Juros altos travam o campo e cobram serviços do interior
Manter a Selic em 13,75% preserva um custo que recai sobre produção, emprego e investimento; combater a inflação exige também agir sobre a oferta de alimentos.
Este texto integra Ponto de vista, nosso espaço de comentário assinado. A posição é do autor e não necessariamente do Jornal Pau-Brasil.

O Banco Central parou de reduzir os juros quando a taxa básica ainda estava em 13,75% ao ano. A decisão de quarta-feira (4) prolonga o custo de financiar a produção e adia investimentos que criam emprego no interior. Para quem planta, processa e transporta alimentos, a pausa tem efeito concreto.
O Copom tem razão em não fingir que a inflação está resolvida. A prévia oficial chegou a 4,62% em 12 meses, acima do teto de 4,5%. O erro seria tratar os juros como resposta suficiente para todos os problemas, inclusive câmbio e riscos climáticos.
A conta não cabe só na prestação do produtor
A Selic caiu 1,25 ponto percentual desde janeiro, mas continua em um nível que o próprio Banco Central chama de contracionista. Isso significa que a taxa restringe a atividade econômica. Crédito caro reduz o espaço para modernizar máquinas, construir armazéns e ampliar o beneficiamento de alimentos.
As linhas controladas do Plano Safra não sobem automaticamente com a Selic. Essa proteção é importante e deve ser defendida. Ela não alcança, porém, todo o capital de giro nem todas as empresas que sustentam a cadeia rural.
O plano empresarial de 2026/27 anuncia R$ 525,1 bilhões. O volume é relevante, mas sua composição mostra onde está o maior desafio. Só 26,7% do total foi reservado para investimentos, a parcela que financia estrutura, tecnologia e modernização.
Investimento recebe cerca de um quarto do crédito empresarial Distribuição dos R$ 525,1 bilhões do Plano Safra 2026/27
| Finalidade | Recursos | Participação |
|---|---|---|
| Custeio e comercialização | R$ 384,9 bi | 73,3% |
| Investimentos | R$ 140,2 bi | 26,7% |
| Total | R$ 525,1 bi | 100% |
Fonte: Ministério da Agricultura. Participações calculadas pela redação.
Custeio mantém a lavoura funcionando. Investimento decide se a produção ganha eficiência nos anos seguintes. Um país que quer renda no interior não pode olhar apenas para o total anunciado. Precisa acompanhar quem consegue contratar, a que taxa e para qual finalidade.
Inflação de alimentos não se resolve com trator parado
O Banco Central citou o El Niño entre os riscos do cenário. O fenômeno pode alterar chuvas e prejudicar safras. Nesse caso, a pressão sobre preços nasce também da oferta de alimentos. Juros altos não produzem chuva nem recuperam uma colheita.
Isso não autoriza ignorar a inflação nem defender cortes em qualquer circunstância. A perda do poder de compra atinge primeiro o trabalhador. A resposta precisa combinar política monetária responsável com ações públicas sobre produção, estoques, crédito e logística.
Reduzir juros quando os dados permitirem e investir na oferta de comida são medidas complementares. Não se trata de escolher entre preço estável e desenvolvimento. O Brasil precisa dos dois, e o campo participa dessa solução quando encontra condições para produzir.
Há também uma disputa sobre o destino dos recursos públicos. Centrais sindicais criticaram a manutenção e apontaram o peso dos juros sobre a dívida do Estado. Menos espaço no Orçamento significa mais dificuldade para financiar saúde, educação e infraestrutura nas cidades do interior.
A Confederação Nacional da Indústria pediu retomada dos cortes em dezembro. O argumento produtivo merece ser ouvido sem transformar o Banco Central em adversário institucional. A cobrança correta é por decisões técnicas, transparentes e coerentes com a atividade que já desacelera.
O governo também tem responsabilidade. Bancos públicos e política agrícola podem reduzir o custo para quem investe em armazenagem, agroindústria local e produção de alimentos. Isso exige orçamento, regras estáveis e avaliação de quem realmente recebe o apoio.
Não basta anunciar crédito enquanto o pequeno produtor esbarra em garantias e o médio adia a modernização. O desenho da política deve medir investimento concluído, emprego gerado e comida produzida. Esses resultados importam mais para o interior do que a disputa retórica entre Brasília e o mercado.
O que diz o Banco Central: O comunicado do Copom afirma que incertezas maiores, expectativas de inflação elevadas e desaceleração da atividade formam um cenário desafiador. O comitê defende “serenidade e cautela” e não antecipou a trajetória dos próximos juros.
O próximo movimento deve depender dos dados, não de pressão do mercado ou do governo. Mas a política econômica precisa enxergar a conta inteira. Prolongar juros altos sem reforçar a oferta de alimentos cobra da produção e dos serviços públicos um preço que o interior conhece bem.
Como fizemos: Usamos o comunicado do Copom, os dados do Plano Safra e as reações publicadas pela Agência Brasil, consultados em 5/11/2026. Calculamos as participações de custeio e investimento dividindo cada valor pelo total de R$ 525,1 bilhões. A análise não pressupõe que todas as operações rurais acompanhem a Selic.
Fontes
- Comunicado 46.230 do Copom — Banco Central (acesso em 05/11/2026)
- BC surpreende e mantém juros básicos em 13,75% ao ano — Agência Brasil (acesso em 05/11/2026)
- Crédito rural empresarial 2026/27 — Ministério da Agricultura (acesso em 05/11/2026)
- Setor produtivo critica manutenção da Selic — Agência Brasil (acesso em 05/11/2026)
- Colheita de soja em Rondonópolis — Wikimedia Commons (CC BY 3.0 BR) (acesso em 05/11/2026)



