Bolsa cai 13,88% em um dia; ocupação chega a recorde de 103,5 milhões
A bolsa caiu 13,88% em 26 de outubro, mas o IBGE mostra 103,5 milhões de ocupados e renda real em alta. O mercado, porém, pode pesar nos juros e nos preços.

Na segunda-feira (26), a bolsa de valores de São Paulo caiu 13,88%. O Ibovespa, principal índice da B3, fechou aos 176.608 pontos. O dólar subiu cerca de 8%, para R$ 5,40.
A queda veio um dia depois do segundo turno, vencido por Lula. A B3 acionou o circuit breaker, mecanismo que suspende as negociações em quedas fortes, às 9h57. Foi a primeira vez desde março de 2020.
A bolsa mede apostas de investidores sobre o futuro das empresas. Ela não mede o trabalho, a produção e a renda de quem vive do salário. Por isso, vale comparar o tombo de um dia com o que os dados oficiais mostram nos últimos meses.
O que mostram os números de trabalho e produção
Segundo o Investing.com, o mercado apostava em Flávio Bolsonaro, visto como mais comprometido com o ajuste fiscal. A vitória de Lula frustrou essa aposta, e a reação foi imediata.
Os dados oficiais contam outra história. O Produto Interno Bruto (PIB), a soma de tudo o que o país produz, cresceu 2,0% no segundo trimestre de 2026 frente ao mesmo período de 2025, segundo o IBGE. A agropecuária avançou 6,8% na mesma comparação.
Na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua), a taxa de desocupação ficou em 5,3% no trimestre até agosto. Um ano antes, estava em 5,6%. Havia 103,5 milhões de pessoas ocupadas, o maior número da série desde 2012.
Tabela: o que a bolsa mostra no dia e o que a economia mostra no período Valores mais recentes disponíveis; variações na comparação indicada
| Indicador | Número | Comparação |
|---|---|---|
| Ibovespa, fechamento de 26/10 | 176.608 pts | -13,88% no dia |
| PIB, 2º tri de 2026 | — | +2,0% sobre 2º tri de 2025 |
| Agropecuária, 2º tri de 2026 | — | +6,8% sobre 2º tri de 2025 |
| Desocupação, trimestre até agosto | 5,3% | 5,6% um ano antes |
| Pessoas ocupadas, trimestre até agosto | 103,5 mi | maior da série desde 2012 |
| Rendimento médio real, até agosto | R$ 3.777 | +3,7% em um ano |
| Vagas formais líquidas, jan–ago 2026 | 1.134.033 | -25,2% sobre jan–ago 2025 |
Fonte: IBGE (PIB e PNAD Contínua), Ministério do Trabalho (Caged) e B3, via InfoMoney. Elaboração: redação.
O rendimento médio real, que desconta a inflação, chegou a R$ 3.777. Foi alta de 3,7% em relação a um ano antes, segundo o IBGE. O emprego formal, medido pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), também avançou em agosto, com saldo de 165.827 vagas.
Mas o sinal de alerta existe. No acumulado de janeiro a agosto, o Caged registrou 25,2% menos vagas que no mesmo período de 2025.
Na conta de quem investe, a B3 contou 5,6 milhões de investidores pessoas físicas em renda variável no primeiro trimestre de 2026. Isso equivale a cerca de 5,4% das pessoas ocupadas. Não são o mesmo grupo, mas a comparação mostra o tamanho do que a bolsa alcança.
No salário mínimo, o piso é de R$ 1.621 em 2026. A proposta do Orçamento de 2027, enviada ao Congresso em 31 de agosto, estima R$ 1.741. É uma alta de R$ 120, ou 7,4%. O valor final só será fixado em dezembro.
Onde a tese tem limite: juros, dólar e preços
A bolsa não é a economia, mas pode afetar a economia. Segundo o Investing.com, os vencimentos longos dos juros futuros, que mostram as apostas sobre a taxa de juros, passaram de 15% no dia. Quando esses juros sobem, o crédito fica mais caro para empresas e famílias.
O dólar também entra na conta. Um câmbio mais alto encarece produtos e insumos comprados no exterior, e esse custo pode chegar aos preços. Ainda é um mecanismo, não um efeito medido. Pelo último dado oficial, o IPCA, a inflação, subiu 0,82% em setembro, e alimentação e bebidas subiram 0,83%, segundo o IBGE.
