Ponto de vista

O Brasil não pode depender do trigo que compra de fora

A safra de trigo caiu 27,2% e a importação pode chegar a 9 milhões de toneladas. O país precisa de política pública para o grão.

Este texto integra Ponto de vista, nosso espaço de comentário assinado. A posição é do autor e não necessariamente do Jornal Pau-Brasil.

Lavouras de trigo em campo aberto em Rio Pardo, no Rio Grande do Sul
Lavouras de trigo em Rio Pardo, no Rio Grande do Sul, às margens da BR-471.Foto: Andrecar38 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Em 24 de setembro de 2026, a Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo) elevou para cerca de 9 milhões de toneladas a estimativa de importação nesta temporada. A projeção anterior era de 7,5 milhões. Enquanto a compra de fora cresce, a lavoura brasileira encolhe.

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima uma colheita de 5,7 milhões de toneladas de trigo em 2026. O volume é 27,2% menor que o da safra anterior, segundo o levantamento divulgado em 15 de outubro. Nossa conta é simples: 9 milhões de toneladas importadas equivalem a cerca de 1,6 vez a produção nacional estimada.

O trigo é a matéria-prima da farinha. Os moinhos, que moem o grão, compram de fora quando a colheita não basta. A Argentina segue como principal fornecedora, ao lado de Paraguai e Uruguai, segundo a Agrolink.

Quem planta decide pelo preço

O problema começa antes da colheita. Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da USP, os preços do trigo caíram com força ao longo de 2025. Preço baixo tira o interesse do produtor pela lavoura.

Em janeiro, o Cepea avaliou que essa queda tende a manter o país dependente de importações. O que parece barato para a indústria hoje pode virar vulnerabilidade amanhã.

A Conab tinha projetado, em agosto, importação de 7,1 milhões de toneladas para a safra 2026/27. O número fica abaixo dos 9 milhões que a Abitrigo passou a estimar. A diferença mostra que a projeção ainda muda, mas o sentido é o mesmo: o país compra mais.

O que o Estado pode fazer, e o que dizem os críticos

O Estado já dispõe de ferramentas. A primeira é o preço mínimo, parte da Política de Garantia de Preços Mínimos (PGPM). A Portaria 895, publicada em 26 de março de 2026, fixou valores para o trigo em grãos da safra 2026/27 no Centro-Oeste, no Sudeste, no Sul e na Bahia. A Conab elabora as propostas, e o Conselho Monetário Nacional (CMN) fixa os valores.

O preço mínimo funciona como piso. Dá ao produtor uma referência antes de decidir o que plantar. Não resolve sozinho a conta da lavoura, mas sinaliza que o grão é prioridade para o país.

O seguro rural protege o produtor quando o clima derruba a lavoura. A Abitrigo atribui a revisão às perdas climáticas, e a Conab cita área menor e produtividade mais baixa. A pesquisa também pesa. A Embrapa Trigo, em Passo Fundo (RS), desenvolve variedades e mantém a plataforma Trigo no Brasil.

A armazenagem entra nessa conta. Em janeiro, o Cepea citou projeção da Conab de estoques finais de 2 milhões de toneladas em julho de 2026, o equivalente a 8,7 semanas de consumo. O presidente-executivo da Abitrigo, Daniel Kümmel, lembrou que importa quanto grão estará de fato disponível e onde ele estará.

O argumento contrário tem peso. Quem defende a importação diz que o trigo disputa área com soja e milho, culturas que costumam dar mais retorno ao produtor. Também diz que o grão de fora ajuda a conter o preço do pão.

Os números de importação ajudam a testar esse argumento. Pelo cálculo da Safras & Mercado, o trigo russo chegava a São Paulo por R$ 1.513 por tonelada. O argentino custava R$ 1.637. Os valores são custo CIF, com frete e seguro incluídos, em câmbio de R$ 5,17 por dólar. As fontes consultadas não medem o efeito dessa compra sobre o preço do pão. O IPCA, índice oficial de inflação do IBGE, mede esse preço e pode mostrar a diferença.

A política comercial também pesa. O Mercosul, do qual fazem parte Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, aplica a Tarifa Externa Comum (TEC) às compras de fora do bloco. Em novembro de 2019, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) zerou essa tarifa para até 750 mil toneladas de trigo por ano, dentro de uma cota. A regra foi revogada em 2022 pelo Comitê Executivo de Gestão da Camex (Gecex).

O que diz a Abitrigo: Segundo a Safras & Mercado, que relatou a fala em 24/09/2026, o presidente-executivo Daniel Kümmel disse: “Para moagem, o volume total produzido não conta toda a história”. A entidade atribui a revisão às perdas climáticas. Não localizamos nota oficial da Abitrigo sobre política pública para o trigo, e a redação não contatou a entidade antes desta publicação.

Soberania alimentar não exige que o Brasil produza todo o trigo que consome. Exige que o país tenha escolha. Hoje, a colheita encolhe, o preço desanima o plantio e a compra depende de um fornecedor principal.

A Conab deve revisar as estimativas nos próximos levantamentos. Em 15 de outubro, a colheita nacional tinha chegado a 40,3% da área. A pergunta que fica é se o governo vai usar preço mínimo, pesquisa, armazenagem e tarifa de forma planejada, e não só depois de cada quebra de safra.

Como fizemos: Usamos a reportagem da Safras & Mercado sobre a estimativa da Abitrigo (24/09/2026); o 1º Levantamento da safra 2026/27 da Conab, divulgado pela Agência Gov (15/10/2026); a reportagem da Agrolink sobre o 11º Levantamento da Conab (21/08/2026); a análise do Cepea de 06/01/2026; a Portaria 895 de 26/03/2026, noticiada pelo Notícias Agrícolas; a Resolução Camex 10/2019, conforme o Normas Brasil; e a página da Embrapa Trigo. Acessos em 24/10/2026. Cálculo próprio: 9 milhões divididos por 5,7 milhões, cerca de 1,6 vez. Não consultamos o Comex Stat, do MDIC, por isso o texto não informa a participação exata da Argentina nas compras. Os estoques citados são projeções de janeiro, não dados finais.

Fontes