Opinião

Crédito caro e lento trava o investimento no campo

O crédito rural caiu 37,8% no início da safra 2026/27, e o de investimento, 53,8%. O produtor precisa de regras previsíveis e menos papelada.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Pau-Brasil.

Ilustração abstrata em tons de vermelho-brasa e dourado, com moedas estilizadas sobre faixas que lembram talhões de lavoura
Imagem provisória, a ser substituída antes do lançamento.Ilustração: Imagem provisória

Em 14 de setembro, a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp) mostrou o tamanho do problema. Em julho e agosto, os dois primeiros meses da safra 2026/27, o crédito rural somou R$ 44,3 bilhões. No mesmo período do ano passado, foram R$ 71,3 bilhões. A queda é de 37,8%.

O levantamento, publicado pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), usa dados do Banco Central. O número de contratos caiu 34,4%. O custeio, que paga sementes, adubo e defensivos, recuou 33,1%. O pior resultado foi o do investimento: menos 53,8%.

Do anúncio à porteira

O governo anunciou o Plano Safra 2026/27 em 30 de junho, com R$ 610,3 bilhões para a agricultura empresarial e familiar. O número é grande no palco, mas o que vale é o dinheiro que chega à fazenda. Até agosto, segundo a Faesp, o desembolso equivalia a 10,6% do total, sem contar as Cédulas de Produto Rural (CPRs).

A queda no investimento é a que mais preocupa. O custeio paga a safra deste ano. O investimento paga o armazém, o trator, a irrigação e a correção do solo, que sustentam as próximas dez safras. Quando ele some, a produtividade cai lá na frente, e a conta chega a todos.

Os juros explicam parte do recuo. Na agricultura empresarial, as linhas do plano cobram de 8% a 12,5% ao ano, segundo o Diário do Grande ABC. Na quarta-feira (16), o Banco Central baixou a Selic, a taxa básica de juros do país, para 13,75% ao ano. Ainda é caro para quem tem margem apertada e renda que depende do clima.

Previsibilidade vale tanto quanto juros

Juro alto não é o único obstáculo. Quem planeja comprar uma colheitadeira precisa saber com meses de antecedência quanto dinheiro haverá e em que condições. Hoje, essa resposta só chega no fim de junho, às vésperas do plantio.

A Faesp aponta outro sinal de alerta. Em São Paulo, as operações problemáticas, com atraso ou renegociação, somaram R$ 13,8 bilhões em julho. É uma alta de 64% sobre julho de 2025. Produtor endividado contrata menos, e banco fica mais seletivo.

Três mudanças ajudariam sem exigir um centavo a mais de subsídio. A primeira é um calendário de vários anos para as linhas de investimento, com regras conhecidas antes da safra. A segunda é liberar os recursos num ritmo previsível, sem filas e sem linhas que se esgotam em semanas. A terceira é cortar papelada, integrando cadastros públicos para que o produtor não entregue o mesmo documento várias vezes.

O que diz quem pensa diferente: Cada ponto a menos nos juros do Plano Safra é pago pelo Tesouro Nacional, por meio da equalização. Nesta safra, essa conta foi estimada em R$ 18,1 bilhões, 34% acima da anterior, segundo o Diário do Grande ABC. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que o plano foi “construído com responsabilidade fiscal” num país de juros altos.

O custo fiscal é real, e ninguém sério pede crédito sem limite. Mas um plano que existe no papel e não chega ao campo também custa caro. A safra 2026/27 vai até 30 de junho de 2027, e ainda há tempo de corrigir o ritmo. Se o crédito de investimento não voltar, a fatura aparecerá nas próximas colheitas, em armazéns que não foram erguidos e máquinas que não foram trocadas.

Fontes