximo governo terá de dizer se o plano sai do papel e como o gás será precificado.

Como fizemos: Usamos dados da Conab (importações de 2025, boletim de janeiro de 2026), da Secex (janeiro a julho de 2026, via Economic News Brasil), da CNA (boletim de novembro de 2025, dados de janeiro a outubro de 2025) e da consultoria Datamar (2025, via SunSirs), acessados em 22/10/2026. A soma de 58,3% é nossa conta: 32,2% da Rússia mais 26,1% da China. O custo do gás vem de estudo da EPE citado em novembro de 2023, e o preço pode ter mudado. A proporção importada varia entre fontes, e os recortes de volume de Conab e Secex não são iguais.

Fontes