Quem baixa os juros é o Copom, não o presidente
No debate da Band, Flávio prometeu juros caindo "de uma forma muito rápida"; o plano dele não traz meta para a Selic nem cita o Banco Central.

No debate da Band, no domingo (18), Flávio Bolsonaro (PL) fez uma promessa que todo produtor gostaria de ouvir. Se eleito, disse ele, os juros vão começar a cair “de uma forma muito rápida”. A frase foi registrada pelo Metrópoles. O problema é que quem decide os juros no Brasil não é o presidente.
A taxa básica de juros do país, a Selic, é definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom). O comitê é formado pela diretoria do Banco Central (BC). Desde 2021, a lei dá mandatos fixos a esses diretores, que não coincidem com o do presidente. Um presidente pode influenciar o ambiente, mas não aperta o botão.
A Selic já está caindo
Há outro detalhe que a promessa deixa de fora. A Selic já está em queda. Em 16 de setembro, o Copom fez o quinto corte seguido e levou a taxa a 13,75% ao ano. A decisão veio antes de qualquer voto do segundo turno.
O mercado também já conta com novos cortes. O boletim Focus, pesquisa semanal do BC com economistas, projetou em 13 de outubro uma Selic de 13,25% no fim de 2026. Para o fim de 2027, a projeção é de 12%. Segundo o levantamento, essa é a expectativa independentemente de quem vença.
Por que, então, os juros não caem mais depressa? Uma das razões é a inflação. O mesmo Focus projeta inflação de 5,22%, bem acima da meta de 3%. Com preços subindo acima do combinado, o Copom tende a ir com cautela.
É um fato desfavorável ao governo atual, e este jornal o registra.
O que Flávio propõe, e o que falta
No debate, Flávio culpou os gastos do governo pelos juros altos. Prometeu liberar mais de R$ 200 bilhões no Orçamento e propôs comprar dívidas de pessoas e empresas junto aos bancos, segundo o Metrópoles e o portal ND+. A ideia central é que cortar gastos devolve a confiança e abre espaço para juros menores.
O argumento tem lógica, mas o plano não entrega a peça que falta. Segundo a Forbes, o programa registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) prevê um “tesouraço” nos gastos e novas regras fiscais. Mas não traz trajetória para a Selic. Também não menciona o Banco Central nem a autonomia dele.
Os economistas de bancos ouvidos pela newsletter InfoEconomics são cautelosos. O Goldman Sachs vê pouco espaço no curto prazo, porque a inflação de serviços resiste. O Inter só vê cortes mais rápidos com um pacote fiscal crível. O JPMorgan espera uma pausa até abril.
O Santander projeta cerca de 11% no fim de 2027. A análise publicada pela InfoEconomics discute, inclusive, se o favoritismo de Flávio pode acelerar os cortes. A condição, de novo, é um ajuste fiscal que convença.
Até aqui, nenhuma agência de checagem avaliou a promessa de juros caindo de forma “muito rápida”. A Lupa checou outra frase dele no mesmo debate: a dívida bruta de R$ 11,1 trilhões, ou 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB). Classificou o dado como verdadeiro.
A conta dos bancos mostra que a velocidade depende de um ajuste que ainda não existe no papel. O próprio coordenador Rogério Marinho falou, em agosto, numa Selic de 12% a 13% caso o controle fiscal venha cedo.
O que isso significa no campo
Para o produtor, juro é custo de produção. Ele entra no custeio da lavoura, no financiamento da máquina e na rolagem da dívida com a cooperativa. Uma promessa de queda rápida soa como alívio imediato.
Só que a Selic que o mercado projeta para 2027 já está na mesa, com qualquer vencedor. O que um novo presidente pode mudar é o ritmo, e só se convencer o Copom com números. Promessa de palanque não convence comitê de política monetária.
O que diz Flávio Bolsonaro: No debate da Band, o candidato atribuiu os juros altos aos gastos do governo Lula. Disse que vai liberar mais de R$ 200 bilhões no Orçamento e que, com as contas em ordem, os juros cairão rapidamente, segundo o Metrópoles.
O segundo turno é no domingo (25). Flávio promete o que não controla e não mostra como pretende convencer quem controla. O eleitor do interior pode cobrar uma coisa simples: o número do corte, o prazo e o nome de quem vai negociar com o Banco Central. Até agora, nenhum dos três apareceu.
Fontes
- Se eleito, Flávio diz que a taxa de juros vai cair de forma muito rápida — Metrópoles
- Economia no debate: Lula e Flávio Bolsonaro falam de dívida e juros — ND+
- Tesouraço: o plano econômico de Flávio Bolsonaro — Forbes
- Estimativa para a Selic ao fim de 2026 passa de 13,50% para 13,25% — Diario de Pernambuco
- Favoritismo de Flávio Bolsonaro pode acelerar cortes da Selic — InfoEconomics
- Marinho diz que juros podem cair até 12% com Flávio Bolsonaro — Eu Quero Investir
- Ao vivo: checagem do debate entre Lula e Flávio Bolsonaro na Band — Lupa



