Agronegócio

Indústria pede tarifa antidumping à proteína de soja chinesa

Importações do ingrediente quase dobraram entre 2017 e 2025; governo investiga dumping, mas diz que ainda não pode aplicar uma sobretaxa provisória.

Colheitadeira verde trabalha em extensa lavoura de soja sob céu azul
Colheita de soja no Mato Grosso, registrada em 3 de novembro de 2015; imagem de arquivo.Foto: Marevarzeamt / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Fabricantes de proteína de soja pediram ao governo brasileiro uma tarifa adicional e provisória contra o ingrediente importado da China. A solicitação foi encabeçada por ADM e Solae, com apoio da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove). O pedido ocorre durante investigação de dumping aberta em abril.

Dumping é a venda no exterior por preço inferior ao praticado no mercado de origem. A investigação existe, mas ainda não concluiu que houve a prática, dano à indústria ou ligação entre os dois. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) afirma que uma medida provisória ainda não pode ser imposta.

Importação cresceu, mas segue abaixo do pico

As compras brasileiras de proteína de soja chinesa passaram de 4,5 mil toneladas em 2017 para 8,5 mil em 2025. O aumento foi de 88,3% no período. Em 2024, porém, o volume havia chegado a 10,3 mil toneladas, acima do registrado no ano seguinte.

De janeiro a setembro de 2026, as importações somaram cerca de 7 mil toneladas. O volume equivale a 82% de todo o ano de 2025 em nove meses. Os dados mostram crescimento de longo prazo, mas não permitem afirmar que cada ano registrou alta.

Compras da China quase dobraram desde 2017 Importações brasileiras de proteína de soja chinesa, em mil toneladas

Período Volume
2024 10,3
2025 8,5
Janeiro a setembro de 2026 cerca de 7,0
2017 4,5

Fonte: dados do governo citados pela Folha. O período de 2026 é parcial e não deve ser comparado como ano completo.

Disputa fica na etapa industrial

A proteína investigada é usada na alimentação humana. O ingrediente aparece em embutidos, hambúrgueres, suplementos e bebidas, com funções como textura e retenção de água. Não se trata de uma tarifa sobre a soja em grão exportada pelo Brasil.

A distinção evita confundir dois fluxos comerciais. Em 2025, a China comprou 85,6 milhões de toneladas de soja em grão do Brasil, por US$ 34,7 bilhões. Foram 79% das exportações brasileiras do grão, segundo dados do Mdic citados pela Folha.

Na etapa industrial, a Abiove alega concorrência desleal e ociosidade da capacidade instalada. A entidade citou investimento de cerca de R$ 1 bilhão da ADM em Campo Grande e mais de R$ 55 milhões em pesquisa em Hortolândia. São argumentos da associação, ainda sob análise do governo.

Tarifa teria efeito sobre compradores

Uma sobretaxa pode proteger fabricantes locais, mas também elevar o custo das empresas de alimentos que compram o ingrediente. A Abiove não sugeriu uma alíquota específica. A entidade estimou impacto entre 0,33% e 1,89% no preço final de produtos processados de carne.

Em um produto de R$ 20, a faixa corresponderia a um acréscimo entre R$ 0,07 e R$ 0,38. A estimativa é da associação e não mede o repasse efetivo de cada empresa. Também não representa uma decisão tomada pelo governo.

O Departamento de Defesa Comercial (Decom), responsável pela apuração técnica, ainda não emitiu determinação preliminar. Segundo o Mdic, ela precisa reconhecer dumping, dano e nexo causal antes de uma medida provisória. A Câmara de Comércio Exterior também avalia a necessidade de conter dano durante o processo.

O que diz o Mdic: Em resposta à Folha, o ministério afirmou que ainda não é possível impor tarifa provisória porque o Decom não concluiu a etapa preliminar. A pasta explicou que a medida exige indícios positivos de dumping, dano à indústria e relação causal entre eles.

O próximo marco será a determinação preliminar da investigação. Até lá, o pedido das empresas não deve ser tratado como confirmação de dumping nem como tarifa já aprovada.

Como fizemos: Reunimos os dados de importação e comércio divulgados pela Folha em 28/10/2026 e os confrontamos com a página oficial da investigação. Calculamos a participação dos 7 mil toneladas no total de 2025. Não anualizamos o período parcial nem tratamos a abertura da apuração como prova de irregularidade.

Fontes