Agronegócio

Terras raras: Flávio oferece parceria aos EUA sem dizer os limites

O candidato fala em alianças minerais de longo prazo com os EUA, enquanto uma mina brasileira já tem compra americana e produção destinada ao exterior.

Audiência do Senado sobre marco regulatório da mineração em terras raras, com a bandeira do Brasil ao fundo
Audiência pública do Senado sobre o marco regulatório da mineração em terras raras, em Brasília, em junho de 2013.Foto: José Cruz / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

O Brasil tem cerca de 21 milhões de toneladas de reservas de terras raras, segundo o Mining.com. Em maio, Flávio Bolsonaro disse que faria parcerias estratégicas de longo prazo com os Estados Unidos, com investimento protegido. No debate da Band, em 18 de outubro, Lula voltou a perguntar quais seriam os limites dessa oferta.

Terras raras são minerais estratégicos. O risco para o interior é transformar essa reserva em promessa de investimento sem regra pública para a cadeia que fica no Brasil.

A preocupação não é abstrata. Em abril, a empresa americana USA Rare Earth acertou a compra da Serra Verde, em Goiás, por US$ 2,8 bilhões. É a única mina comercial de terras raras do país. O projeto tem financiamento de US$ 565 milhões do governo americano, e toda a produção está destinada a um comprador apoiado pelos Estados Unidos, segundo a Reuters.

A proposta que mudou de formato

Data O que apareceu O que está documentado
28 de março Discurso na CPAC do Texas Flávio disse que o Brasil poderia tirar os EUA da dependência da China
26–27 de maio Reunião com Trump e Rubio Prometeu parcerias de longo prazo, com investimento protegido
12 de setembro “Prosperity Partnership” Deck de 22 páginas usou a marca da campanha; o autor diz que foi exercício pessoal
15 de outubro Resumo do plano Mais processamento no Brasil, capital estrangeiro e Estado como regulador

Fonte: Poder360, CNN Brasil, Estado de Minas e Brasil de Fato. Elaboração: redação.

O deck vazado propunha uma aliança mineral com os Estados Unidos e estimava entre US$ 50 bilhões e US$ 100 bilhões em investimentos. André Marinho, apontado como autor, disse que o documento era um exercício pessoal e nunca foi enviado. Não há registro, no dossiê, de tratado ou compromisso formal assinado por Flávio.

O plano resumido em outubro tenta responder a essa lacuna. Ele fala em ampliar o processamento no Brasil, transferir tecnologia, simplificar licenças e deixar o Estado como regulador, não como dono. Não informa quais empresas seriam parceiras, qual parcela da produção ficaria no país nem como comunidades e municípios receberiam a renda mineral.

O que o produtor do interior precisa saber

A mina Serra Verde fica em Goiás. Uma cadeia mineral maior pode criar empregos e fornecedores, mas também pode disputar infraestrutura com lavouras e pressionar serviços locais. Isso dependerá de metas de processamento e fiscalização.

A comparação com a política aprovada pelo governo Lula deixa a diferença mais clara. Em 16 de setembro, Lula sancionou a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. A lei prevê crédito tributário de R$ 1 bilhão por ano entre 2030 e 2034, fundo garantidor de até R$ 5 bilhões e um conselho capaz de revisar aquisições estrangeiras.

Isso não torna a política atual suficiente nem elimina a necessidade de capital privado. Mostra, porém, que a soberania pode ser medida por instrumentos: quem autoriza a compra, quem financia, quem processa e quem fica com o risco. Flávio oferece a parceria, mas não apresentou esses limites em um documento público detalhado.

O que diz Flávio Bolsonaro: Em maio, ele defendeu parcerias estratégicas de longo prazo com os Estados Unidos e investimento protegido. No debate de 18 de outubro, a campanha foi questionada sobre uma suposta cessão de minerais; o dossiê registra que os veículos consultados divergem sobre uma negativa direta. Não há tratado formal verificado.

A eleição não decide apenas quem abrirá novas minas. Decide se as reservas serão tratadas como ativo industrial brasileiro ou como argumento diplomático para atrair Washington. Para o interior, a diferença estará no processamento, nos empregos e na conta de água, energia e estrada que acompanhar cada projeto.

O debate terá de responder quem fiscalizará a Serra Verde e quais metas de processamento serão públicas. Sem esses limites, a parceria pode deixar o país com a extração e outro país com a tecnologia e o comprador.

Como fizemos: Reunimos os números e documentos do dossiê sobre reservas, Serra Verde, financiamento americano, plano de Flávio e lei brasileira de minerais críticos. A tabela organiza quatro marcos entre março e outubro de 2026. Os dados não permitem afirmar que Flávio tenha cedido terras raras nem que exista acordo formal com os Estados Unidos.

Fontes