Ponto de vista

Quebra da cevada exige pesquisa e proteção contra o clima

Opinião: perda de 42% no RS e grãos fora do malte mostram que adaptação precisa de ciência, Ater e seguro rural acessível.

Este texto integra Ponto de vista, nosso espaço de comentário assinado. A posição é do autor e não necessariamente do Jornal Pau-Brasil.

Espigas verdes de cevada em close antes da maturação
Espigas de cevada em Fernelmont, Bélgica, em 29 de maio de 2007; imagem de arquivo.Foto: Raul Dupagne / Wikimedia Commons (domínio público)

A safra gaúcha de cevada deve recuar 42% em 2026. A Emater/RS-Ascar estima 67.242 toneladas, ante 115.935 no ano anterior. A perda de volume é grave. A perda de qualidade expõe um problema ainda maior para a política agrícola.

Parte dos grãos não germina no padrão exigido pela malteação e segue para alimentação animal. Em Tio Hugo, produtividade de 3.900 quilos por hectare não garantiu aproveitamento industrial. O clima atingiu a renda sem deixar uma lavoura visualmente vazia.

Área e qualidade caem ao mesmo tempo Comparação da cevada gaúcha em 2025 e na estimativa de 2026

Indicador 2025 2026 estimado
Área 32.010 hectares 21.591 hectares
Produção 115.935 toneladas 67.242 toneladas
Produtividade média Cerca de 3.622 kg/ha 3.114 kg/ha

Fonte: Emater/RS-Ascar e IBGE. A produtividade de 2025 foi calculada pela redação.

Ciência precisa chegar à classificação

Contratos com a indústria cervejeira não impediram a retração de 32,55% da área. O receio de El Niño e do excesso de umidade pesou na decisão. O setor privado organizou a compra, mas o risco climático continuou com o produtor.

A resposta não pode ser apenas recomendar nova tentativa no próximo ano. Pesquisa pública precisa desenvolver cultivares e manejos para chuvas mais irregulares. Também deve medir germinação, peso hectolitro e micotoxinas antes da comercialização.

A Embrapa mantém trabalho de melhoramento genético voltado a produtividade, qualidade para malteação e tolerância a estresses. Esse conhecimento ganha valor quando chega à propriedade. Não basta publicar uma cultivar promissora.

A Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater) precisa transformar a pesquisa em decisão local. Solo, cultivar, calendário e armazenagem mudam o resultado. O produtor necessita acompanhamento antes do plantio e durante a classificação.

O caso mostra ainda que seguro baseado só em toneladas pode deixar uma lacuna. Um lote produtivo, mas fora do padrão industrial, também sofre perda econômica. Coberturas e laudos precisam reconhecer essa realidade quando houver contrato adequado.

Proteção é investimento produtivo

O Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) reduz o custo da apólice com auxílio federal. O mecanismo não elimina o risco nem indeniza qualquer desconto comercial. Ainda assim, é instrumento importante de proteção da capacidade produtiva.

A subvenção deve ser avaliada pela facilidade de acesso e pela cobertura efetiva. O pequeno produtor não pode enfrentar sozinho custo, documentação e incerteza sobre o que a apólice cobre. Transparência é parte da política pública.

Também é preciso aprender com a destinação alternativa. A ração evita que todo o produto se perca, mas atende outro mercado. Sem dados consolidados de desconto, não se pode calcular a perda de renda. Emater e indústria devem tornar esse resultado visível.

Isso não significa transferir toda responsabilidade ao Estado. Indústria, cooperativas e produtores têm papel no planejamento e no compartilhamento de riscos. Significa reconhecer que pesquisa e proteção são infraestrutura, como estrada e armazém.

A malteação depende de germinação controlada. Por isso, a quebra não será resolvida apenas com maior área no ciclo seguinte. Qualidade precisa orientar investimento, assistência e desenho do seguro.

Os próximos boletins devem separar volume colhido, lote aprovado para malte e destino à ração. Essa transparência permitiria calcular o desconto e orientar a próxima safra. Sem essa divisão, produtor e indústria conhecem a quebra total, mas não sua dimensão comercial.

O que dizem Emater e Mapa: A Emater registra a retração da produção e os problemas de germinação, peso hectolitro e micotoxinas. O Mapa apresenta o PSR como forma de reduzir o custo do seguro e minimizar perdas do capital investido, conforme as condições da apólice.

A cevada gaúcha oferece um alerta para toda a agricultura. O país precisa tratar adaptação climática como política de produção e soberania alimentar. Pesquisa, Ater e seguro acessível devem chegar antes que o próximo temporal transforme safra boa em grão desclassificado.

Como fizemos: Comparamos os dados da Emater publicados em 5/11/2026, o programa de melhoramento da Embrapa e a descrição oficial do PSR. Calculamos a produtividade de 2025. A defesa de pesquisa e proteção é nossa posição editorial; não atribuímos às instituições uma cobertura inexistente para desclassificação comercial.

Fontes