Queda de 13,88% em um dia não é o fim, mas ninguém acerta o fundo
O Ibovespa caiu 13,88% em 26 de outubro. Quem é obrigado a vender no pânico, com dívida ou prazo curto, costuma pagar a conta mais alta.
Este texto integra Ponto de vista, nosso espaço de comentário assinado. A posição é do autor e não necessariamente do Jornal Pau-Brasil.

Na segunda-feira, 26 de outubro de 2026, o Ibovespa, principal índice da B3, fechou em queda de 13,88%, aos 176.608,23 pontos. O dado é da InfoMoney, no fechamento das 17h15. Às 9h57, o circuit breaker, trava que suspende os negócios em quedas fortes, foi acionado e parou o pregão por 30 minutos.
A queda veio no dia seguinte à reeleição de Lula, confirmada no segundo turno de domingo (25). Segundo a mesma InfoMoney, foi a primeira vez desde março de 2020 que a trava foi acionada.
Um dia assim assusta. Mas um pregão, sozinho, diz pouco sobre o dinheiro que alguém deixa render por anos. Nossa posição é simples: quem decide no pânico costuma decidir pior, e quem tem dívida ou prazo curto precisa de cuidado redobrado.
Quem paga a conta do susto
Analistas ouvidos pela InfoMoney leram o dia de formas diferentes. Fábio Murad, da Wiser Asset, disse que a reeleição pressiona os ativos “porque contraria as apostas em uma mudança fiscal mais rápida”. Rohan Daswani, da Gavekal Research, viu oportunidade para quem tem horizonte longo.
Quem sofre mais em quedas assim é quem precisa vender. Isso inclui quem usa dinheiro emprestado, quem vai precisar do valor em poucos meses e quem concentrou o patrimônio em uma única empresa. A venda forçada transforma uma oscilação em prejuízo definitivo.
Há evidência de que negociar muito custa caro. Brad Barber e Terrance Odean estudaram 66.465 famílias com contas em uma corretora dos Estados Unidos, entre 1991 e 1996. Os investidores que mais negociavam tiveram retorno anual de 11,4%, enquanto o mercado, medido pelos autores, rendeu 17,9%. O estudo, publicado no Journal of Finance em 2000, usa dados de uma só corretora e de outro período, o que limita a generalização.
Ativos podem perder valor, e pânicos podem se aprofundar. Nada aqui garante que a bolsa volte ao nível de antes, nem em que prazo.
O fundo só se reconhece depois
Em março de 2020, a pandemia levou a bolsa a acionar o circuit breaker várias vezes, segundo a InfoMoney. Em 23 de março, o Ibovespa chegou a 63.569 pontos, a mínima do ano, segundo o Poder360. O índice fechou 2020 aos 119.017 pontos. Pelas nossas contas, a alta a partir daquele piso foi de cerca de 87%.
Essa recuperação não foi uma linha reta. A InfoMoney associa os ganhos dos dias seguintes a um pacote de estímulo dos Estados Unidos. Quem vendeu no fundo não teve como saber onde ele estava. Ninguém teve.
A história também tem o lado contrário. O Nikkei 225, da bolsa de Tóquio, só superou o recorde de dezembro de 1989 em 22 de fevereiro de 2024, 34 anos depois, segundo a DealStreetAsia. Quem investiu no topo daquela época esperou mais de três décadas para ver o índice voltar ao antigo pico.
Os dois casos não dizem o que vai acontecer agora. Mostram apenas que o fundo costuma ser reconhecido depois que passa.
No interior, a lógica é parecida, com outro balanço. O produtor é um investidor de longo prazo: terra, máquinas e lavoura são patrimônio construído em anos. Mas muitos têm dívidas com juros e datas de vencimento fixas, além de uma renda que depende do preço da safra. Antes de qualquer decisão, a pergunta é a mesma: quanto custa a dívida, quando ela vence e quanto da renda depende de um preço que pode cair.
O que diz Rohan Daswani, da Gavekal Research: Em comentário citado pela InfoMoney às 8h42 de 26 de outubro, ele afirmou que “investidores deveriam considerar a correção como uma possível oportunidade de compra”.
O que isso significa
A queda de 26 de outubro é real: 13,88% em um dia, com o circuit breaker acionado. Mas ela não diz se o mercado já chegou ao fundo, nem se vai cair mais. Quem afirma saber com certeza está vendendo convicção, não informação.
O que fica em aberto é o rumo das contas públicas e dos juros, que o mercado vai acompanhar nas próximas semanas. Para o investidor e para o produtor, a regra é a mesma: não decidir no susto, conhecer o custo das dívidas e separar o dinheiro que é preciso em poucos meses do que pode esperar. Isto não é recomendação de investimento, e nenhum retorno está garantido.
Como fizemos: Usamos o fechamento do Ibovespa de 26/10/2026 e as citações da InfoMoney (atualizações das 8h42 e 17h15), acessadas em 26/10/2026. Os dados de março e de 2020 vêm do Poder360 e da InfoMoney. Cálculo próprio: 119.017 ÷ 63.569 = 1,87, ou alta de cerca de 87%. Não confirmamos em outra fonte um número de queda de ação individual divulgado no mesmo dia, por isso não o usamos. O estudo de 2000 usa dados de uma corretora dos Estados Unidos e não mostra o comportamento do investidor brasileiro de hoje.
Fontes
- Ibovespa hoje: bolsa de valores ao vivo, 26/10/2026 — InfoMoney (acesso em 26/10/2026)
- Ibovespa aos 100 mil pontos: relembre como o índice perdeu esse patamar — InfoMoney
- Ibovespa termina o ano aos 119.017 pontos, com alta de 2,92% em 2020 — Poder360
- Trading Is Hazardous to Your Wealth — Brad Barber e Terrance Odean, Journal of Finance, vol. 55, n. 2, 2000
- Japan’s Nikkei scales record high — DealStreetAsia (22/02/2024)
- Bovespa, São Paulo city downtown — Wilfredor, Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)



