Safra

Safra recorde de algodão esbarra no consumo interno parado

Brasil deve produzir 4,2 milhões de toneladas e exportar 3,5 milhões; indústria nacional consome até 700 mil e enfrenta fibras sintéticas e importados.

Extensa plantação de algodão com capulhos brancos abertos e solo seco entre as fileiras
Plantação de algodão pronta para colheita no oeste do Texas, nos Estados Unidos, em 26 de outubro de 2007.Foto: Calsidyrose / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

O Brasil deve produzir 4,2 milhões de toneladas de algodão em pluma na safra 2026/27, segundo projeção do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). O volume renovaria o recorde. As exportações devem crescer 3% e alcançar 3,5 milhões de toneladas.

O contraste está no mercado interno. O consumo brasileiro permanece entre 500 mil e 700 mil toneladas por ano há quase uma década, segundo a Associação Brasileira dos Produtores de Algodão (Abrapa). Os números indicam uma safra cada vez mais dependente de compradores externos.

Exportação deve absorver 83% da produção

A projeção de embarques equivale a cerca de 83% da produção estimada. A proporção não é um balanço contábil fechado, porque estoques, perdas e calendário comercial também interferem. Ainda assim, mostra a dimensão do mercado externo diante do consumo nacional.

No cenário global, o USDA projeta produção de 25,7 milhões de toneladas, queda de 3,4% ante a temporada anterior. A demanda deve crescer 2%, para 26,8 milhões. A diferença é de 1,1 milhão de toneladas entre consumo e oferta projetados.

Esse desequilíbrio mundial reduz estoques, segundo a reportagem da Exame. O Brasil segue na direção contrária à da oferta global, com aumento de área e produção. A abertura de espaço externo, porém, não resolve a estagnação da indústria brasileira.

Mercado externo domina o destino da pluma Projeções para 2026/27, em milhões de toneladas

Indicador Volume
Produção brasileira 4,2
Exportações brasileiras 3,5
Produção mundial 25,7
Demanda mundial 26,8

Fonte: USDA, via Exame. A participação de 83% e a diferença global de 1,1 milhão são cálculos da redação.

Indústria nacional quer chegar a 1 milhão

A Abrapa estima que o país industrialize cerca de 700 mil toneladas. O presidente da entidade, Gustavo Piccoli, afirmou à Exame que a meta é alcançar pelo menos 1 milhão. Isso significaria elevar o processamento interno em pelo menos 300 mil toneladas.

A concorrência das fibras sintéticas, como o poliéster, integra o problema. A perda de competitividade da indústria têxtil também limita a demanda pela pluma nacional. Produzir mais fibra não garante, por si só, mais fiação, tecelagem e confecção no Brasil.

O setor também acompanha os efeitos da Lei 15.502/2026, chamada de “taxa das blusinhas”, que zerou o imposto de importação para compras internacionais de até US$ 50. A Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) estima que o consumo brasileiro de algodão pode cair até 7% em 2027, em seu cenário mais pessimista.

Projeção não elimina riscos comerciais

A estimativa da Abit é um cenário, não uma queda já registrada. O presidente da entidade, Fernando Pimentel, reconheceu que o problema não pode ser atribuído apenas à lei. A ressalva evita transformar uma projeção setorial em explicação única para a estagnação.

Na ponta produtiva, a SLC Agrícola prevê aumento de 12,2% em sua produção de segunda safra. O número é específico da empresa e não representa toda a lavoura nacional. A projeção de recorde também permanece sujeita ao andamento do plantio e do clima.

O Brasil ultrapassou os Estados Unidos nas exportações em 2024 e liderou por duas safras consecutivas, conforme a Exame. A projeção aponta para uma terceira liderança. A consolidação externa torna ainda mais visível a diferença entre vender a fibra e ampliar a manufatura nacional.

O que diz a Abrapa: Gustavo Piccoli afirmou à Exame que o país industrializa cerca de 700 mil toneladas e que a entidade quer chegar a pelo menos 1 milhão. Ele apresentou a expansão do processamento interno como um grande desafio do setor.

Os próximos relatórios do USDA deverão confirmar ou revisar a safra projetada. Para o leitor do campo, o número central não é só o recorde. É a necessidade de encontrar compradores e de transformar mais fibra em produtos dentro do Brasil.

Como fizemos: Comparamos as projeções do USDA e os dados de consumo divulgados pela Exame em 28/10/2026. Dividimos as exportações previstas pela produção brasileira e subtraímos a oferta da demanda mundial. Os dados não fecham estoques nem comprovam os efeitos futuros da lei sobre importações.

Fontes