Abicom prevê reajuste gradual do diesel; Goldman calcula alta de 50%
Defasagem do diesel da Petrobras chegou a R$ 3,53 por litro. Com alta de 20% no preço, uma saca de soja passaria a comprar 14,55 litros de diesel.

Em 23 de outubro, a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom) informou que o diesel da Petrobras tinha defasagem média de 108%, ou R$ 3,53 por litro. Segundo o Mercado&Consumo, foi a primeira vez que essa diferença superou o subsídio de R$ 3,52 por litro pago pelo governo.
A defasagem é a distância entre o preço que a Petrobras cobra e o preço de referência do diesel importado. Quanto maior a distância, mais caro fica manter o preço interno sem reajuste. Subvenção é o dinheiro público que o governo paga para segurar um preço.
Lula foi reeleito no domingo, 25 de outubro, segundo a apuração publicada pelo Migalhas. Na segunda-feira, 26, o Conselho de Administração da Petrobras se reuniu para discutir a defasagem, que conselheiros e diretoria consideram insustentável, segundo o Mercado&Consumo. Até a publicação desta reportagem, não localizamos anúncio oficial de reajuste após a reunião.
O que a Abicom espera
O presidente da Abicom, Sérgio Araújo, disse que o ajuste deve ser gradual. Segundo o Mercado&Consumo, ele afirmou: “O que se espera é que gradualmente o governo arrume a casa e a Petrobras possa praticar preços mais racionais”.
Araújo também disse que existem “diversas camadas de subsídio para o diesel”. Para ele, o sistema de preços está desarrumado.
O cenário de 50% do Goldman Sachs
O banco americano Goldman Sachs calculou o caso extremo. Para fechar a defasagem de uma vez, a Petrobras precisaria cobrar das distribuidoras cerca de 50% a mais, ou cerca de R$ 1,50 por litro. A nota é de 22 de outubro, segundo o BP Money.
Esse não é o cenário-base do banco. O Goldman escreve: “assumimos que a Petrobras manterá os preços do diesel inalterados até o final do ano”. O motivo é a incerteza sobre o subsídio aos importadores, que pode ou não ser renovado.
O subsídio chegou a R$ 3,52 por litro depois de um acréscimo de R$ 1,40 publicado em 13 de outubro. Ele se soma aos R$ 2,12 já previstos. O reforço vale por 30 dias, segundo a SBT News, o que aponta para meados de novembro.
Se o reajuste de 50% acontecer, o banco estima alta de cerca de 20% nas bombas. O efeito direto no IPCA, índice oficial de inflação, seria de 0,05 a 0,06 ponto percentual. Somando os efeitos indiretos, como o frete, o impacto total vai de 0,21 a 0,24 ponto percentual.
Quanto isso pesa na saca de soja
Na análise parcial de 2026, até agosto, uma saca de soja comprava 17,46 litros de diesel. Os dados são do Aegro Insights, que analisou 507 mil notas fiscais de compra de diesel. Nesse período, o produtor pagava em média R$ 6,56 por litro.
Se o diesel do produtor subir 20%, como o Goldman estima para a bomba, e o preço da saca ficar igual, a mesma saca compra 14,55 litros. A perda é de 2,91 litros, ou cerca de 17% do que comprava.
O frete também sente a alta. Em fevereiro de 2023, o diesel respondia por 37,63% do preço do frete, segundo o Índice de Frete Repom, citado pela Forbes Brasil. É o dado mais recente sobre essa fatia que encontramos. Mantida essa fatia, uma alta de 20% no diesel elevaria o frete em cerca de 7,5%.
O que diz a Petrobras: Em comunicado de abril de 2026, a estatal disse que os reajustes “não seguem periodicidade fixa” e que sua política “busca evitar o repasse automático de oscilações externas”, segundo o Mercado&Consumo de 3 de abril. Não encontramos posição pública da empresa sobre o diesel após a reunião de 26 de outubro. Esta versão não registra contato prévio com a companhia.
O que isso significa
Os números mostram que a conta do diesel não fecha sem decisão. Se o preço não muda, a diferença fica com a estatal ou com o dinheiro público do subsídio. O ritmo do reajuste define quando o custo chega ao produtor e ao frete.
Em aberto estão a decisão do Conselho da Petrobras, a renovação do subsídio após meados de novembro e o tamanho do repasse à bomba e ao frete.
Como fizemos: Usamos notas da Abicom publicadas pelo Mercado&Consumo (23 e 27/10/2026), o Goldman Sachs citado pelo BP Money (22/10/2026) e pela EuQueroInvestir (23/10/2026), a SBT News sobre a medida de 13/10/2026, o Aegro Insights (dados até agosto de 2026, publicados em 26/08/2026) e o Índice de Frete Repom, citado pela Forbes Brasil (fevereiro de 2023). Consultados em 27/10/2026. Os cálculos são nossos: 17,46 litros divididos por 1,20 dão 14,55 litros, e 37,63% vezes 20% dão alta de cerca de 7,5% no frete. Supomos que o produtor sente a mesma alta percentual da bomba e que a fatia do diesel no frete não mudou desde 2023. Não localizamos o cálculo completo da defasagem pela Abicom nem a decisão do Conselho da Petrobras.
Fontes
- Abicom: reeleição de Lula vai fazer Petrobras ‘arrumar a casa’ com reajuste gradual de preço — Mercado&Consumo (27/10/2026)
- Defasagem do diesel nas refinarias da Petrobras ultrapassa subvenção e atinge R$ 3,53/l — Mercado&Consumo (23/10/2026)
- Nota do Goldman Sachs sobre o diesel da Petrobras — BP Money (22/10/2026)
- Reportagem sobre a análise do Goldman Sachs para o diesel da Petrobras — EuQueroInvestir (23/10/2026)
- Subsídio adicional ao diesel importado entra em vigor — SBT News (acesso em 27/10/2026)
- Eleições 2026: confira como foi a apuração do 2º turno — Migalhas (acesso em 27/10/2026)
- Petrobras nega defasagem nos preços e reforça sua política de reajustes — Mercado&Consumo (03/04/2026)
- Custo do diesel na produção de soja mais que dobrou em 8 anos — Revista Cultivar, com dados do Aegro Insights (26/08/2026)
- Preço do frete rodoviário aumenta 11% em fevereiro com escoamento da soja — Forbes Brasil (03/2023)
- REPLAN - Refinaria de Paulínia - Maior refinaria da Petrobrás — Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0) (acesso em 27/10/2026)


