Importar diesel protege a safra, mas não substitui refino
Compra emergencial reduz o risco de desabastecimento, mas dependência externa de 30% exige manter investimento público em capacidade nacional.
Este texto integra Ponto de vista, nosso espaço de comentário assinado. A posição é do autor e não necessariamente do Jornal Pau-Brasil.

A Petrobras prevê importar 600 milhões de litros de diesel em novembro. A compra responde às paradas programadas das refinarias Abreu e Lima (Rnest) e Presidente Getúlio Vargas (Repar). É uma decisão defensável para evitar desabastecimento.
O problema seria transformar essa necessidade pontual em acomodação. O Brasil importa cerca de 30% do diesel consumido. Uma economia que produz alimentos em escala continental não deve tratar essa dependência como detalhe secundário.
O diesel coloca a safra na estrada e mantém máquinas em operação. A falta do combustível atinge primeiro quem está longe dos grandes centros. Garantir oferta é política de abastecimento nacional, não apenas uma operação comercial da estatal.
Importar é resposta imediata, não projeto de país
A diretora Angélica Laureano afirma que a importação recompõe estoques. A Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) avalia que há baixíssimo risco de falta em novembro. São fatos que pesam a favor da operação.
A compra também tem flexibilidade econômica. Refinarias precisam de manutenção, e a demanda varia com o calendário agrícola. Importar pode ser racional para cobrir picos, em vez de manter capacidade ociosa durante todo o ano.
Mas a previsão de 125 mil barris diários supera os 110 mil do terceiro trimestre. Também fica acima da média de 103 mil barris diários nos nove primeiros meses. A operação de novembro não é pequena nem isolada desse movimento.
Capacidade adicional ainda não cobre todo o fluxo importado Comparação entre indicadores divulgados pela Petrobras
| Indicador | Volume |
|---|---|
| Importação prevista para novembro | 125 mil barris/dia |
| Importação no 3º trimestre | 110 mil barris/dia |
| Média de janeiro a setembro | 103 mil barris/dia |
| Incremento de diesel S-10 previsto no trem 2 da Rnest | 88 mil barris/dia |
Fontes: Petrobras, em reportagem da Reuters e nota sobre a Rnest. Capacidade adicional e importação são medidas distintas.
O incremento de 88 mil barris diários previsto para o trem 2 da Rnest equivale a 70% da importação projetada para novembro. A comparação não significa substituição automática. Ela mostra que investimento industrial altera o tamanho da dependência.
Há outra tensão que não deve ser escondida. A Abicom reclama da diferença entre os preços da Petrobras e os custos internacionais. Também aponta incerteza sobre a subvenção renovada mensalmente. O desenho atual dificulta as compras privadas.
A resposta não deve ser abandonar a coordenação pública do abastecimento. Deve ser discutir preço, custo e subsídio com regras previsíveis. O produtor não pode pagar pela instabilidade nem ficar refém de um mercado externo tensionado.
Refino público é infraestrutura de soberania
A Petrobras investe cerca de R$ 12 bilhões no segundo trem e em atividades de manutenção da Rnest. A previsão é elevar o processamento da unidade de 130 mil para 260 mil barris diários até 2029.
O Plano de Negócios 2026–2030 reserva US$ 15,8 bilhões para Refino, Transporte, Comercialização, Petroquímica e Fertilizantes. São áreas ligadas ao abastecimento do campo. O investimento precisa ter cronograma acompanhado e metas públicas compreensíveis.
A Rnest mostra que capacidade industrial produz resultado. Em abril, a refinaria fabricou 385 milhões de litros de diesel S-10, recorde mensal após a modernização. A importação prevista para novembro equivale a 1,56 vez esse volume.
Esse recorde não elimina a necessidade de importar durante paradas. Ele demonstra que investimento, engenharia e trabalho brasileiros aumentam a oferta interna. Defender refino público não é negar comércio exterior. É evitar que o exterior decida sozinho o ritmo da economia.
A escolha também tem dimensão regional. Refinaria é emprego técnico, fornecedores e arrecadação onde a unidade está instalada. Comprar pronto no exterior pode resolver o volume, mas não constrói essa capacidade produtiva no território brasileiro.
Soberania não exige autossuficiência a qualquer custo. Exige capacidade de escolha, estoques e infraestrutura para não aceitar qualquer preço ou prazo. Também exige transparência sobre quanto o país gasta para complementar a produção nacional.
O que diz a Petrobras: À Reuters, a estatal afirmou que importa para complementar a produção conforme demanda, refino, logística e mercado. Em nota sobre a Rnest, declarou que a expansão deve reduzir importações e ampliar a autonomia nacional.
A previsão de não importar em dezembro é positiva e deve ser cobrada como compromisso de planejamento. O próximo teste virá com a colheita no primeiro semestre. O Brasil precisa chegar a esse ciclo com refinarias mantidas, estoques organizados e investimentos preservados.
Importar neste momento protege a safra. Ampliar o refino protege as próximas. Uma política soberana precisa das duas respostas, sem confundir a urgência de novembro com uma estratégia permanente de dependência.
Como fizemos: Usamos os números da Petrobras divulgados pela Reuters e pela Agência Petrobras. Calculamos 88 mil como proporção de 125 mil barris diários e 600 milhões como proporção de 385 milhões de litros. A análise de soberania é editorial; as projeções podem mudar com demanda e cronograma.
Fontes
- Petrobras prevê importar 600 milhões de litros de diesel em novembro — Reuters/NovaCana (acesso em 07/11/2026)
- Rnest bate recorde de produção de diesel em abril — Agência Petrobras (acesso em 07/11/2026)
- Petrobras aprova Plano de Negócios 2026–2030 (acesso em 07/11/2026)
- Refinaria Abreu e Lima — Wikimedia Commons (acesso em 07/11/2026)