Há quem vá além. O economista Leonardo Mendes, da Manchester Investimentos, disse ao ND Mais: “Eu realmente acredito que a gente caminha para uma recessão.” É a opinião dele, e não uma projeção oficial.
O que diz o Bradesco BBI: Os analistas Vicente Falanga e Ricardo França afirmaram: “Após o resultado do segundo turno, esperamos maior inclinação da curva de juros e aumento do custo de capital das companhias mais sensíveis às taxas de desconto.” A fala está na reportagem do Seu Dinheiro, publicada em 26/10/2026.
O que isso significa
A tese de que a bolsa não é a economia tem limite. Uma queda de um dia não apaga o emprego e a renda medidos pelo IBGE. Mas pode chegar ao juro, ao dólar e ao crédito, e esse caminho atinge quem produz e compra.
Ficam em aberto as sinalizações fiscais do novo governo e a votação do Orçamento de 2027, que cabe ao Congresso. Os próximos dados do Caged e do IPCA mostrarão se a turbulência já chegou à vida real.
Como fizemos: Usamos o PIB do 2º trimestre de 2026, do IBGE, divulgado em 1º/9/2026 e reunido pela Agência Gov; a PNAD Contínua do trimestre até agosto, divulgada em 29/9/2026 e reportada pela Broadcast, na Viva e no A Crítica; o Caged de agosto, do Ministério do Trabalho, divulgado em 29/9/2026; o IPCA de setembro, do IBGE; o fechamento do Ibovespa e do dólar de 26/10/2026, pela InfoMoney (atualizada às 18h05) e pelo Investing.com; e o Orçamento de 2027, pelo Brasil 61. Acessos em 26/10/2026. Cálculos próprios: 5,6 milhões ÷ 103,5 milhões = 5,4%; R$ 120 ÷ R$ 1.621 = 7,4%. O número de investidores é do comunicado da B3 sobre o 1º trimestre de 2026. Não conseguimos abrir o site do IBGE, e os dados da PNAD vêm de reportagens; confira o release oficial. O IPCA-15 de outubro não entrou, porque não localizamos a divulgação oficial. A comparação de 6,8% na agropecuária é a do IBGE; a cobertura anterior do site citava 6,2%.
Fontes
- Ibovespa desaba 13% após eleição, em dia de circuit breaker; dólar dispara 8% — InfoMoney (26/10/2026) (acesso em 26/10/2026)
- Ibovespa e dólar hoje: Ibov derrete 14% com Lula reeleito e temor de risco fiscal — Investing.com (26/10/2026) (acesso em 26/10/2026)
- Ibovespa cai 14%, dólar sobe a R$ 5,40 — Seu Dinheiro (26/10/2026) (acesso em 26/10/2026)
- Dólar hoje: o que acontece na economia após Lula reeleito? — ND Mais (26/10/2026) (acesso em 26/10/2026)
- PIB do Brasil cresce 0,5% no 2º trimestre, aponta IBGE — Agência Gov (01/09/2026) (acesso em 26/10/2026)
- Taxa de desemprego fica em 5,3% no trimestre até agosto — Viva (29/09/2026) (acesso em 26/10/2026)
- Desemprego fica em 5,3% e Brasil alcança recorde de 103,5 milhões de ocupados — A Crítica (acesso em 26/10/2026)
- Novo Caged: emprego formal gera 165,8 mil vagas em agosto e acumula 1,13 milhão no ano — Agência Gov (29/09/2026) (acesso em 26/10/2026)
- Avanço dos ETFs destaca evolução do investidor pessoa física na B3 — B3 (06/07/2026) (acesso em 26/10/2026)
- Orçamento de 2027: governo estima salário mínimo de R$ 1.741 — Brasil 61 (31/08/2026) (acesso em 26/10/2026)
- IPCA sobe 0,82% em setembro, pressionado pela energia elétrica e pelos alimentos — Brasil 61 (14/10/2026) (acesso em 26/10/2026)
- Colheita de soja em Rondonópolis, MT — Roosevelt Pinheiro/ABr, Wikimedia Commons (CC BY 3.0 BR) (acesso em 26/10/2026)



