Agronegócio

Dólar a R$ 5,40 ajuda exportador do agro e encarece adubo importado

O dólar fechou a R$ 5,40 após a reeleição de Lula. Exportador do agro recebe mais reais; quem compra adubo importado paga mais.

Operadores de costas diante de painéis com cotações em vermelho e verde no pregão da Bovespa
Pregão da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), que hoje integra a B3, em foto de abril de 2007.Foto: Rafael Matsunaga / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

O dólar comercial fechou a R$ 5,403 na segunda-feira (26), com alta de 8,21% em um dia. Na sexta-feira (23), a moeda havia fechado a R$ 4,9931. O salto veio depois da reeleição de Lula, confirmada no segundo turno de domingo (25).

No campo, a alta tem dois lados. Quem vende produto cotado em dólar recebe mais reais por cada venda. Quem compra adubo, máquinas ou defensivos importados paga mais em reais pelo mesmo item.

Um dia de câmbio e de bolsa

A moeda chegou a R$ 5,60 logo no início do pregão, segundo o InfoMoney. Depois, recuou parte da alta e fechou perto de R$ 5,40. O Poder360 e o Money Times registram R$ 5,403. A CNN Brasil registra R$ 5,406, com alta de 8,36%.

A bolsa caiu mais. O Ibovespa fechou em 176.608,23 pontos, queda de 13,88%, segundo o Poder360 e a CNN Brasil. A B3, bolsa de valores do país, acionou o circuit breaker, mecanismo que suspende os negócios em quedas fortes. Flávio Bolsonaro não reconheceu o resultado e disse que buscará anular a votação, segundo a Reuters.

Em proporção, a alta do dia somou cerca de R$ 0,41 sobre a sexta-feira. Na quarta-feira (21), o dólar tinha fechado a R$ 5,0279, segundo o Money Times.

Quem ganha: soja, açúcar e café

Soja, açúcar e café têm preço de referência em dólar nas bolsas de Chicago (Chicago Board of Trade, ou CBOT) e de Nova York (Intercontinental Exchange, ou ICE). Se o preço em dólar se mantém, cada dólar convertido vira mais reais.

Mas o preço em dólar caiu no mesmo dia. Segundo a Reuters, o contrato de soja de novembro recuou quase 20 centavos, para US$ 12,376 por bushel (medida usada no comércio de grãos), por volta das 13h30. O açúcar bruto caiu mais de 6%, para abaixo de 18 centavos de dólar por libra-peso. O café arábica recuou mais de 2%, para cerca de US$ 3 por libra-peso.

A conta mecânica é simples. A soja caiu cerca de 2% em Chicago, e o dólar subiu 8% no fechamento. Em reais, o efeito líquido seria alta de cerca de 6%. Esse número é nosso, feito com horários diferentes, e não mostra o preço que o produtor recebe no interior.

Eduardo Vanin, analista da Agrinvest, avaliou que a alta do dólar pode melhorar a formação dos preços da soja e do milho no Brasil, segundo a Notícias Agrícolas.

Quem paga: adubo, máquina e diesel

O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes usados na agricultura, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), citado pelo GIROAgro em 22 de julho de 2026. No primeiro semestre, o preço médio importado foi de US$ 383,8 por tonelada, 16,8% acima de 2025, pelo Comex Stat. Se o preço em dólar não cair, cada tonelada custa mais em reais.

Máquinas e defensivos, produtos para combater pragas, também têm parte do preço ligada ao câmbio. Não encontramos levantamento recente que quantifique essa parte.

O diesel segue outra regra. Em resposta a um ofício da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a Petrobras disse, em 2 de abril de 2026, que seus reajustes não seguem periodicidade definida. Segundo a estatal, o modelo evita o repasse da volatilidade das cotações internacionais e do câmbio para os preços internos. Não localizamos reajuste anunciado para esta data.

Quem já travou o câmbio tem menos exposição. Há duas formas comuns: contratos futuros de dólar na B3 e a CPR (Cédula de Produto Rural, título que financia a lavoura) atrelada ao dólar. Não encontramos levantamento público e atual sobre quanto da safra está travado.

O que diz Jack Scoville, analista da The Price Futures Group, em Chicago: “Certamente a eleição foi uma surpresa, e isso está ligado à desvalorização da moeda.” A fala está na reportagem da Reuters de 26/10/2026, republicada pelo InfoMoney.

O que fica em aberto

Ainda não se sabe quanto dura o câmbio alto, nem quanto do custo da safra de 2027 já está fechado em contrato. Não encontramos dados públicos que respondam a essas duas perguntas.

Câmbio e bolsa podem reverter o movimento, e quedas fortes podem se aprofundar. Ativos podem perder valor. Para o campo, o efeito depende do que cada produtor vendeu, comprou e travou antes do dia 26.

Como fizemos: Usamos as cotações de fechamento de 26/10/2026 do Poder360, da CNN Brasil e do Money Times, e as de 21/10 e 23/10 do Money Times e da Notícias Agrícolas, acessadas em 26/10/2026. Os preços de Chicago e Nova York são da Reuters, com horários informados no texto. Cálculo próprio: 1,0821 × 0,98 ≈ 1,06, ou cerca de 6% em reais, com cotações de horários diferentes. Não localizamos cotação diária do Cepea para o dia, nem levantamento atual sobre travas cambiais. Sobre a queda da bolsa, algumas fontes citam 13,43%, mas o fechamento de 176.608,23 pontos corresponde a 13,88%.

Fontes