Ponto de vista

O dia seguinte no campo: três prazos para o próximo presidente

Renegociação de dívidas, Plano Safra e El Niño chegam ao próximo governo, e os prazos já estão correndo para qualquer resultado.

Este texto integra Ponto de vista, nosso espaço de comentário assinado. A posição é do autor e não necessariamente do Jornal Pau-Brasil.

Plantação de milho em área de caatinga, no interior do Ceará
Plantio de milho em área de caatinga, no Ceará, em foto de arquivo.Foto: Geova1 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Amanhã, 25 de outubro, o eleitor escolhe o presidente em segundo turno. Mas três prazos do campo já estão correndo, e vão cair na mesa de quem assumir. Eles tratam de dívida, crédito e clima, e chegam primeiro às cidades pequenas.

O governo lançou o Plano Safra 2026/27 em 30 de junho. O ciclo vai de 1º de julho de 2026 a 30 de junho de 2027. Os anúncios somam R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial e R$ 97,3 bilhões para a familiar, segundo a Agrolink e o Poder360.

O primeiro prazo é 12 de novembro

Em 15 de julho, o governo publicou a Medida Provisória (MP) 1.376. Ela autoriza linhas de crédito para quitar dívidas rurais, com participação da União em um fundo garantidor.

Segundo o Globo Rural, o Banco do Brasil (BB) já renegociou R$ 3,3 bilhões, e outros R$ 6,5 bilhões estão em análise. A data final para contratar é 12 de novembro. O banco espera passar de R$ 20 bilhões até lá.

Esses números mostram quem já chegou ao banco. Não mostram quem ainda não conseguiu entrar no processo, e é aí que o problema pesa mais.

O que diz o Banco do Brasil: O vice-presidente de agronegócios e agricultura familiar, Gilson Bittencourt, afirmou: “Quem ficar para trás vai ter maiores dificuldades de buscar uma solução.” A fala foi publicada pelo Globo Rural em 21/10/2026.

A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) foi na mesma direção. Em carta aberta, disse que a renegociação ainda não chega aos produtores na velocidade necessária, sobretudo aos pequenos.

O cenário de fundo é de dívida alta. A Serasa Experian contou 474 pedidos de recuperação judicial (o processo em que uma empresa endividada pede tempo para pagar) no agro no primeiro trimestre, alta de 21,9%. No segundo, foram 448, queda de 20,7%. A própria Serasa diz que a queda não é melhora definitiva.

Juros, seguro, El Niño e diesel: a conta da safra

Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência, pediu juros mais baixos no crédito rural durante o Agrishow, em Ribeirão Preto, em 27 de abril. Segundo a Folha de Pernambuco, ele também criticou a pouca verba para subvenção ao seguro rural. É uma crítica política, e merece ser debatida com números.

O governo responde com o Plano Safra. Os juros do Pronaf, a linha da agricultura familiar, para custeio de arroz, feijão e mandioca caíram de 3% para 2% ao ano, segundo o SBT News.

A conta que importa é a de quem consegue crédito. De julho a setembro, o crédito rural para a agricultura empresarial somou R$ 107,1 bilhões, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), com dados do Banco Central. O total mostra volume, não o custo que cada produtor paga.

O clima pesa tanto quanto o juro. O prognóstico conjunto do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e da Fundação Cearense de Meteorologia (Funceme) aponta déficit de chuva em grande parte do Centro-Norte e no Nordeste. O Sul deve ter chuva acima da média.

El Niño é o aquecimento anormal das águas do Pacífico, que muda o regime de chuvas no Brasil. A agência americana NOAA dá 98% de chance de um El Niño muito forte entre outubro e dezembro. Para quem está plantando agora, o risco não é teórico.

Na cidade pequena, a aposentadoria rural gira no comércio. O Tribunal de Contas da União (TCU) mostrou que os benefícios rurais passaram de 798 mil em 2015 para 1,2 milhão em 2024, alta de 49%. Em 2024, a arrecadação foi de R$ 9,8 bilhões e o gasto, de R$ 196,9 bilhões.

O TCU fala em déficit estrutural e pede cadastro e controle. Esse é o debate certo. Cobrar controle é diferente de cortar direito de quem trabalha no campo.

O diesel completa a conta. Em 13 de março, a Petrobras subiu R$ 0,38 o litro do diesel vendido às distribuidoras, para um preço médio de R$ 3,65, segundo o Poder360. A estatal ajusta preços pelo petróleo internacional e pelo câmbio. Soberania também é poder decidir sobre o combustível que move a safra.

Os três prazos não dependem do resultado de amanhã. A renegociação termina em 12 de novembro, qualquer que seja o governo. A janela de plantio da safra 2026/27 também corre, sob um El Niño forte. E o Plano Safra atual vai até 30 de junho de 2027, quando o próximo governo terá de desenhar a sequência.

O campo tem pressa, e a cidade pequena também. A escolha é do eleitor. Este jornal defende que crédito público, seguro garantido e aposentadoria rural sejam tratados como política de Estado, e não como tema de campanha que muda a cada eleição.

Como fizemos: Usamos o Globo Rural, via NovaCana (21/10/2026), sobre a renegociação no BB; o portal do Senado, sobre a MP publicada em 15/07/2026; a Serasa Experian, via AgFeed e Revista Cultivar (19/10/2026); a Folha de Pernambuco (27/04/2026); o Plano Safra, via Agrolink, Poder360 e SBT News; o Mapa, via Legisweb (09/10/2026); o Poder360 sobre o diesel (13/03/2026); o TCU (27/08/2025); e o Inmet, via Revista Cultivar (20/09/2026). Acessados em 24/10/2026. Os valores do Plano Safra são os anunciados pelo governo, sem conferência no comunicado oficial. Não usamos a frase atribuída a Flávio Bolsonaro em Goiânia, porque não a localizamos em fonte verificada. Os 12 de novembro são a data dada pelo BB.

Fontes