Ponto de vista

Reeleito, Lula tem a chance de reconstruir a política para o campo

Plano Safra que chegue a quem planta comida, seguro antes do El Niño e aposentadoria rural protegida: o que o novo mandato precisa fazer.

Este texto integra Ponto de vista, nosso espaço de comentário assinado. A posição é do autor e não necessariamente do Jornal Pau-Brasil.

Quatro homens sentados diante de um grande mosaico de legumes e verduras, com agricultores segurando bandeiras de movimentos rurais ao fundo
Lula posa com agricultores diante de mosaico de alimentos no lançamento do Plano Safra da Agricultura Familiar 2024/25, em Brasília, em 3 de julho de 2024.Foto: Lula Oficial / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

Em 25 de outubro de 2026, Lula foi reeleito presidente com 51,79% dos votos válidos, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Flávio Bolsonaro (PL) teve 48,21%, uma diferença de 4.430.191 votos.

O mapa mostra um país dividido. Lula venceu em todo o Nordeste, em Minas Gerais e em três estados do Norte. Flávio venceu em 13 estados e no Distrito Federal, entre eles Mato Grosso, Goiás, Paraná e Rio Grande do Sul.

Flávio disse que não reconhece o resultado e defendeu a anulação da eleição, segundo a InfoMoney. A pergunta, então, é o que o novo mandato fará por quem produz comida, inclusive por quem votou contra.

Crédito que chegue a quem planta comida

O Plano Safra é o programa anual de crédito com juros subsidiados para a produção rural. A edição 2026/27, lançada em 30 de junho, soma R$ 610,3 bilhões. Desse total, R$ 525,1 bilhões vão para a agricultura empresarial e R$ 85,2 bilhões para o Pronaf, a linha de crédito da agricultura familiar.

Nossa conta: a agricultura empresarial fica com 86% do dinheiro. No Censo Agropecuário de 2017, do IBGE, a agricultura familiar reúne 77% dos estabelecimentos rurais, mas responde por 23% do valor da produção. Ela também emprega 67% da mão de obra do setor, mais de 10 milhões de pessoas.

O setor empresarial faz outra conta. A Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) afirma que o plano cai 5,73% em termos reais, ou R$ 29,6 bilhões, se forem excluídos R$ 38,5 bilhões de fontes que a entidade não considera crédito rural tradicional.

O que diz a ministra Fernanda Machiaveli (Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar): No lançamento, em 30 de junho, disse que o plano chega a mais de 2,4 milhões de agricultores familiares, segundo a Forbes Agro. A redação não contatou o ministério antes desta publicação.

O seguro chega antes do El Niño?

O El Niño é um aquecimento anormal das águas do Pacífico, que altera as chuvas em vários países. Em 10 de setembro, o Inmet informou a estimativa da NOAA, agência de clima dos Estados Unidos: mais de 90% de chance de um El Niño muito forte na primavera e no verão de 2026/27.

A mesma atualização dá 75% de chance de o trimestre de outubro a dezembro ter o evento mais forte desde 1950. Mesmo assim, o seguro rural encolhe. A proposta de orçamento de 2027 reserva R$ 1,2 bilhão ao Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR), que ajuda a pagar o seguro do produtor.

Segundo a Sou Agro, só R$ 318,5 milhões são recursos livres. Os R$ 881,5 milhões restantes dependem da Regra de Ouro, que proíbe o governo de se endividar para pagar despesas correntes sem autorização do Congresso.

A FGV-Agro estima em R$ 2,37 bilhões o necessário para recuperar a cobertura de 2021. Com os recursos livres, o PSR chegaria a 13,4% dessa conta. Pedro Loyola, coordenador do Observatório do Crédito e Seguro Rural da FGV-Agro, resume: “É muito mais racional apoiar seguro antes da perda do que renegociar dívida depois da quebra.”

O argumento contrário

O argumento contrário tem peso. O orçamento está apertado, e o governo tem metas fiscais a cumprir. Em junho, o governo bloqueou R$ 461,7 milhões do seguro rural, segundo a CNN Brasil. O limite é real, mas é uma escolha de prioridades, e o seguro é uma delas.

Também se diz que o governo perde no campo, onde Flávio venceu em estados do Centro-Oeste e do Sul. Ainda assim, a FPA criticou Lula por ter ido só ao lançamento da agricultura familiar. Disse que a postura reforça “uma tentativa equivocada do governo de dividir o agro brasileiro”.

A divisão política é real, mas a conta do seguro não depende de partido. A própria FPA projeta a menor cobertura em dez anos, de 2,69 milhões de hectares.

Aposentadoria rural também está em jogo

A Constituição garante aposentadoria a trabalhadores rurais, inclusive os de regime de economia familiar, aos 60 anos para homens e 55 para mulheres. Em 17 de outubro, o presidente do PT, Edinho Silva, afirmou que Flávio recebeu de empresários uma proposta para elevar a idade para 67 anos e que o candidato a apoiaria. A reportagem registra que Flávio não se manifestou sobre a medida.

Para uma trabalhadora rural, a diferença entre 55 e 67 anos é de 12 anos.

O que isso significa

Reeleito, Lula recebe o mandato para decidir. Reconstruir a política agrícola não é favor a um setor. É proteger a comida na mesa e dar segurança a quem vive da lavoura, do Norte ao Sul.

O primeiro teste será o orçamento de 2027. O Congresso decide se libera os R$ 881,5 milhões que dependem da Regra de Ouro. Mesmo com o total de R$ 1,2 bilhão, o seguro cobriria cerca de metade da necessidade estimada pela FGV-Agro.

Como fizemos: Usamos a totalização do TSE divulgada pela Bloomberg Línea, com 100% das seções apuradas, e pela InfoMoney e Gazeta do Povo, acessadas em 26/10/2026. Também usamos reportagens sobre o Plano Safra 2026/27, o seguro rural e as posições da FPA e do PT. Cálculos próprios: diferença de votos (64.256.232 − 59.826.041 = 4.430.191), participação da agricultura empresarial (R$ 525,1 bilhões de R$ 610,3 bilhões, 86%) e diferença de idade (67 − 55 = 12 anos). Os números do seguro são da proposta de orçamento de 2027, que pode mudar no Congresso. O Censo Agropecuário é de 2017, e não localizamos dado mais recente. Não conseguimos abrir as páginas oficiais do TSE e do IBGE nesta apuração.

Fontes