Opinião

El Niño muito forte pede planejamento agora, não depois das perdas

O INMET prevê um El Niño muito forte na primavera e no verão. Produtor, banco e governo devem combinar seguro, zoneamento e regras de renegociação já.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Pau-Brasil.

Ilustração abstrata em tons de azul e dourado, com nuvens carregadas de um lado e solo rachado do outro
Imagem provisória, a ser substituída antes do lançamento.Ilustração: Imagem provisória

Na quinta-feira (10), o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) informou que o El Niño deve ficar muito forte na primavera e no início do verão. A avaliação usa dados da agência de oceanos e atmosfera dos Estados Unidos (NOAA). Segundo ela, a chance de um evento muito forte passa de 90%.

O El Niño é o aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico perto da linha do Equador. Ele muda os ventos e o regime de chuvas em várias partes do mundo. A NOAA calcula ainda 75% de chance de este ser o evento mais forte desde 1950, no trimestre de outubro a dezembro.

O mapa do risco

O Painel El Niño, boletim do INMET com outras instituições federais, já indica onde o risco é maior. No Sul, sobretudo no Rio Grande do Sul, cresce a chance de chuva acima da média. No Norte, no Nordeste e em partes de Mato Grosso, a tendência é de chuva abaixo da média.

Para a lavoura, isso tem nome. No Centro-Oeste, o plantio da soja pode atrasar. No Sul, o excesso de umidade favorece doenças e atrapalha a colheita do trigo. A safra 2026/27 começa agora, e as decisões tomadas nas próximas semanas vão pesar no resultado.

O que o produtor pode fazer

A primeira medida é seguir o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc). O Zarc indica, para cada município, as épocas de plantio com menor risco de perda pelo clima. Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), seguir o zoneamento é condição para acessar o Proagro e a subvenção federal ao seguro rural.

A segunda é contratar seguro antes de plantar, e não depois do primeiro alerta. Seguro rural é a ferramenta que transforma uma perda em custo conhecido. Sem ele, a quebra vira dívida.

O que banco e governo devem fazer

O Brasil tem o hábito de resolver as perdas climáticas depois que elas acontecem. Em 4 de setembro, o Conselho Monetário Nacional (CMN) ampliou a renegociação de dívidas de quem perdeu ao menos duas safras entre 2019 e 2025. A medida é necessária, mas chega anos depois do prejuízo.

Desta vez, há tempo para agir antes. Bancos e governo podem definir agora as regras de prorrogação para as regiões mais expostas. Quem plantar dentro do Zarc e com seguro deveria saber, desde já, como vai renegociar se a quebra vier.

O Congresso deu um passo. Em 3 de setembro, o Senado aprovou o projeto que torna obrigatória a despesa federal com a subvenção ao seguro rural. O texto aguarda sanção. Se virar lei, o orçamento do seguro deixará de ser bloqueado no meio do ano.

O que diz quem pensa diferente: O próprio INMET afirma que “um El Niño mais intenso não implica, necessariamente, impactos mais severos”. Segundo o instituto, os efeitos em cada lugar dependem de outros fatores do oceano e da atmosfera. As previsões sazonais indicam probabilidades e tendências, e não quando ou onde cada evento vai acontecer.

A incerteza é real, e é justamente por isso que o planejamento vale a pena. Seguro e zoneamento não dependem de acertar a previsão, e sim de reduzir o tamanho do prejuízo quando ela se confirmar. A NOAA publica nova atualização em 8 de outubro. Até lá, quem planejar primeiro vai sofrer menos.

Fontes