Quase 95% dos produtores têm dificuldade para contratar no campo
Estudo da CNA com o Cepea mostra que 44,5% dos produtores veem a mão de obra como o maior desafio do campo, à frente de custos e clima.

Em 25 de agosto de 2026, a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) apresentou um estudo sobre a falta de trabalhadores no campo. Segundo a entidade, 44,5% dos produtores apontam a mão de obra como o principal desafio da propriedade. O levantamento foi feito com o Cepea, centro de pesquisa econômica ligado à Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP).
Mas falta gente no campo tem outro lado. Ele diz respeito a quem trabalha na lavoura e na pecuária: quantos são, quanto ganham e quantos têm carteira assinada. Os dados oficiais ajudam a responder essas três perguntas.
Quem trabalha no campo
O problema de contratação atinge quase todos os produtores ouvidos. Segundo a CNA, 94,8% relataram alguma dificuldade para contratar. Outros 84,3% operam com menos pessoas do que precisariam. Os efeitos aparecem na rotina: 48,7% citaram atrasos nas operações.
O Censo Agropecuário de 2017, feito pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), contou 15.036.978 pessoas ocupadas nos estabelecimentos agropecuários. Esse é o número da divulgação preliminar do levantamento. Dessas pessoas, 10.958.787 eram produtores ou parentes, ou 73% do total.
Nossa conta mostra que cerca de 4,1 milhões de pessoas, ou 27%, não eram da família do produtor. Esse grupo inclui os trabalhadores contratados. Entre 2006 e 2017, o total de ocupados caiu 9,2%, ou 1.530.566 pessoas.
Quanto ganha quem tem carteira
Segundo o Portal Salário, um site privado que usa dados do Novo Caged, o trabalhador agropecuário em geral com contrato pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) ganhou em média R$ 1.983,11 por mês. O período vai de setembro de 2025 a agosto de 2026. A jornada é de 44 horas semanais.
A mediana, valor que divide a lista ao meio, foi de R$ 1.804. Usamos a mediana porque poucos salários altos puxam a média para cima. Metade dos contratados nesse período ganhou menos que R$ 1.804 por mês.
Carteira assinada cresce pouco
O Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Novo Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), registra vagas com carteira assinada. Os dados mostram um campo com saldo pequeno. Em agosto de 2026, a agropecuária criou 1.452 vagas formais. O país inteiro criou 165.827, segundo a CNA, que usa esses dados.
De janeiro a agosto, o setor somou 56.024 vagas formais. O total do país foi de 1.134.033. Pela nossa conta, a agropecuária respondeu por cerca de 4,9% das vagas do ano.
No país, 38,1% das pessoas ocupadas estavam na informalidade ao fim de 2025, segundo o IBGE. Informalidade é o trabalho sem registro, como o empregado sem carteira assinada ou o conta própria sem CNPJ.
O que diz a CNA: Em 25 de agosto de 2026, a entidade apresentou o estudo “Mercado de Trabalho na Agropecuária: Evidências sobre Escassez de Mão de Obra e Produtividade”, com a economista Isabel Mendes. A publicação está no site da CNA. Não enviamos perguntas à entidade para esta reportagem.
O que isso significa
Os dados mostram que cerca de um em cada quatro trabalhadores do campo não era da família do produtor. Mostram também que as vagas formais cresceram pouco no ano. A falta de gente aparece nas respostas dos próprios produtores à CNA.
O que os dados reunidos não dizem é por que as vagas ficam abertas. Essa pergunta fica em aberto. O próximo passo é checar a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) por setor, do IBGE.
Como fizemos: Usamos o comunicado da CNA sobre o estudo com o Cepea (25/08/2026), o boletim da CNA sobre o Novo Caged de agosto de 2026 (01/10/2026), o Censo Agropecuário de 2017 pela divulgação preliminar do IBGE, citada pela Revista Cultivar, o Portal Salário com dados de setembro de 2025 a agosto de 2026, e uma notícia do O Povo sobre a PNAD Contínua de 2025. Tudo foi acessado em 24/10/2026. Nossos cálculos: 15.036.978 menos 10.958.787 dá 4.078.191 (27%); a queda de 2006 a 2017 é de 1.530.566 sobre 16.567.544 (9,2%); e 56.024 sobre 1.134.033 dá 4,9%. Não conseguimos abrir as tabelas do IBGE, por isso não trazemos a informalidade só da agropecuária. Os números do Caged vêm de resumos da CNA, não da tabela do Ministério. O Portal Salário é um site privado e conta admissões e desligamentos juntos.
Fontes
- Agenda Brasil – Escassez de mão de obra é desafio no campo — CNA (acesso em 24/10/2026)
- Agosto tem criação de 165,8 mil empregos formais — CNA, Núcleo Econômico (acesso em 24/10/2026)
- Boletim CNA sobre o Novo Caged, 01/10/2026 — CNA (acesso em 24/10/2026)
- Censo Agropecuário mostra radiografia do campo — Revista Cultivar (acesso em 24/10/2026)
- Trabalhador Agropecuário em Geral — Portal Salário, com dados do Caged (acesso em 24/10/2026)
- Dezenove estados e DF têm em 2025 o menor desemprego já registrado — O Povo (acesso em 24/10/2026)



