Clima e tempo

Café 2027/28 tem bom pegamento, mas calor mantém alerta

Cepea registra boa florada e frutos em formação nas principais regiões; calor, excesso de chuva e seca em Rondônia impedem projeção segura antes de dezembro.

Fileiras de cafeeiros cobertos por flores brancas em propriedade de Minas Gerais
Cafezal arábica em flor próximo a Matipó, Minas Gerais, em novembro de 2004; imagem de arquivo.Foto: Fernando Rebêlo / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

A safra brasileira de café 2027/28 começa com boa florada e formação de frutos na maioria das regiões avaliadas pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea). O levantamento foi divulgado nesta quinta-feira (5). O calor intenso e o El Niño, porém, mantêm o risco de perda dos frutos iniciais.

O ciclo está em fase inicial e terá bienalidade negativa. Esse é o ano em que o cafeeiro tende a produzir menos após uma safra de volume elevado. A combinação faz o produtor olhar para o pegamento, etapa em que a flor se transforma em fruto, antes de estimar a colheita.

Arábica avança bem, com diferenças regionais

Na Mogiana, no noroeste do Paraná e em boa parte do Sul de Minas, colaboradores do Cepea relatam pegamento satisfatório. Os frutos pequenos já aparecem nos cafezais. No Paraná, chuvas acima da média depois de um período seco favoreceram o processo, mas o excesso de umidade aumentou a preocupação com doenças em algumas áreas.

No Cerrado Mineiro, a principal florada foi considerada boa e as chuvas têm sido regulares. Em Garça, no interior paulista, a avaliação da florada também é positiva. Agentes do mercado esperam safra grande, mas não recorde, segundo o Cepea.

Bom início não elimina os riscos de cada região Situação da safra 2027/28 relatada ao Cepea até 5 de novembro

Região Situação atual Principal alerta
Mogiana, noroeste do Paraná e Sul de Minas Bom pegamento e frutos visíveis Doenças após chuva excessiva em áreas do Paraná
Cerrado Mineiro Boa florada principal e chuva regular Calor; confirmação do pegamento em dezembro
Garça (SP) Florada avaliada positivamente Calor associado ao El Niño
Espírito Santo, robusta Boa florada e frutos pelo estado Recuperação após queda produtiva em 2026
Rondônia, robusta Cenário menos favorável Quase um mês seco e ataque precoce da broca

Fonte: Cepea. Os relatos são preliminares e não equivalem a estimativa nacional de produção.

Calor pode derrubar frutos nos próximos meses

No Cerrado Mineiro, pancadas de chuva têm sido seguidas por sol forte e temperaturas elevadas. O resultado do pegamento só deverá ser confirmado por volta de dezembro. Em Garça, a preocupação é que o calor ligado ao El Niño provoque abortamento dos frutos nas próximas semanas.

Abortamento é a queda prematura de estruturas que dariam origem aos grãos. As chuvas registradas nas regiões produtoras têm ajudado a manter os frutos até agora. O quadro favorável depende da continuidade da umidade e da intensidade do calor.

Robusta tem recuperação desigual

No Espírito Santo, a florada do robusta foi satisfatória, com frutos em diferentes áreas do estado. Há potencial para uma boa safra em 2027. A comparação ocorre depois de a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estimar queda de 14,3% na produção capixaba de 2026, para 12,1 milhões de sacas.

Rondônia apresenta situação mais difícil. Os cafezais enfrentaram quase um mês de seca depois de duas floradas. A falta de água favoreceu ataques precoces da broca-do-café, inseto que perfura os frutos e compromete a produção.

No mercado, outubro foi de forte oscilação do arábica. Chuvas e embarques brasileiros pressionaram os preços em alguns momentos. El Niño, menor produção na Colômbia, estoques certificados baixos em Nova York e valorização do dólar sustentaram altas em outros. Mesmo com essa disputa, o preço interno terminou o mês praticamente estável.

Essa estabilidade mensal não significa ausência de risco para a renda. O preço formado hoje considera tanto a safra disponível quanto a expectativa para a próxima. Uma perda de pegamento pode alterar o cenário, enquanto chuvas favoráveis tendem a melhorar a oferta futura.

Para o produtor, o acompanhamento precisa separar lavoura e mercado. A boa florada não garante volume, assim como a alta pontual da cotação não confirma rentabilidade. Custos, sanidade e quantidade efetivamente colhida completam a avaliação.

O que diz o Cepea: O centro de pesquisa avalia que o desenvolvimento inicial é positivo na maioria das regiões, mas ainda não há segurança para fechar o potencial produtivo. Seus colaboradores apontam calor, El Niño, doenças e seca localizada como riscos específicos.

Dezembro será uma referência importante para confirmar o pegamento no Cerrado Mineiro e avaliar outras áreas. O bom começo reduz parte da incerteza, mas não antecipa a safra. Clima e sanidade nos próximos meses decidirão quanto da florada chegará à colheita.

Como fizemos: Comparamos os relatos regionais do boletim do Cepea publicado em 5/11/2026 e organizamos a tabela por situação e risco. Usamos a estimativa da Conab citada no próprio documento para o robusta capixaba de 2026. O levantamento é qualitativo e não oferece uma projeção nacional de sacas para 2027/28.

Fontes