Opinião

Crédito do Plano Safra precisa chegar a quem planta comida

O Pronaf recebe R$ 85,2 bi de R$ 610,3 bi do Plano Safra 2026/27. A agricultura familiar reúne 77% dos estabelecimentos rurais do país.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Pau-Brasil.

Agricultora de Conceição do Coité, na Bahia, segura balde com frutas cortadas em uma sala de processamento
Helena Maria da Hora Xavier separa frutas de sua propriedade para fazer polpa, em Conceição do Coité (BA), em abril de 2014.Foto: Sergio Amaral / Ministério do Desenvolvimento Social / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

Esta é uma coluna de opinião. Ela expressa a posição do Jornal Pau-Brasil, e os fatos citados estão nas fontes ao final.

Em 30 de junho de 2026, o governo lançou o Plano Safra 2026/27 no Palácio do Planalto. O programa anual oferece crédito com juros abaixo do mercado ao produtor rural. Para a agricultura empresarial, o anúncio foi de R$ 525,1 bilhões. Para o Pronaf, a linha da agricultura familiar, foram R$ 85,2 bilhões.

A conta é simples. Somados, os valores dão R$ 610,3 bilhões. O empresarial fica com cerca de 86% do total, e o Pronaf com cerca de 14%. A pergunta que o campo deveria fazer é quem produz o que vai à mesa.

Quem está na conta

O Censo Agropecuário de 2017, do IBGE, mostra o tamanho da agricultura familiar. Eram 3.897.408 estabelecimentos classificados assim, 77% do total do país. Essas propriedades ocupavam 23% da área agropecuária e respondiam por 23% do valor da produção.

Elas também empregavam 10,1 milhões de pessoas, ou 67% da mão de obra do setor. Ou seja, a maioria das propriedades e dos trabalhadores está do lado pequeno da balança. A parcela de crédito não acompanha essa realidade.

O argumento que não se sustenta

Muita gente repete que a agricultura familiar produz 70% dos alimentos do país. Esse número não tem base sólida. Um estudo do Insper Agro Global, de maio de 2025, afirma que a cifra não tem respaldo em fatos concretos.

Outros cálculos dão resultados muito diferentes. Rodolfo Hoffmann estimou 21,4% do consumo de alimentos, em 2014, com dados do Censo de 2006 e da Pesquisa de Orçamentos Familiares. Kageyama e colegas chegaram a cerca de 50%, com outra definição de agricultura familiar. Por isso, o argumento forte não está no 70%. Está na proporção de propriedades, de pessoas e de valor produzido.

O agro empresarial tem peso real, e isso precisa ser dito. O Cepea e a CNA apontam que o agronegócio respondeu por 25,13% do PIB em 2025. Esse número inclui indústria e serviços ligados ao campo. Em exportações, o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) registrou US$ 169,2 bilhões em 2025, 48,5% das vendas externas do país. Esse papel não é pequeno.

Mesmo assim, anunciar crédito não é o mesmo que entregá-lo. Um estudo da FGV Agro aponta que o volume efetivamente contratado caiu 31,7% em termos reais entre as safras 2023/24 e 2025/26. No mesmo período, os valores anunciados subiram cerca de 24%. O dinheiro anunciado precisa chegar à propriedade pequena, com prazo, juros e burocracia que ela consiga cumprir.

O que diz a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA): A bancada diz que o aumento de 1,7% para a agricultura empresarial é apenas nominal, sem ganho real. Segundo o Poder360, a FPA aponta queda real de R$ 29,6 bilhões, ou 5,73%, no programa. A posição vem de comunicado da bancada, relatado pelo Poder360.

Crédito barato para quem produz comida não é favor. É política de abastecimento. Se o dinheiro se concentra no topo da cadeia, o pequeno produtor paga mais caro, desiste ou vende a safra antes da colheita. O resultado aparece na mesa, no preço e na renda do interior.

O Plano Safra da agricultura familiar vai até 30 de junho de 2027. Até lá, a pergunta continua a mesma: os R$ 85,2 bilhões do Pronaf vão chegar à propriedade pequena, ou ficar no papel? Os dados do próximo ano dirão.

Como fizemos: Usamos os valores do Plano Safra 2026/27 divulgados pelo Poder360, acessados em 22/10/2026. Os percentuais de 86% e 14% são cálculos da redação: R$ 525,1 bilhões e R$ 85,2 bilhões divididos pelo total de R$ 610,3 bilhões. Os dados do Censo de 2017 são do IBGE, sem recálculo. A queda de 31,7% é da FGV Agro e não foi recalculada aqui. Os valores não estão corrigidos pela inflação.

Fontes