Crédito rural

Quem baixa os juros é o Copom, não o presidente

No debate da Band, Flávio prometeu juros caindo "de uma forma muito rápida"; o plano dele não traz meta para a Selic nem cita o Banco Central.

Edifício-sede do Banco Central do Brasil, em Brasília
O edifício-sede do Banco Central do Brasil, onde se reúne o Copom, no Setor Bancário Sul, em Brasília, em fevereiro de 2015.Foto: Jonas Pereira / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

No debate da Band, no domingo (18), Flávio Bolsonaro (PL) fez uma promessa que todo produtor gostaria de ouvir. Se eleito, disse ele, os juros vão começar a cair “de uma forma muito rápida”. A frase foi registrada pelo Metrópoles. O problema é que quem decide os juros no Brasil não é o presidente.

A taxa básica de juros do país, a Selic, é definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom). O comitê é formado pela diretoria do Banco Central (BC). Desde 2021, a lei dá mandatos fixos a esses diretores, que não coincidem com o do presidente. Um presidente pode influenciar o ambiente, mas não aperta o botão.

A Selic já está caindo

Há outro detalhe que a promessa deixa de fora. A Selic já está em queda. Em 16 de setembro, o Copom fez o quinto corte seguido e levou a taxa a 13,75% ao ano. A decisão veio antes de qualquer voto do segundo turno.

O mercado também já conta com novos cortes. O boletim Focus, pesquisa semanal do BC com economistas, projetou em 13 de outubro uma Selic de 13,25% no fim de 2026. Para o fim de 2027, a projeção é de 12%. Segundo o levantamento, essa é a expectativa independentemente de quem vença.

Por que, então, os juros não caem mais depressa? Uma das razões é a inflação. O mesmo Focus projeta inflação de 5,22%, bem acima da meta de 3%. Com preços subindo acima do combinado, o Copom tende a ir com cautela.

É um fato desfavorável ao governo atual, e este jornal o registra.

O que Flávio propõe, e o que falta

No debate, Flávio culpou os gastos do governo pelos juros altos. Prometeu liberar mais de R$ 200 bilhões no Orçamento e propôs comprar dívidas de pessoas e empresas junto aos bancos, segundo o Metrópoles e o portal ND+. A ideia central é que cortar gastos devolve a confiança e abre espaço para juros menores.

O argumento tem lógica, mas o plano não entrega a peça que falta. Segundo a Forbes, o programa registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) prevê um “tesouraço” nos gastos e novas regras fiscais. Mas não traz trajetória para a Selic. Também não menciona o Banco Central nem a autonomia dele.

Os economistas de bancos ouvidos pela newsletter InfoEconomics são cautelosos. O Goldman Sachs vê pouco espaço no curto prazo, porque a inflação de serviços resiste. O Inter só vê cortes mais rápidos com um pacote fiscal crível. O JPMorgan espera uma pausa até abril.

O Santander projeta cerca de 11% no fim de 2027. A análise publicada pela InfoEconomics discute, inclusive, se o favoritismo de Flávio pode acelerar os cortes. A condição, de novo, é um ajuste fiscal que convença.

Até aqui, nenhuma agência de checagem avaliou a promessa de juros caindo de forma “muito rápida”. A Lupa checou outra frase dele no mesmo debate: a dívida bruta de R$ 11,1 trilhões, ou 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB). Classificou o dado como verdadeiro.

A conta dos bancos mostra que a velocidade depende de um ajuste que ainda não existe no papel. O próprio coordenador Rogério Marinho falou, em agosto, numa Selic de 12% a 13% caso o controle fiscal venha cedo.

O que isso significa no campo

Para o produtor, juro é custo de produção. Ele entra no custeio da lavoura, no financiamento da máquina e na rolagem da dívida com a cooperativa. Uma promessa de queda rápida soa como alívio imediato.

Só que a Selic que o mercado projeta para 2027 já está na mesa, com qualquer vencedor. O que um novo presidente pode mudar é o ritmo, e só se convencer o Copom com números. Promessa de palanque não convence comitê de política monetária.

O que diz Flávio Bolsonaro: No debate da Band, o candidato atribuiu os juros altos aos gastos do governo Lula. Disse que vai liberar mais de R$ 200 bilhões no Orçamento e que, com as contas em ordem, os juros cairão rapidamente, segundo o Metrópoles.

O segundo turno é no domingo (25). Flávio promete o que não controla e não mostra como pretende convencer quem controla. O eleitor do interior pode cobrar uma coisa simples: o número do corte, o prazo e o nome de quem vai negociar com o Banco Central. Até agora, nenhum dos três apareceu.

Fontes