Crédito rural

Machiaveli associa queda da Selic a crédito rural mais barato

Ministra diz que juros menores podem reduzir equalização de R$ 141,9 bi em financiamentos; custo estimado da União é R$ 18,2 bi em vários anos.

Fernanda Machiaveli sentada à direita da mesa durante sessão solene no Congresso
Fernanda Machiaveli, à direita, participa de sessão pelos 35 anos da Conab no Congresso, em 14 de maio de 2025.Foto: Andressa Anhoelete / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

A ministra do Desenvolvimento Agrário, Fernanda Machiaveli, afirmou que uma trajetória de juros menores pode ampliar o alcance do crédito rural. A declaração foi publicada neste sábado (7), após entrevista ao Valor.

O raciocínio envolve a equalização, mecanismo pelo qual o Tesouro cobre parte do custo dos financiamentos. Com juros menores na captação dos bancos, o governo precisaria gastar menos para manter as taxas finais subsidiadas.

Dois valores têm funções diferentes

Na safra 2026/27, as linhas equalizáveis somam R$ 141,9 bilhões para pequenos, médios e grandes produtores. Esse valor financia custeio, comercialização e investimento. Não representa gasto direto da União.

O custo estimado para o Tesouro equalizar essas operações é de R$ 18,2 bilhões ao longo de vários anos. Portanto, esse número também não deve ser lido como desembolso imediato nem como possível economia automática.

A taxa básica de juros, a Selic, influencia o custo de captação das instituições financeiras. Ela é definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central. A declaração da ministra não anuncia uma redução nem altera as taxas atuais.

Financiamento e subsídio não são a mesma conta Valores informados para as linhas equalizáveis da safra 2026/27

Item Valor O que significa
Financiamentos equalizáveis R$ 141,9 bilhões Crédito oferecido aos produtores
Custo da equalização R$ 18,2 bilhões Gasto estimado da União ao longo de vários anos

Fonte: Ministério do Desenvolvimento Agrário, em entrevista de Fernanda Machiaveli ao Valor, reproduzida pelo Globo Rural em 7/11/2026.

Efeito depende da política monetária

Machiaveli defendeu disciplina fiscal como forma de dar segurança à redução dos juros. Segundo ela, o objetivo é gastar menos com equalização e oferecer condições melhores à agricultura familiar e aos médios produtores.

O mecanismo explica a preocupação, mas não garante o resultado. A decisão sobre a Selic cabe ao Copom. O custo final do crédito também depende das regras de cada linha e das condições dos financiamentos.

A ministra informou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fará um pronunciamento em rádio e televisão no domingo (8). O discurso deve tratar de responsabilidade fiscal, juros e investimentos. Não houve anúncio de novo percentual para a Selic.

Na entrevista, Machiaveli também defendeu reaproximação com o agronegócio por meio de entidades e representantes no Congresso. Ela citou a redução de juros para alimentos básicos e instrumentos de garantia de preços como ações já realizadas pelo governo.

Os exemplos incluíram laranja, pêssego, leite e borracha natural. A ministra também mencionou a atuação para reverter tarifas nas exportações aos Estados Unidos. São políticas distintas da equalização, embora todas afetem a renda e o escoamento.

Ao comentar os preços agrícolas, ela afirmou que ciclos de commodities e problemas climáticos não estão sob controle de um presidente. A ressalva limita a comparação entre governos. Também separa a discussão sobre juros das variações internacionais de preços.

O que diz Fernanda Machiaveli: “Temos que dar essa segurança para poder fazer a redução das taxas de juros, porque nos afeta diretamente, na agricultura familiar, no agro, o quanto que temos que colocar em equalização”, afirmou ao Valor. Ela relacionou a trajetória da Selic ao espaço para políticas públicas.

Para quem depende de financiamento, o ponto central é a diferença entre intenção e regra vigente. Os R$ 141,9 bilhões já estão previstos nas linhas equalizáveis. Uma eventual ampliação de beneficiários dependeria dos próximos dados de captação, orçamento e juros.

O pronunciamento de domingo deve indicar o nível de detalhe da estratégia econômica. Até lá, não há nova taxa de crédito rural nem data para uma queda da Selic. O produtor deve consultar as condições efetivamente disponíveis no banco.

Como fizemos: Consultamos a entrevista publicada pelo Globo Rural neste sábado e separamos volume de crédito, custo da equalização e decisão monetária. Não dividimos os R$ 18,2 bilhões pelos R$ 141,9 bilhões porque o gasto ocorre ao longo de vários anos. Também não projetamos economia ou redução da Selic.

Fontes