Agronegócio

Em 2002, o pico do dólar veio antes da vitória de Lula, não depois

Dados do Banco Central e do Ipeadata mostram que o dólar e o risco-país subiram antes do segundo turno de 2002 e caíram depois.

Dois operadores de costas, sentados diante de mesas com monitores, em frente a um grande painel de cotações da Bovespa
Pregão da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), com painel de cotações ao fundo, em foto de abril de 2007.Foto: Rafael Matsunaga / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em 22 de outubro de 2002, a taxa de venda do dólar chegou a R$ 3,9552. Foi o maior valor do ano, cinco dias antes do segundo turno que elegeu Luiz Inácio Lula da Silva presidente.

Os dados do Banco Central mostram que o pico veio antes da urna, e não depois. Depois de 27 de outubro, o dólar recuou: R$ 3,6450 em 31 de outubro e R$ 3,5333 no fim do ano.

O risco-país mede quanto o Brasil paga a mais em juros do que os Estados Unidos para tomar dinheiro lá fora. Aqui, usamos o EMBI+ Brasil, índice do banco JP Morgan. Cada 100 pontos equivalem a 1 ponto percentual de juros a mais.

O clima de 2002 era de medo de mudança de rumo. Em 22 de junho, Lula divulgou a Carta ao Povo Brasileiro, com a frase: “Premissa dessa transição será naturalmente o respeito aos contratos e obrigações do país.” Em 6 de setembro, o Fundo Monetário Internacional (FMI) aprovou um crédito de stand-by de US$ 30,4 bilhões, um empréstimo de emergência com metas a cumprir.

O pico veio antes do voto

O risco-país já tinha passado de 2.000 pontos em 29 de julho, cinco semanas depois da carta. Em 27 de setembro, chegou a 2.443 pontos, o maior valor de 2002. A carta, portanto, não impediu a alta.

Dólar e risco-país em 2002 e depois Taxa de venda do dólar, em R$, e EMBI+ Brasil, em pontos; datas selecionadas

Data Dólar (R$) Risco-país (pontos)
2 jan 2002 2,3066 —
27 set 2002 3,8541 2.443
22 out 2002 3,9552 1.928
31 out 2002 3,6450 1.741
31 dez 2002 3,5333 1.445
31 dez 2003 2,8892 463
15 mai 2007 1,9922 —
31 dez 2007 1,7713 —

Fonte: Banco Central (Sistema Gerenciador de Séries Temporais, série 1); Ipeadata (EMBI+ Brasil, JP Morgan). Elaboração: redação.

Depois da eleição, os dois indicadores caíram juntos. Entre 27 de setembro e 31 de outubro, o risco-país foi de 2.443 para 1.741 pontos. A coincidência é com a vitória, mas não prova que ela causou a queda.

O que veio depois, e o que não cabe na conta

A Ibovespa, principal índice da B3, a Bolsa brasileira, caiu 17,01% em 2002, segundo a tabela anual do Maisretorno. Em 2003, subiu 97,34%, e em 2007, 43,65%. São retornos nominais, sem correção pela inflação.

O dólar também caiu. Em 2003, recuou 18,2%, para R$ 2,8892. Em 15 de maio de 2007, ficou abaixo de R$ 2 pela primeira vez na série, e fechou 2007 em R$ 1,7713. O dólar que chegou a R$ 3,95 em 2002 caiu para menos da metade em cinco anos.

Mas o cenário não era só brasileiro. Em 25 de junho de 2003, o Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos, reduziu os juros para 1%. Juros baixos lá fora podem levar investidores a buscar países emergentes. Este texto não mede esse efeito.

O custo da época também não some. Em 2002, a inflação oficial, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), somou 12,53% no ano. A meta da Selic, a taxa básica de juros, chegou a 25% em 19 de dezembro. Juros altos encarecem o crédito para empresas e produtores.

Para o agro, o efeito aparece no comércio exterior. Segundo tabela do Instituto de Economia Agrícola (IEA), com dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), as exportações do agronegócio somaram US$ 26,06 bilhões em 2002. Em 2007, foram cerca de US$ 58,4 bilhões, segundo a Embrapa. São valores em dólares correntes, sem correção pela inflação americana, e as duas fontes são diferentes.

Essa alta coincide com o ciclo de preços das commodities e com a demanda de outros países. O texto não separa essas causas, nem mede o peso do câmbio.

O que diz o FMI: No comunicado de 6 de setembro de 2002, o Fundo listou entre as razões do apoio “help reduce current market uncertainties and volatility”, ou seja, ajudar a reduzir as incertezas e a volatilidade do mercado (tradução nossa). Fonte: comunicado do FMI.

O mesmo desenho apareceu em 2018. O dólar chegou a R$ 4,1879 em 14 de setembro, durante a campanha, segundo o Banco Central. Em 29 de outubro, um dia depois do segundo turno, estava em R$ 3,6368. A Ibovespa fechou 2018 com alta de 15%, segundo o Money Times.

Em 2002 e em 2018, o dólar e o risco subiram antes da votação e recuaram depois. O Poder360 lembra que a Bolsa também recuou em anos eleitorais como 1998, 2002 e 2014. A coincidência não prova uma regra, e as causas mudaram de um caso para o outro.

Ativos podem perder valor, e uma queda pode se aprofundar antes de melhorar. A série de 2002 não garante que o padrão se repita. A pergunta que fica para o agro é quanto do ganho veio de preço e demanda externa, e quanto veio de crédito e câmbio. Os dados desta série não respondem a isso.

Como fizemos: Usamos a taxa de venda do dólar (série 1), a meta da Selic (série 432) e o IPCA de 12 meses (série 13522), todas do Sistema Gerenciador de Séries Temporais do Banco Central, acessadas em 26/10/2026. O risco-país é o EMBI+ Brasil (JP Morgan), pela série do Ipeadata, acessada em 26/10/2026. A variação anual da Ibovespa é da tabela do Maisretorno, que não conferimos com a B3. As exportações do agro estão em dólares correntes, de duas fontes diferentes (IEA/Secex e Embrapa), e não foram corrigidas. Não incluímos números do pregão de 26/10/2026, pois não os conferimos em fonte primária.

Fontes