Crédito rural

13,75% hoje, 12% em 2027: o mercado não espera Flávio para cortar juros

O boletim Focus já projeta Selic de 13,25% no fim de 2026 e 12% no fim de 2027; a meta de Marinho para um governo Flávio é praticamente a mesma.

Fachada do prédio histórico da bolsa de valores de São Paulo, com o letreiro Bovespa nas portas
O prédio histórico da bolsa de valores de São Paulo, hoje B3, ainda com o antigo letreiro Bovespa, no centro da capital paulista, em fevereiro de 2017.Foto: Wilfredor / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

A Selic, a taxa básica de juros do país, está em 13,75% ao ano. Chegou a esse nível em 16 de setembro, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central fez o quinto corte seguido. E o mercado espera mais: 13,25% no fim de 2026 e 12% no fim de 2027.

As projeções são do boletim Focus, a pesquisa semanal do Banco Central com economistas do mercado. O levantamento divulgado na terça-feira (13) foi noticiado pelo Diario de Pernambuco e pela Bloomberg Línea. Pelas projeções, a queda acontece qualquer que seja o vencedor do segundo turno.

A promessa que já está no preço

A campanha de Flávio Bolsonaro (PL) vende a queda dos juros como fruto de uma vitória dele. Em 31 de agosto, o coordenador Rogério Marinho disse que a Selic poderia chegar a 12% ou 13%, se o controle fiscal viesse cedo. A declaração foi registrada pelo site Eu Quero Investir.

Compare os números. A meta de Marinho é de 12% a 13%. A projeção do mercado para o fim de 2027 é de 12%, com qualquer presidente. Ou seja: a campanha promete, como conquista, aquilo que o mercado já espera que aconteça de qualquer jeito.

O plano de governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também não ajuda a separar as duas coisas. Segundo a Forbes, ele liga juros menores a contas em ordem, mas não fixa trajetória para a Selic. Também não menciona a autonomia do Banco Central.

O que é verdade a favor dele

Um jornal sério registra também o que favorece o adversário. A Bloomberg Línea associou a revisão da Selic de 2026, de 13,50% para 13,25%, ao avanço de Flávio nas eleições. Parte do mercado aposta que um governo dele cortaria gastos, e isso pesa nas projeções.

Mas aposta não é plano. Os economistas de bancos reunidos pela newsletter InfoEconomics deixam isso claro. O Inter vê cortes mais rápidos só com um pacote fiscal crível. O Goldman Sachs vê pouco espaço no curto prazo, porque a inflação de serviços resiste.

O JPMorgan espera uma pausa nos cortes até abril. O Santander projeta cerca de 11% no fim de 2027. Em todos os cenários, a condição para ir além do Focus é a mesma: um ajuste fiscal que saia do papel.

E o obstáculo não é pequeno. O próprio Focus projeta inflação de 5,22%, bem acima da meta de 3%. Com a inflação nesse nível, o Copom tem pouca margem para acelerar, seja quem for o presidente.

Ajuste sem detalhe

Ex-dirigentes da economia ouvidos pelo Jornal de Brasília, como Arminio Fraga e Henrique Meirelles, esperam que Flávio evite detalhar o ajuste. Analistas lembram ainda que um Congresso fragmentado limita o que ele conseguiria aprovar. Sem detalhe e sem votos garantidos, o “pacote crível” que os bancos pedem fica distante.

Também falta saber quem negociaria com o Copom. Para a Fazenda, circulam os nomes de Adolfo Sachsida, Marcelo Kayath, Roberto Campos Neto, Mansueto Almeida e Gustavo Montezano, segundo o NSC Total. Para o Banco Central, a campanha não apresentou nenhum nome. Quem promete juros menores deveria dizer, ao menos, com quem pretende conversar sobre eles.

Para o produtor, a diferença importa. O custeio da safra, o financiamento de máquinas e a rolagem de dívidas acompanham, de um jeito ou de outro, o nível dos juros. Saber que 12% em 2027 já é a aposta do mercado ajuda a avaliar a promessa com frieza.

O que diz a campanha: O coordenador Rogério Marinho afirmou que a Selic pode cair a 12% ou 13% se o controle fiscal vier logo no início de um governo Flávio, segundo o Eu Quero Investir. O plano de governo vincula a queda dos juros a contas públicas em ordem, segundo a Forbes.

O segundo turno é no dia 25. Os juros vão cair com Lula ou com Flávio, segundo a projeção de quem acompanha o mercado de perto.

A pergunta que resta ao eleitor não é “quem baixa os juros”. É qual candidato tem um plano concreto para ir além do que já está previsto. Até aqui, a campanha do PL não mostrou esse plano.

Fontes