Agronegócio

Leite ao produtor sobe 42% de janeiro a julho; importação pesa

O preço pago ao produtor de leite subiu cerca de 42% entre janeiro e julho, mas a importação de lácteos em alta limita o ganho do pequeno pecuarista.

Pastagem verde com cerca de arame em primeiro plano, árvores ao fundo e céu azul com nuvens carregadas, em fazenda de gado leiteiro
Pastagem de brachiária em fazenda de gado leiteiro em Arapuá (MG), em janeiro de 2010; foto de arquivo.Foto: Tiago Firmino Boaven… / Panoramio / Wikimedia Commons (CC BY 3.0)

Em 1º de outubro, o leite pago ao produtor fechou em R$ 2,8869 por litro, segundo o Cepea, centro de estudos da Esalq/USP. No indicador de janeiro, o valor era R$ 2,0216. A alta é real, mas nem todo pecuarista sente o ganho, porque o leite importado também cresce.

Para entender o momento, é preciso olhar o ano anterior. Em outubro de 2025, a média paga ao produtor foi de R$ 2,2996 por litro. Foi uma queda real de 21,7% em doze meses, e a sétima baixa mensal seguida, segundo o Cepea citado pela Itatiaia.

Preço sobe, e importação sobe junto

Entre janeiro e julho, o indicador subiu de R$ 2,0216 para R$ 2,8761 por litro. A alta foi de cerca de 42%. A tabela mostra a série mensal.

Preço do leite ao produtor subiu em todos os meses de janeiro a julho Média Brasil do Cepea/Esalq, em R$ por litro, por mês de referência

Mês de referência R$ por litro
Janeiro de 2026 2,0216
Março de 2026 2,3924
Abril de 2026 2,6584
Maio de 2026 2,6617
Junho de 2026 2,7464
Julho de 2026 2,8761

Fonte: Cepea/Esalq, via Notícias Agrícolas. Elaboração: redação.

Ao mesmo tempo, o Brasil comprou mais leite de fora. Em julho, as importações de lácteos somaram 236,3 milhões de litros em equivalente-leite, que é o volume de leite usado para fazer esses produtos. O número foi 33,49% maior que o de julho de 2025, segundo a Secex, com dados citados pelo Cepea.

Os analistas do Cepea afirmam que “o atual ciclo de alta está próximo do fim”. Segundo eles, “A tendência para o encerramento do terceiro trimestre é de recuo nas cotações pagas ao produtor”. Mesmo assim, o fechamento de 1º de outubro ainda subiu 0,38%.

Ração mais barata, mas tarifa suspensa

O milho, base da ração, também caiu de preço. Em 19 de outubro, o Cepea publicou a nota “MILHO/CEPEA: Quedas nos preços se intensificam”. Não encontramos cotação em reais do período, por isso não calculamos o custo da alimentação do rebanho.

Em maio, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) reconheceu dumping, que é vender abaixo do preço praticado no país de origem. A prática foi apontada no leite em pó da Argentina e do Uruguai. Os dois países somaram 86% do leite em pó importado em maio, segundo dados da Secex divulgados pela CNA.

Na reunião de 28 de maio, o Gecex, comitê executivo da Camex, aprovou as tarifas, mas suspendeu a cobrança, segundo a CNA. Para exportadores argentinos que colaboraram com a investigação, as tarifas vão de 4,80% a 26,05%. Para os novos exportadores, chegam a 120,64%, de acordo com a Itatiaia.

O que diz a Camex: A Camex reconheceu o dumping, mas suspendeu a cobrança das tarifas até a análise de “possíveis impactos da medida sobre a economia e os indicadores de inflação”, segundo a Resolução Gecex nº 907/2026, publicada no Diário Oficial da União em junho.

A CNA discorda da suspensão. Jônadan Ma, presidente da Comissão Nacional de Pecuária de Leite da entidade, disse: “A luta ainda não acabou”.

O que o governo oferece ao pequeno produtor

O governo tem duas ferramentas. A primeira é a Política de Garantia de Preços Mínimos (PGPM), operada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). A Portaria 934, do Ministério da Agricultura, publicada em 13 de julho, inclui o leite entre os produtos das safras 2026/27 e 2027.

A segunda é a compra pública. A Lei 15.226, de 30 de setembro de 2025, elevou de 30% para 45% a parcela dos recursos do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) que deve ser comprada da agricultura familiar. A regra vale desde 1º de janeiro de 2026. Em dezembro de 2025, a Conab anunciou a compra de 2,5 mil toneladas de leite em pó da agricultura familiar, para “fortalecer a produção leiteira da agricultura familiar”.

O que isso significa

Os números mostram um produtor que recebe mais por litro do que recebia em janeiro. Mas ele disputa espaço com um volume de importação que também cresce. Se o Cepea estiver certo, o preço recua no fim do ano, e a margem pode voltar a encolher.

A suspensão das tarifas sobre o leite em pó não tem prazo definido. Até lá, o produto importado entra sem a cobrança antidumping.

Como fizemos: Usamos a série de preço do leite ao produtor do Cepea/Esalq, por data de fechamento, e os dados de importação da Secex divulgados pelo Cepea e pela Itatiaia, acessados em 23/10/2026. A alta de 42% compara R$ 2,8761 em julho com R$ 2,0216 em janeiro, em valores nominais, sem correção pela inflação. O fechamento de 1º de outubro não traz mês de referência na fonte. Não encontramos dados de importação de setembro nem cotações em reais do milho para o período.

Fontes