Safra

MT tem segundo início de safra mais seco em 27 anos

Estado recebeu 186 mm entre setembro e outubro, 33% abaixo da média; plantio chega a 96,07%, mas umidade ainda não garante produção.

Equipamento despeja grãos de soja sobre uma grande pilha coberta por lona
Descarga de soja fotografada em 2008; imagem de arquivo, sem relação direta com as lavouras atuais.Foto: Roosewelt Pinheiro / Agência Brasil / Wikimedia Commons (CC BY 3.0 BR)

Mato Grosso recebeu 186 milímetros de chuva entre 1º de setembro e 27 de outubro. O volume ficou 33% abaixo da média histórica de 276 milímetros e marcou o segundo início de safra mais seco em 27 anos.

O levantamento da EnsoAg/SmartCampo para a Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT) usa dados de satélite da Nasa. O resultado contrasta com o plantio acelerado: 96,07% da área estava semeada até sexta-feira (6), segundo o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea).

Plantio rápido não elimina o déficit

A diferença entre os dois indicadores é central. O percentual semeado mede trabalho realizado, não desenvolvimento das plantas. A chuva insuficiente pode afetar a soja que já entrou na fase reprodutiva, quando flores e vagens começam a se formar.

Nos 30 dias terminados em 27 de outubro, a média estadual foi de 124 milímetros. O esperado era 189 milímetros. O déficit de 65 milímetros equivale a 34% do padrão histórico, segundo o mesmo estudo.

A falta de chuva atingiu 22 dos 23 municípios avaliados. Em 66% do território estadual, o volume ficou mais de 25% abaixo da média. O Oeste concentrou os maiores desvios, com destaque para Campos de Júlio e Brasnorte.

Chuva e plantio contam partes diferentes da safra Indicadores para Mato Grosso na safra 2026/27

Indicador Resultado Referência
Chuva de 1º/9 a 27/10 186 mm média de 276 mm
Chuva de 28/9 a 27/10 124 mm média de 189 mm
Área semeada até 6/11 96,07% 85,68% um ano antes
Municípios abaixo da média 22 de 23 levantamento até 27/10

Fontes: EnsoAg/SmartCampo, Aprosoja MT e Imea. Elaboração: redação.

Regionalização limita qualquer previsão nacional

Campos de Júlio recebeu 89 milímetros nos 30 dias analisados, 56% menos que a média. Brasnorte teve 80 milímetros e déficit de 54%. No Médio-Norte, Lucas do Rio Verde apresentou redução de 44%, e Sorriso, de 35%.

Comodoro registrou 88 milímetros e queda de 52% ante o padrão. Sapezal teve 90 milímetros e déficit de 47%, enquanto Campo Novo do Parecis apresentou redução de 39%. A variação entre municípios mostra que a média estadual não descreve a condição de cada lavoura.

O estudo também mediu a severidade da seca por balanço hídrico, que compara água disponível e demanda das plantas. Na semana de 21 a 27 de outubro, 52% da área estadual ficou em faixa classificada como moderadamente seca.

As chuvas entre 28 de outubro e 1º de novembro somaram 28 milímetros em média. Foi um alívio parcial, ainda 22% abaixo do normal para aqueles cinco dias. Não houve, portanto, recuperação completa do déficit acumulado.

O avanço da semeadura favorece o calendário da segunda safra de milho, plantada depois da soja. O Imea informa que o índice atual supera em 10,39 pontos percentuais o mesmo período do ciclo anterior. Mas o ganho de calendário não assegura produtividade.

O que diz a Aprosoja MT: Em boletim divulgado em 5/11/2026, a entidade afirmou que não anuncia quebra de safra. O presidente Lucas Costa Beber alertou que ainda é cedo para medir perdas ou tratar uma supersafra como certa.

A próxima referência será o comportamento das lavouras após as chuvas de novembro. O déficit já é mensurável; eventual perda de produção ainda não. Separar esses dois fatos evita tanto o otimismo automático quanto a antecipação de uma quebra.

Como fizemos: Comparamos os acumulados divulgados pela Aprosoja MT com suas médias históricas e recalculamos os déficits. Subtraímos 10,39 pontos percentuais do plantio atual para obter os 85,68% de um ano antes. O levantamento usa satélite e não mede produtividade nem perdas definitivas.

Fontes