Ponto de vista

Comida barata depende da agricultura familiar e do estoque público

A safra recorde esconde quedas de arroz, feijão e trigo. Sem agricultura familiar e estoques públicos, a comida tende a ficar mais cara.

Este texto integra Ponto de vista, nosso espaço de comentário assinado. A posição é do autor e não necessariamente do Jornal Pau-Brasil.

Ilustração abstrata em cores da marca do site, sem pessoas nem lavouras reais
Imagem provisória: ilustração abstrata, enquanto não há foto licenciada sobre o tema.Ilustração: Imagem provisória

Em 15 de outubro de 2026, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estimou a safra de grãos em 354,5 milhões de toneladas. É um recorde, 2,4% acima de 2025. Mas o mesmo levantamento aponta quedas em três alimentos básicos.

O arroz em casca deve somar 11,2 milhões de toneladas, 11,4% a menos. O feijão cai 6,6%. O trigo deve chegar a 5,9 milhões de toneladas, 24% abaixo de 2025. Os dados são do Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA), com referência a setembro.

Comida mais barata não depende só de safra cheia. Depende de quem planta o que a mesa consome e de estoque que o governo consegue usar na hora certa. Hoje, as duas coisas estão frágeis.

A pressão já aparece no preço. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), a inflação oficial, subiu 0,82% em setembro. O grupo alimentação e bebidas subiu 0,83%, e a alimentação no domicílio, 0,96%. A prévia de outubro, o IPCA-15, divulgada em 23 de outubro, também foi puxada pelos alimentos, segundo o IBGE.

Quem planta a comida do dia a dia

O Censo Agropecuário de 2017, também do IBGE, classificou 77% dos estabelecimentos agropecuários como de agricultura familiar. Essas propriedades ocupam 23% da área e respondem por 23% do valor da produção, cerca de R$ 107 bilhões.

Há uma frase repetida há anos: a de que 70% da comida vem do pequeno agricultor. Uma checagem da Agência Pública, de 2015, concluiu que ela não vem de nenhum levantamento. O que os dados mostram é força em produtos específicos. No Censo de 2006, a agricultura familiar respondeu por 87% da mandioca, 70% do feijão, 58% do leite de vaca e 46% do milho.

A lei também pesa. A Lei 15.226, de 30 de setembro de 2025, fixou em no mínimo 45% a parcela dos recursos do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) que deve comprar da agricultura familiar. O piso anterior era de 30%. O dinheiro vem do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).

O estoque público é o seguro da mesa

Estoque público é o grão que o governo compra, guarda e pode vender quando o preço sobe. Sem ele, o país fica à mercê de cada safra. Em julho de 2026, o governo tinha 293 toneladas de arroz e 207 toneladas de feijão, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), citada pela Compre Rural.

O trigo somava 6,6 mil toneladas, e o milho, 125,5 mil. Os estoques de arroz zeraram em 2023. Para reagir, o governo publicou a Portaria Interministerial nº 20, de 2 de setembro de 2026. Ela destina até R$ 500 milhões à compra de arroz contra os efeitos do El Niño, fenômeno que altera as chuvas no Brasil.

O primeiro leilão de arroz, em 16 de setembro, previa até 127,33 mil toneladas. O volume final depende de preços e propostas, segundo a Agência Gov. Para o milho, os leilões de 18 e 21 de setembro somavam até 224 mil toneladas. O de 18 foi reservado à agricultura familiar, segundo a Agrolink. Não localizamos o resultado final.

O que diz o governo federal: Pela Portaria Interministerial nº 20, os recursos para o arroz fazem parte das ações contra os impactos do El Niño, segundo a Agência Gov. A redação não contatou os ministérios antes desta publicação, e não localizamos resposta sobre este texto.

O argumento contrário

Quem defende o mercado tem argumentos reais. Diz que o preço baixo ajusta a produção sozinho e que a importação cobre a falta. Diz também que o agro traz dólares ao país.

Os números confirmam o peso do agro nas vendas externas. Em junho de 2026, o agronegócio exportou US$ 16,6 bilhões, 45,7% do total vendido pelo Brasil, segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Mas exportação mede dólar que entra, não o preço do feijão no mercado do bairro.

O custo fiscal existe. O Plano Safra 2026/27, anunciado em 30 de junho, reserva R$ 525,1 bilhões para a agricultura empresarial e R$ 97,3 bilhões para a familiar. Pelas contas desta análise, a familiar fica com 15,6% do total anunciado.

A resposta tem três partes. Primeiro, estoque é compra com venda posterior, e o grão volta ao mercado. Segundo, a compra da agricultura familiar abastece a escola e a cidade pequena, e não disputa o lugar do agro exportador. Terceiro, a safra recorde ainda não chegou ao preço: em setembro, alimentação e bebidas subiram 0,83%.

O que isso significa

Comida barata não nasce só de recorde em tabela. Nasce de quem planta o que a mesa consome, de compra pública que garante renda e de estoque usado antes da crise. Hoje, essas peças dependem de decisões tomadas às pressas, como o leilão de arroz de setembro.

Ficam em aberto o resultado dos leilões, a próxima revisão do IBGE e o IPCA de outubro. A pergunta para o próximo governo é direta. A comida vai ser tratada como estratégia de Estado, com compra e estoque previstos, ou só será tratada quando o preço subir?

Como fizemos: Usamos o LSPA do IBGE, referência setembro de 2026, divulgado em 15/10/2026; o IPCA de setembro de 2026, divulgado pelo IBGE e reunido pela Brasil 61 em 14/10/2026; a Lei 15.226/2025, no Planalto; o Censo Agropecuário 2017 e a checagem da Agência Pública sobre o Censo 2006; a Portaria Interministerial nº 20, pela Agência Gov (11/09/2026); os leilões de milho, pela Agrolink (16/09/2026); o Plano Safra 2026/27, pela Agrolink e pelo Poder360 (30/06/2026); e as exportações do agro, pelo Mapa, via Mundo Coop (15/07/2026). Acessos em 26/10/2026. Cálculo próprio: 97,3 ÷ (525,1 + 97,3) = 15,6%. Não conseguimos ler o PDF do Censo 2017 na íntegra, por isso os percentuais por produto são de 2006. Os estoques de julho vêm de reportagem, pois a página da Conab não abriu. O IPCA-15 de outubro ainda não foi divulgado.

Fontes