Diesel precisa de reajuste gradual, sem jogar a conta no produtor
Abicom prevê ajuste gradual da Petrobras após a eleição, e o Goldman Sachs vê alta de até 50% se o subsídio aos importadores acabar.
Este texto integra Ponto de vista, nosso espaço de comentário assinado. A posição é do autor e não necessariamente do Jornal Pau-Brasil.

O diesel da Petrobras está muito abaixo do preço do mercado internacional. Segundo o Mercado&Consumo, a defasagem chegou a R$ 3,53 por litro na semana anterior à reportagem, acima da subvenção de R$ 3,52 por litro. Defasagem é a distância entre o preço da estatal e o preço de referência de fora.
Em declaração reproduzida pelo Mercado&Consumo em 27 de outubro, o presidente da Abicom, entidade que reúne importadores de combustíveis, disse que a Petrobras terá de reajustar seus preços depois da eleição. Sérgio Araújo afirmou: “Passado esse momento, vão ter que arrumar a casa, mas terá que ser de maneira lenta e gradual”.
Desde maio de 2023, a Petrobras não segue mais a paridade de importação (PPI, na sigla em inglês), regra que alinhava o preço ao do mercado externo. Para o Ineep, instituto que estuda o setor de petróleo, o fim dessa regra trouxe mais estabilidade aos preços. A pergunta agora é quem paga quando a conta finalmente chegar.
Gradual não quer dizer adiado
O banco Goldman Sachs trabalha com dois cenários. No básico, a Petrobras mantém os preços até o fim de 2026. No outro, o subsídio extra aos importadores termina, previsto para meados de novembro, e a estatal poderia elevar o preço do diesel vendido às distribuidoras em até cerca de 50%, ou R$ 1,50 por litro.
Segundo o banco, uma alta desse tamanho poderia encarecer o diesel nas bombas em cerca de 20%. O mesmo relatório diz que o aumento poderia passar de 50% se a Petrobras tentasse recuperar as perdas dos meses em que vendeu abaixo da paridade.
Quem defende o alinhamento rápido tem um argumento. Para o mercado, um preço abaixo da paridade desestimula a importação e pode faltar combustível. O próprio Goldman afirma que o diesel da Petrobras está abaixo da paridade de importação. Esse risco é real, e adiar o ajuste só aumenta o tamanho do salto.
A resposta está no ritmo e na regra, não na urgência. Um reajuste pequeno, anunciado com antecedência, permite que transportadoras e produtores planejem custos. Um salto de 50% de uma vez não permite. O país precisa de um calendário público, e não de uma escolha entre congelamento sem fim e choque.
Quem paga a conta no fim da linha
O diesel pesa muito no custo de quem transporta carga. Segundo a NTC&Logística, o combustível responde por cerca de 35% do custo operacional das transportadoras brasileiras, em dados divulgados em maio de 2026. Quando o frete sobe, o aumento tende a chegar ao preço do alimento que vai para as cidades.
Na agricultura familiar, o efeito pesa ainda mais. O pequeno produtor tem pouco caixa para absorver um aumento de uma vez. Para ele, a diferença entre um reajuste gradual e um salto repentino pesa no planejamento da safra e no dinheiro disponível para a lavoura.
A discussão também é sobre o papel da Petrobras. A estatal não é apenas uma empresa de balanço. Ela é um instrumento de abastecimento do país, e a política de preço precisa levar em conta quem depende do diesel para produzir e para levar a produção até o destino.
Um reajuste gradual, transparente e com proteção não exige que a Petrobras abra mão de preço. Exige regra conhecida e números públicos. Três perguntas precisam de resposta: o subsídio aos importadores será renovado? Quanto a empresa pretende recuperar, e em que prazo? Como o frete e o pequeno produtor serão protegidos?
O que diz a Petrobras: Em novembro de 2025, segundo o Mercado&Consumo, o executivo Claudio Schlosser disse não conhecer os parâmetros usados pela Abicom e afirmou que manter os preços sem reajuste não gera congelamento nem perda de rentabilidade. Não encontramos manifestação da companhia sobre a defasagem de outubro de 2026, e este texto não teve contato prévio com a empresa.
O que está em aberto é o fim do subsídio aos importadores e a decisão da estatal. Segundo o Mercado&Consumo, o Conselho de Administração da Petrobras se reuniria na segunda-feira (26) para discutir a defasagem. As fontes consultadas não trazem a decisão.
O diesel move a safra, o frete e a mesa. Por isso, um ajuste gradual, com regra pública e proteção a quem transporta e produz, é o caminho mais justo. Este texto é opinião e defende essa posição. Os fatos citados têm as fontes listadas abaixo.
Como fizemos: Usamos reportagens do Mercado&Consumo (27/10/2026 e 10/11/2025), do BP Money (22/10/2026) e da Setcesp (15/05/2026), além de análise do O Povo (23/01/2024), acessadas em 27/10/2026. Não fizemos cálculo próprio: os valores são citados das fontes. Não tivemos acesso à nota original do Goldman Sachs nem a dados oficiais de preço, por isso os números do banco são atribuídos a ele.
Fontes
- Abicom: reeleição de Lula vai fazer Petrobras ‘arrumar a casa’ com reajuste gradual de preço — Mercado&Consumo (27/10/2026) (acesso em 27/10/2026)
- Reportagem sobre a análise do Goldman Sachs para o diesel da Petrobras — BP Money (22/10/2026) (acesso em 27/10/2026)
- Preço do diesel segue defasado em 13% e pode subir R$ 0,43 por litro, diz Abicom — Mercado&Consumo (10/11/2025) (acesso em 27/10/2026)
- Frete rodoviário em 2026 enfrenta alta de custos e margens apertadas no transporte de cargas no Brasil — Setcesp (15/05/2026) (acesso em 27/10/2026)
- Para Ineep, fim do PPI na Petrobras trouxe maior estabilidade de preço dos combustíveis — O Povo (23/01/2024) (acesso em 27/10/2026)
- Refinaria Gabriel Passos, da Petrobras, em Ibirité — foto no Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)



