Crédito rural

Tesouro subsidia só R$ 97 bi dos R$ 525 bi do crédito empresarial

Juros equalizados pelo Tesouro cobrem R$ 97 bilhões do Plano Safra 2026/27, cerca de 18% do crédito empresarial; o resto vem de CPR e LCA.

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva discursa na cerimônia de lançamento do Plano Safra da Agricultura Familiar, no Palácio do Planalto, em Brasília
Lula durante o lançamento do Plano Safra da Agricultura Familiar, no Palácio do Planalto, em Brasília, em 30 de junho de 2026.Foto: Ricardo Stuckert / PR / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Dos R$ 525,1 bilhões do Plano Safra 2026/27 para a agricultura empresarial, apenas R$ 97 bilhões têm juros equalizados pelo Tesouro Nacional. Isso equivale a cerca de 18% do total. O restante vem de outras fontes, e a origem do dinheiro ajuda a explicar quanto o produtor paga.

O anúncio foi feito em 30 de junho de 2026. O total cresceu R$ 9 bilhões, ou 1,7%, em relação ao ciclo anterior, segundo a Gazeta do Povo.

O crédito rural tem fontes obrigatórias e fontes de mercado. O Conselho Monetário Nacional (CMN) obriga os bancos a direcionar parte dos depósitos ao campo. Essa obrigação se chama exigibilidade.

Pela Resolução CMN 5.216, de maio de 2025, a exigibilidade da poupança rural subiu de 65% para 70%. Os depósitos à vista, que são dinheiro em conta corrente, foram para 31,5%. A Letra de Crédito do Agronegócio (LCA), título de investimento que financia o agro, passou para 60% do valor captado, e pelo menos 45% desse total deve ir ao crédito rural.

Quanto é subsidiado

O subsídio chega pela equalização. Nesse mecanismo, o Tesouro paga a diferença entre o custo da operação e a parte que cabe ao produtor, segundo a Confederação Nacional da Agricultura (CNA). O custo dos recursos acompanha a Selic, a taxa básica de juros do país.

Para 2026/27, a conta da equalização chega a R$ 18,1 bilhões, 35% acima do ciclo anterior, segundo o Atlas Público. A reportagem, de julho de 2026, cita a Selic em 14,25% ao ano como fator de pressão.

O efeito chega à taxa. O custeio, dinheiro para as despesas da lavoura, caiu de 14% para 12,5% ao ano para grandes produtores. No Pronamp, linha para médios produtores, foi de 10% para 9%, segundo o Seguro Rural Brasil e a Gazeta do Povo.

Quem financia o restante

Fora da equalização, uma fatia relevante vem de títulos de mercado. Segundo a Gazeta do Povo, cerca de R$ 194 bilhões do plano empresarial vêm de Cédulas de Produto Rural (CPR). A principal base dessas CPRs são as LCAs, que têm isenção de Imposto de Renda.

Uma medida provisória de 2025, a MP 1.303, queria acabar com essa isenção. Ela perdeu validade em outubro de 2025, sem votação no Congresso.

Nos dois primeiros meses da safra 2026/27, a CPR respondeu por R$ 32,4 bilhões dos R$ 65,7 bilhões contratados, segundo o Ministério da Agricultura. A tabela mostra o peso de cada fonte nesse período.

Crédito rural contratado em julho e agosto de 2026, por fonte R$ bilhões; total de R$ 65,7 bilhões

Fonte R$ bilhões Peso
CPR 32,4 49,2% do total
Recursos obrigatórios (controlados) 9,9 41% dos controlados
LCA livre (não controlada) 7,6 não informado
LCA controlada 6,7 28% dos controlados

Fonte: Ministério da Agricultura e Pecuária, com base no Sicor do Banco Central. Elaboração: redação.

Para comparação, o plano de 2025/26 previa R$ 188,53 bilhões em CPR, segundo o Mapa. A Aprosoja Brasil critica essa tendência. Segundo a Gazeta do Povo, o presidente da entidade, Lucas Costa Beber, falou em “expansão acelerada da CPR” e em “retração relativa das linhas tradicionais equalizáveis e controladas”.

O que diz o Ministério da Fazenda: Ao anunciar a mudança das exigibilidades, em 2025, a pasta disse em nota que a medida busca “priorizar o atendimento aos pequenos e médios produtores”, segundo o IstoÉ Dinheiro. Esta reportagem não consultou o ministério para o texto de 2026, e a posição citada é de 2025.

O que isso significa

Os números mostram três pontos. O subsídio direto cobre cerca de 18% do crédito empresarial. Uma fatia relevante do restante depende de CPR, que se apoia em LCA com isenção de Imposto de Renda. A taxa que o produtor paga depende da fonte de cada contrato.

O custo do subsídio segue aberto. Ele acompanha a Selic e sobe quando a taxa sobe, segundo a CNA. O próximo passo é acompanhar o boletim mensal do Ministério da Agricultura, que mostra a fonte de cada contrato.

Como fizemos: Usamos o total e as taxas do Plano Safra 2026/27 divulgados pela Gazeta do Povo, pelo Seguro Rural Brasil e pelo Atlas Público, acessados em 24/10/2026. O site oficial do Mapa estava restrito a login nesse dia. Os contratos de julho e agosto de 2026 vêm do boletim do Mapa, com base no Sicor do Banco Central. A parcela de cerca de 18% é nosso cálculo: R$ 97 bilhões divididos por R$ 525,1 bilhões. Os totais variam entre fontes, que citam R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial e cerca de R$ 610 bilhões com a agricultura familiar. As classificações também mudam entre documentos, por isso os números de 2025/26 não são comparados diretamente com os de 2026/27. As reportagens não informam valor de poupança rural no plano de 2026/27.

Fontes