Ponto de vista

A Bolsa não é placar de legitimidade de uma eleição

A queda de 13,88% do Ibovespa mede apostas de investidores; quem legitima a eleição é o voto, e Lula teve 51,79% dos votos válidos.

Este texto integra Ponto de vista, nosso espaço de comentário assinado. A posição é do autor e não necessariamente do Jornal Pau-Brasil.

Mão de uma pessoa pressiona a tecla verde CONFIRMA de uma urna eletrônica, com a tela e os botões numerados visíveis
Urna eletrônica do modelo usado nas eleições brasileiras, em foto de arquivo de dezembro de 2021.Foto: Tribunal Superior Eleitoral / Wikimedia Commons (domínio público)

Na segunda-feira (26), o Ibovespa caiu 13,88% e fechou aos 176.608,23 pontos. O dólar subiu 8,21%, a R$ 5,4029. Foi a reação do mercado à reeleição de Lula, com 51,79% dos votos válidos, segundo a apuração do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Votos válidos são os que não são brancos nem nulos.

O Ibovespa é o principal índice da B3, a bolsa de valores de São Paulo. Ele mostra quanto investidores pagam pelas ações das empresas mais negociadas. Ele não mostra quanto o eleitor confia no resultado da urna. Tratar a queda como placar de legitimidade é um erro de categoria.

O mesmo pregão já tinha reagido antes. No dia 5 de outubro, depois do primeiro turno, o Ibovespa subiu 7,7%, a 206.911,89 pontos. O dólar caiu 4,12%, a R$ 5,001. O economista Felipe Camargo, da Oxford Economics, disse que “Flávio tem mais chances de favorecer políticas favoráveis às empresas”.

Não foi a primeira vez que a bolsa reagiu a uma pesquisa. Em 2 de setembro, o Ibovespa subiu 3,05%, a 185.205 pontos, impulsionado pelo desempenho de Flávio nas pesquisas eleitorais, segundo a Bloomberg Línea. O mercado reagia às pesquisas, e não às urnas.

A bolsa aposta, a urna decide

Nas pesquisas, Flávio aparecia na frente. Treze levantamentos analisados pela Manchester Investimentos apontavam Flávio à frente, com vantagem média de 2,4 pontos percentuais, segundo o InfoMoney. O resultado foi outro, e o mercado perdeu a aposta.

O gestor Thomas Haugaard, da Janus Henderson, disse que o resultado foi surpreendente, “principalmente porque os mercados haviam se dissociado das pesquisas”. Apostas erram. Isso faz parte do pregão, e não diz quem venceu a eleição.

A urna funciona de outro jeito. Cada voto vale um, e a eleição não tem preço de fechamento. A própria B3 informa que 5,6 milhões de pessoas físicas, ou seja, investidores individuais, aplicavam em renda variável (papéis cujo preço muda todo dia) no primeiro trimestre de 2026. Pela nossa conta, isso equivale a cerca de 2,6% dos 214,2 milhões de habitantes, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A conta tem limite. A população inclui crianças, e a fatia entre adultos é maior. Ainda assim, quem investe na bolsa segue sendo minoria. A bolsa não representa o país.

Para quem tem ações, a queda é perda no papel, e pode virar perda real se a ação for vendida. Para a maioria, o impacto chega por outro caminho: o preço do crédito e dos alimentos.

O risco fiscal é real, e a resposta também

O argumento do mercado tem base e merece resposta, não desprezo. O economista William Jackson, da consultoria Capital Economics, escreveu: “A vitória surpreendente de Lula vai frustrar as esperanças de reformas que melhorariam as finanças públicas”.

O gestor Fábio Murad, da Wiser Asset, afirmou que “compromissos fiscais verificáveis favorecem estabilização”. A frase não pede a bolsa de volta. Pede contas que se possam checar.

Esse risco não fica restrito à bolsa. Juros mais altos encarecem o crédito de quem compra casa, abre um negócio ou planta. Um dólar mais caro pressiona os preços de produtos importados, e a inflação atinge quem ganha salário.

O que diz o Ministério da Fazenda: O ministro Dario Durigan disse ao Broadcast, em 26 de outubro: “Nós vamos mudar a lei ou, se necessário, a Constituição para buscar formalmente o centro da meta”. Ele afirmou que a mudança poderia sair “nesses dois meses que restam” de 2026, segundo o Money Times.

Nós defendemos que a resposta seja pública e feita com números. Cobrar disciplina fiscal é legítimo. Mas ela não pode servir de desculpa para cortar o que sustenta o interior, como o SUS, a escola pública e a aposentadoria rural. A esquerda precisa mostrar a conta, com meta, prazo e fonte de receita.

Para o agro, a conta é outra. O produtor vende grão em dólar, mas compra adubo, diesel e crédito em reais, com juros. Quando o dólar sobe, a soja vale mais em reais. Mas o adubo importado também fica mais caro, e o saldo depende do que o produtor compra e do que paga para tomar dinheiro emprestado. O que pesa na porteira é o custo do dinheiro e o preço do insumo, não o índice da bolsa.

A eleição terminou nas urnas, com 51,79% dos votos válidos para Lula. O gestor Bruno Funchal, da Bradesco Asset Management, resumiu o dia: “Vai ser um dia difícil. O mercado vai reavaliar tudo.” O mercado vai reavaliar, e isso é normal. Mas a bolsa não ganha o poder de dizer quem pode governar. A legitimidade vem do voto, e a credibilidade fiscal se prova com regra cumprida.

Esta coluna não é recomendação de investimento. Ativos podem perder valor, e pânicos podem se aprofundar, como mostrou a trava de negociação desta segunda-feira.

Como fizemos: Usamos o fechamento do Ibovespa e do dólar de 26/10/2026, segundo InfoMoney e Money Times; o fechamento de 05/10/2026, segundo Forbes Brasil e Jornal do Comércio; a variação de 02/09/2026, segundo a Bloomberg Línea; a nota da B3 sobre o 1º trimestre de 2026, de 06/07/2026; e a estimativa de população do IBGE para 1º de julho de 2026, divulgada em 28/08/2026. As citações de analistas vêm dessas mesmas reportagens. Acessos em 26/10/2026. Cálculo próprio: 5,6 milhões dividido por 214,2 milhões, cerca de 2,6%. O percentual de 51,79% dos votos válidos aparece em cobertura da apuração; a redação não consultou diretamente o portal do TSE antes desta publicação. A população total inclui crianças, por isso a fatia entre adultos é maior.

Fontes