Inadimplência rural bate recorde e chega a 9,7% em agosto
Atraso no crédito rural de pessoas físicas chegou a 9,7% em agosto, o maior da série, enquanto os pedidos de recuperação judicial caíram no 2º trimestre.

Em agosto de 2026, 9,7% do crédito rural concedido a pessoas físicas tinha parcelas atrasadas há mais de 90 dias, segundo o Banco Central (BC). É o maior percentual desde o início da série, em 2011. Em dezembro de 2025, a taxa era de 6,58%.
O atraso bate recorde, mas os pedidos de recuperação judicial (RJ) no agro seguem perto do patamar de 2025. A RJ é um processo na Justiça que dá prazo para reorganizar dívidas. Em 2025, a Serasa Experian, empresa de dados de crédito, contou 1.990 pedidos, o maior volume da série iniciada em 2021.
Pedidos de RJ sobem no 1º trimestre e caem no 2º
O primeiro trimestre de 2026 teve 474 pedidos, alta de 21,9% sobre igual período de 2025. No segundo, foram 448, queda de 20,7%. Foi a primeira queda para um segundo trimestre desde 2022.
Pedidos de RJ no agro sobem no 1º tri e caem no 2º Número de pedidos por trimestre e semestre, 2025 e 2026
| Período | 2025 | 2026 | Variação |
|---|---|---|---|
| 1º trimestre | 389 | 474 | +21,9% |
| 2º trimestre | 565 | 448 | −20,7% |
| 1º semestre | 954 | 922 | −3,4% |
Fonte: Serasa Experian. O total do 1º semestre de 2025 foi calculado pela redação (922 mais 32). Elaboração: redação.
O primeiro semestre fechou com 922 pedidos, 32 a menos que em 2025. Até o fim de junho, 2026 ainda não superou 2025. Os números contam pedidos, não produtores em processo, e a Serasa ressalta que os perfis podem se sobrepor.
Juros altos explicam o atraso, diz estudo
Um estudo do Cepea, centro de pesquisa da USP, atribui o atraso ao custo do dinheiro, e não ao tamanho da dívida. Segundo o texto, o estoque de dívida em 2025 ficou dentro da faixa de 2013 a 2019, em relação à renda agrícola. Já a taxa média para pessoas físicas subiu de 6,3% ao ano, em 2021, para 12,2%, em 2025.
O atraso se concentrou nas linhas de juros livres: 77% do saldo em atraso, com taxa de 17,6%. Nas linhas de juros controlados, a taxa foi de 3,8%. A Selic, taxa básica de juros do país, começou a cair em março, a partir de 15% ao ano. Chegou a 13,75% na decisão de 16 de setembro.
Mesmo com os cortes de junho e agosto, a inadimplência subiu de 7,48% em junho para 9,69% em agosto. Os dados mostram que os dois movimentos coincidem. Eles não provam que um causou o outro.
Renegociação cobre só parte do campo
Em julho de 2026, o governo publicou a Medida Provisória (MP) 1.376, que autoriza renegociar dívidas rurais. Uma MP vale de imediato, mas precisa ser aprovada pelo Congresso para virar lei.
Na regra geral, o produtor precisa comprovar perdas em duas safras ou mais, entre 2019 e 2025, com queda de pelo menos 30% na renda bruta. A prova é um laudo técnico de engenheiro agrônomo ou técnico agrícola. Ficam de fora dívidas com revendas, tradings (empresas de comercialização de produtos agrícolas) e agroindústrias.
Para custeio, o dinheiro da safra, o contrato deve ser de até 31 de dezembro de 2025, com atraso desde 1º de janeiro de 2024 e ainda em atraso em 31 de maio de 2026. A MP não apaga a dívida. Ela cria novo contrato, com juros de 5% a 12% ao ano e dois anos de carência para o principal. O prazo para contratar termina em 12 de novembro de 2026.
Segundo o Cepea, três quartos do saldo problemático, de R$ 205 bilhões em agosto, já foram renegociados ou prorrogados. Esses valores ficam fora do índice oficial de inadimplência. Até o início de outubro, a MP tinha renegociado R$ 5,98 bilhões, cerca de 5% do valor estimado.
O que diz a Serasa Experian: Ao divulgar os dados do segundo trimestre, em 19 de outubro, Marcelo Pimenta, responsável pelo agronegócio na empresa, afirmou: “Ainda assim, o ambiente segue desafiador, marcado por custos elevados, crédito mais seletivo e endividamento.” Para a empresa, a recuperação judicial “deve permanecer como último recurso”. Não houve contato direto com a empresa para este texto; a posição foi publicada pela Forbes Agro.
O que isso significa
Os dados mostram um problema de custo. O atraso está no maior nível da série, e a RJ segue perto do patamar de 2025. A renegociação atinge só quem comprova perdas e tem dívida nas linhas previstas.
Em aberto estão três pontos: a aprovação da MP pelo Congresso, o efeito da queda da Selic no custo do crédito rural e se os produtores conseguem contratar até 12 de novembro.
Como fizemos: Usamos a série 21148 do Banco Central, sobre inadimplência do crédito rural de pessoas físicas, de março de 2011 a agosto de 2026, acessada em 23/10/2026. Os valores de meses anteriores podem ser revisados pelo BC, e usamos a versão atual. O total de 954 pedidos no 1º semestre de 2025 e a variação de −3,4% são nossos cálculos, a partir da diferença de 32 pedidos informada pela Economic News Brasil. Os pedidos de RJ não medem o total de dívidas rurais, e os números do estudo do Cepea não foram refeitos por nós.
Fontes
- Recuperação judicial agro fecha 2025 com quase 2 mil solicitações do recurso — Serasa Experian
- Recuperação judicial agro tem alta de 22% no 1º trimestre de 2026 — Serasa Experian
- Recuperação judicial no agro cai 20,7% no 2º trimestre de 2026 — Forbes Agro (dados da Serasa Experian)
- Recuperação judicial no agro segue perto do recorde de 2025 — Economic News Brasil
- Série 21148 — Inadimplência da carteira de crédito com recursos direcionados, pessoas físicas, crédito rural total — Banco Central (SGS) (acesso em 23/10/2026)
- Inadimplência recorde no agro vem do custo e não do tamanho da dívida, aponta Cepea — Itatiaia
- Copom reduz Selic de 14,25% para 14% ao ano — Atlas Público
- Nova taxa Selic chega em setembro ao patamar projetado para dezembro — Economic News Brasil
- Renegociação de dívidas do agro: entenda as regras da MP 1.376 — CNA Brasil (resumo técnico da Faesp)
- Cerimônia de Lançamento do Plano Safra Agricultura Familiar, 30/06/2026 — Wikimedia Commons



