Agronegócio

Um quinto do diesel consumido no Brasil vem de fora

Importações responderam por 20,4% do consumo no primeiro semestre; refino limitado e transporte rodoviário aproximam petróleo, câmbio e custo da lavoura.

Tanques da Refinaria de Paulínia vistos de rodovia, com veículos em primeiro plano
Refinaria de Paulínia, no interior de São Paulo, vista em 4 de setembro de 2009.Foto: Marco Aurélio Esparza / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

O Brasil consumiu 213,2 milhões de barris de diesel no primeiro semestre de 2026. As importações somaram 43,5 milhões de barris, equivalentes a 20,4% do consumo, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) reunidos pelo G1.

A dependência explica por que petróleo e dólar chegam rapidamente ao custo do campo. Extrair petróleo não basta. É preciso refiná-lo para produzir diesel. Depois, o combustível precisa chegar às máquinas e aos caminhões que transportam a produção.

Refino limitado mantém a dependência

A produção nacional de diesel foi de 154,8 milhões de barris no primeiro semestre. A Petrobras aumentou sua própria produção em 18,5% entre janeiro e agosto, de 32,7 milhões para 38,7 milhões de barris. Mesmo assim, a oferta nacional não atendeu todo o consumo.

Em agosto, o diesel importado representou 23,14% das vendas nacionais de diesel A. Esse é o combustível antes da mistura obrigatória de biodiesel. O percentual mensal é diferente da participação de 20,4% calculada para todo o primeiro semestre.

Preço subiu mais que 6% na primeira quinzena de outubro Médias do Índice de Preços Edenred Ticket Log

Combustível Preço médio Alta na quinzena
Diesel comum R$ 7,20 por litro 6,67%
Diesel S-10 R$ 7,46 por litro 5,07%
Diesel comum no Norte R$ 7,75 por litro Não informada
Diesel comum no Sul e Sudeste R$ 6,97 por litro Não informada

Fonte: Edenred Ticket Log, via G1. S-10 tem menor teor de enxofre.

O diesel comum acumulava alta de 15,2% desde janeiro. Na primeira quinzena de outubro, a média do Norte superava a do Sul e Sudeste em R$ 0,78 por litro, diferença de cerca de 11,2%. Distância e logística ajudam a explicar por que a mesma alta nacional não produz o mesmo preço em cada lugar.

Rodovia transfere o custo à comida

O Brasil transporta a maior parte de suas cargas por caminhões. No agro, o diesel aparece no preparo do solo, no plantio, na colheita e no trajeto até armazéns, indústrias e portos. Por isso, o aumento atinge a produção antes mesmo de chegar ao frete final.

O repasse ao alimento não é automático nem integral. Produtores, transportadores e empresas podem absorver parte do custo. Contratos, concorrência e margens determinam quanto chega ao comprador e em qual velocidade.

A dependência das estradas também reduz alternativas quando o combustível fica caro. Ferrovias podem atender determinados trajetos de grãos e produtos industriais. Ampliar essa infraestrutura é uma das respostas de longo prazo citadas pelos especialistas ouvidos pelo G1.

Subsídio ganha tempo, mas tem limite

O governo federal renovou a subvenção de R$ 2,12 por litro do diesel por mais um mês. A medida busca conter o efeito do petróleo internacional. O professor Paulo Feldmann, da Universidade de São Paulo, afirma que ela pode ajudar, mas depende de recursos públicos.

Murilo Viana, economista da Universidade Estadual de Campinas, vê possível justificativa temporária. O país também arrecada com exportação de petróleo, royalties e dividendos. Ele alerta, porém, que preços internos artificialmente baixos podem desestimular importadores privados e criar risco de abastecimento.

A discussão, portanto, não se resume a apoiar ou rejeitar todo subsídio. É preciso comparar custo fiscal, duração, regra de saída e efeito no mercado. Para reduzir a vulnerabilidade, especialistas defendem ampliar e modernizar refinarias e investir em transporte alternativo.

O que dizem os especialistas: Ao G1, Francismar Ferreira, do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis, defendeu ampliar e modernizar o refino nacional. Murilo Viana defendeu que medidas de estabilização sejam temporárias e tenham regras claras de encerramento.

Para o produtor, a lição prática é separar os componentes do problema. Petróleo e câmbio influenciam a importação. Refino e logística afetam a oferta interna. Contratos e margens definem o repasse. Acompanhar esses fatores permite planejar sem atribuir toda mudança de preço a uma única causa.

Como fizemos: Reunimos dados da ANP, da Petrobras e do índice Edenred Ticket Log reproduzidos pelo G1 em 28/10/2026. Calculamos a diferença de R$ 0,78 entre as médias regionais e sua variação proporcional. Não somamos produção e importações ao consumo porque os dados também envolvem estoques e outras movimentações.

Fontes