Refinar diesel no Brasil protege a safra e o preço do produtor
Cerca de 29% do diesel consumido no país é importado, segundo a Petrobras. Para nós, refinar aqui é questão de soberania e de custo para o produtor.
Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Pau-Brasil.

Em 18 de junho de 2026, a presidente da Petrobras (Petróleo Brasileiro S.A.), Magda Chambriard, disse que a empresa quer reduzir a importação de diesel para 15%, e não 29%. A fala foi feita em aula magna na Universidade Sorbonne, no Rio de Janeiro. Para quem planta e colhe, esse número pesa mais do que parece.
O diesel é o combustível que move a safra. Ele abastece o caminhão que leva o grão ao porto e as máquinas que plantam e colhem. Quando o preço sobe, o aumento chega à porteira antes de a colheita ser vendida.
Um levantamento da consultoria Aegro mostra o peso desse custo. Ele reúne 507 mil notas fiscais de compra de diesel feitas por fazendas brasileiras, de 2018 a agosto de 2026. Em 2025, o combustível respondeu por 5,25% do custo de produção da soja por hectare.
A fatia parece pequena. Mas o gasto com diesel por hectare de soja subiu 180,4% entre 2018 e 2025. Segundo a mesma pesquisa, o preço pago pelo produtor foi de R$ 3,50 por litro em 2018 e de R$ 6,56 na média parcial de 2026, até agosto.
Quem refina decide o preço
O Brasil importa diesel porque a produção interna não acompanha o consumo. A consultoria StoneX atribui a alta das compras de fora a mais demanda e a menos produção nacional. Segundo a revista Hydrocarbon Processing, as importações chegaram a cerca de 20% do consumo em 2025, num recorde de 17,3 bilhões de litros.
A Petrobras usa outro número. Segundo reportagem da Reuters publicada pelo SBT News, cerca de 29% do diesel consumido no país é importado. As fontes divergem em método e data. Ainda assim, as duas medidas mostram dependência.
A produção nacional avançou em pontos específicos. Em abril de 2026, a Refinaria Abreu e Lima (RNEST), em Ipojuca (PE), bateu recorde de produção de diesel S-10, com 385 milhões de litros, segundo o Diário de Pernambuco. O S-10 é o diesel de baixo teor de enxofre.
O próximo passo é o Trem 2 da RNEST, a segunda linha de processamento da refinaria. A Petrobras estima que a obra dobre a capacidade, de 130 mil para 260 mil barris por dia. A estatal investe cerca de R$ 12 bilhões na conclusão do Trem 2 e na manutenção do Trem 1. Segundo o Diário de Pernambuco, a conclusão está prevista para 2029.
O preço é uma escolha pública
Há um argumento contrário, e ele tem base. A Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) divulgou que, em 24 de julho de 2026, a defasagem do diesel estava em 58%, segundo o O Povo. Defasagem é a diferença entre o preço da Petrobras e o preço de paridade de importação, ou seja, o que custaria trazer o diesel de fora.
A Petrobras tem outra explicação. Em março de 2026, Magda Chambriard disse, segundo a Reuters: “A Petrobras está seguindo sua estratégia comercial, evitando o repasse de volatilidade dos preços internacionais.”
O alívio ao consumidor também tem custo público. Em março, o governo criou um subsídio de R$ 0,32 por litro para empresas que aderissem, segundo a Reuters. Para Eduardo Oliveira de Melo, da Raion Consultoria, a medida “nem sequer chega perto de resolver o problema da defasagem de preços existente”.
Para nós, a conclusão é outra. Defendemos que o preço do diesel seja tratado como política pública, com o refino nacional como instrumento. Uma estatal forte pode usar a própria refinaria para amortecer choques. Sem capacidade própria, o produtor fica mais exposto ao preço que vem de fora.
O que diz a Petrobras: Em 18 de junho de 2026, na aula magna na Universidade Sorbonne, Magda Chambriard afirmou: “estamos ampliando essa capacidade de refino para reduzir a importação para ser 15% e não 29%”. A fala foi publicada pela Reuters e reproduzida pelo SBT News.
Soberania no diesel não significa fechar a porta ao mercado. Significa ter refinaria produzindo, obra concluída e regra de preço que não dependa só do exterior. O Trem 2 segue em construção, com conclusão prevista para 2029. Até lá, a pergunta continua aberta: quem decide o preço do diesel que chega ao campo?
Como fizemos: Usamos a fala de Magda Chambriard e a reportagem da Reuters (18/06/2026), a estimativa da StoneX publicada pela Hydrocarbon Processing (2025), o levantamento da Aegro publicado pela Revista Cultivar (26/08/2026), a defasagem divulgada pela Abicom (24/07/2026) e reportagens sobre a RNEST de junho de 2025 e maio de 2026, acessados em 23/10/2026. Os percentuais de custo e de gasto por hectare são da Aegro, sem cálculos nossos. Os números de importação variam entre fontes e datas, e não encontramos dado oficial da ANP (Agência Nacional do Petróleo) para 2025. Não encontramos comunicado oficial de 2026 que confirme o cronograma do Trem 2.
Fontes
- Petrobras amplia refino para reduzir diesel importado a 15% — SBT News (Reuters) (acesso em 23/10/2026)
- Brazil’s diesel imports hit record in 2025 amid local production decline — Hydrocarbon Processing (dados da StoneX) (acesso em 23/10/2026)
- Petrobras eleva diesel em 11,6%, mas diz que impacto na bomba será residual — Notícias Agrícolas (Reuters) (acesso em 23/10/2026)
- Abicom: queda do petróleo não alivia diesel e defasagem no Brasil abre semana em 58% — O Povo (acesso em 23/10/2026)
- Custo do diesel na produção de soja mais que dobrou em 8 anos — Revista Cultivar (dados da Aegro) (acesso em 23/10/2026)
- Refinaria Abreu e Lima bate recorde de produção de diesel em abril — Diário de Pernambuco (acesso em 23/10/2026)
- Petrobras assina contratos de R$ 4,9 bilhões para retomar o Trem 2 da RNEST — Diário de Pernambuco (acesso em 23/10/2026)



