Conab estuda subsidiária para reinvestir receitas de estoques
Ministra propõe arrecadar diretamente vendas, aluguéis e armazenagem; modelo para 2027 ainda depende de mudanças no marco jurídico da estatal.

O governo federal estuda criar uma subsidiária da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) em 2027. O objetivo é permitir que receitas de vendas agrícolas, aluguéis e armazenagem voltem diretamente às operações da estatal.
A proposta foi apresentada pela ministra do Desenvolvimento Agrário, Fernanda Machiaveli, em entrevista ao Valor publicada neste sábado (7). O modelo ainda está em estudo e depende de ajustes no marco jurídico da companhia.
Receita atual passa pelo caixa único
Hoje, a venda de produtos dos estoques públicos gera recursos recolhidos ao caixa único da União. Isso inclui o milho vendido a pequenos pecuaristas pelo Programa de Venda em Balcão (ProVB).
Parte do orçamento geral da Conab usa essas receitas como referência, em uma contrapartida orçamentária. Sem a arrecadação correspondente, a verba não pode ser aplicada. Machiaveli afirmou que esse arranjo não dá sustentabilidade ao negócio.
A subsidiária estudada arrecadaria diretamente e reinvestiria os recursos. Além das vendas, entrariam receitas de serviços de armazenagem e aluguel de estruturas. O desenho final, os controles e as regras de governança ainda não foram divulgados.
Vendas de produtos ainda são menores que o orçamento da estatal Receitas nominais informadas pela Conab; 2026 é parcial
| Ano | Vendas de produtos agrícolas |
|---|---|
| 2023 | R$ 78 milhões |
| 2024 | R$ 130 milhões |
| 2025 | R$ 194,6 milhões |
| 2026, até a entrevista | R$ 158,4 milhões |
Fonte: Arnoldo Campos, diretor de Abastecimento da Conab, em reportagem do Globo Rural. Valores não corrigidos pela inflação.
Estoques ampliam a necessidade de recursos
O diretor Arnoldo Campos prevê ampliar as vendas em 2027. A companhia pretende comercializar ao menos 100 mil toneladas de arroz em estoque e continuar os negócios com milho. Algumas unidades também já arrecadam R$ 30 milhões por ano com serviços e aluguéis.
O orçamento inicial da Conab em 2026 foi de R$ 1,8 bilhão. A folha de pagamento se aproxima de R$ 1 bilhão por ano, para quase três mil servidores. Essas despesas mostram que a receita comercial não substitui sozinha o financiamento público.
A formação de estoques começou o ano com pouco mais de R$ 200 milhões. Depois, recebeu suplementação de R$ 900,1 milhões. Somados, os dois aportes superam R$ 1,1 bilhão em 2026.
O rearranjo acompanha a retomada dos estoques públicos e os planos de uma rede de abastecimento. Nessa rede, a Conab compraria da agricultura familiar e venderia a pequenos varejistas. A proposta busca levar alimentos não processados a periferias onde esses produtos custam mais ou chegam menos.
Não há, nas informações divulgadas, venda de controle ou transferência da estatal à iniciativa privada. A subsidiária é apresentada como instrumento de gestão pública. O modelo concreto só poderá ser avaliado quando o marco jurídico for apresentado.
Plano de desligamento também está em análise
Machiaveli também mencionou um possível Plano de Demissão Voluntária (PDV). A adesão, como indica o nome, seria voluntária. A ministra afirmou que empregados participam da elaboração e que nenhum resultado foi anunciado.
O estudo deve mirar cerca de mil ex-servidores da Companhia Brasileira de Alimentos (Cobal) e da Companhia Brasileira de Armazenamento (Cibrazem). Eles foram incorporados à Conab após anistia. O governo avalia o efeito dos desligamentos na folha, sem apresentar o PDV como decisão fechada.
O que diz Fernanda Machiaveli: “Estamos estudando um arranjo institucional para que a Conab tenha uma subsidiária independente, para conseguir arrecadar esse recurso com a venda do produto e poder reinvestir”, declarou ao Valor. Segundo ela, o marco jurídico ainda está em avaliação.
O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Secretaria de Coordenação e Governança das Empresas Estatais participam do estudo. A Fundação Dom Cabral fornece recursos para o trabalho. A próxima etapa é transformar as alternativas em uma proposta institucional detalhada.
Para produtores e consumidores, o ponto decisivo será saber como o reinvestimento ampliaria estoques e abastecimento. Também será necessário acompanhar a transparência das receitas e os efeitos do PDV nos serviços. Por ora, não há subsidiária criada nem mudança nas vendas em balcão.
Como fizemos: Consultamos a entrevista publicada neste sábado e separamos proposta, receitas já obtidas e orçamento vigente. Somamos os dois aportes para estoques em 2026. Não calculamos crescimento real das vendas porque os valores são nominais e 2026 está incompleto.
Fontes
- Governo estuda criar subsidiária independente para Conab — Globo Rural (acesso em 07/11/2026)
- Sessão solene pelos 35 anos da Conab — Wikimedia Commons (acesso em 07/11/2026)



