Leite cai 5% ao produtor, e importação vale 45 vezes exportação
Preço médio recua para R$ 2,76 por litro em setembro; importações chegam a 249,6 milhões de litros equivalentes, enquanto custo operacional sobe 0,46%.

O preço médio do leite cru pago ao produtor caiu 5% em setembro e chegou a R$ 2,76 por litro na “Média Brasil”. O levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) aponta recuperação da oferta nacional e maior concorrência dos importados. No mesmo mês, o custo operacional da atividade subiu 0,46%.
A combinação aperta a margem de quem produz. O valor recebido pelo litro recuou, enquanto os concentrados usados na alimentação do rebanho ficaram 0,84% mais caros. O grupo de insumos foi influenciado pelas valorizações do milho, da soja e do farelo de soja.
Importações ampliam a oferta de derivados
As compras brasileiras de lácteos no exterior aumentaram 8,38% entre agosto e setembro. Chegaram a 249,6 milhões de litros em equivalente-leite, medida que reúne diferentes produtos em uma mesma base. As exportações também cresceram, mas somaram apenas 5,57 milhões de litros.
O volume importado foi quase 45 vezes o exportado. As vendas externas representaram cerca de 2,2% das compras. Como as importações avançaram mais que as exportações, o déficit comercial de lácteos cresceu 8,4% na comparação mensal.
Importações respondem por quase todo o comércio de lácteos Comércio brasileiro em setembro de 2026, em milhões de litros equivalente-leite
| Indicador | Volume | Variação frente a agosto |
|---|---|---|
| Importações | 249,60 | +8,38% |
| Exportações | 5,57 | +6,05% |
| Exportações como parcela das importações | 2,2% | Cálculo da redação |
Fonte: Cepea e Secretaria de Comércio Exterior. O equivalente-leite permite agregar derivados, mas não representa litros físicos de cada produto.
Leite em pó e queijos lideraram a pressão das importações, segundo o Cepea. A entrada desses produtos amplia a disponibilidade interna e intensifica a competição com o leite nacional. O efeito aparece tanto na matéria-prima quanto nos derivados vendidos no atacado.
Derivados caem no atacado paulista
O leite UHT teve queda de 4,76% em setembro frente a agosto. O leite em pó fracionado recuou 4,38%, e a muçarela, 2,77%. As pesquisas no estado de São Paulo são realizadas pelo Cepea com apoio da Organização das Cooperativas Brasileiras.
A queda dos derivados reduz o espaço para laticínios e cooperativas sustentarem o preço ao produtor. Ao mesmo tempo, a produção nacional entrou em recuperação sazonal, especialmente no Sudeste. O Índice de Captação de Leite (ICAP-L) subiu 2,16% na média nacional.
Apesar da queda mensal, o preço ao produtor ainda estava 8,31% acima de setembro de 2025 em valores reais. O Cepea corrigiu os dados pela inflação oficial de setembro de 2026. Portanto, a comparação anual não elimina o aperto mais recente.
Os dois períodos respondem a perguntas diferentes. A taxa anual mostra que o valor ainda supera o de um ano antes. A queda mensal mede a mudança imediata enfrentada no caixa da propriedade. Para avaliar a situação atual, preço e custo precisam ser lidos juntos.
Clima pode mudar a trajetória da oferta
Para os próximos meses, a recuperação da produção e os derivados mais fracos devem manter a pressão sobre o valor pago ao produtor. O El Niño introduz uma incerteza adicional. Se o fenômeno restringir a oferta, a intensidade das quedas pode diminuir mais adiante.
Essa possibilidade não é uma previsão de recuperação dos preços. O comportamento dependerá da produção efetiva, do câmbio e da entrada de importados. Também exige acompanhar os custos, que já subiam antes de qualquer mudança climática.
O que diz o Cepea: O centro de pesquisa atribui a queda de setembro à maior disponibilidade interna e à concorrência dos importados. Para os próximos meses, projeta continuidade da pressão, com possível moderação caso o El Niño restrinja a oferta.
O produtor termina setembro com preço menor e custo maior, uma situação mais delicada que a comparação anual sugere. Os próximos boletins mostrarão se a oferta nacional continuará crescendo e se os derivados recuperarão espaço. A diferença entre importações e exportações segue como parte central dessa leitura.
Como fizemos: Comparamos preço, produção, custos e comércio exterior nos boletins do Cepea acessados em 5/11/2026. Dividimos 5,57 por 249,6 para calcular a participação das exportações e aproximamos a razão inversa para 45 vezes. Os dados mensais não medem lucro das propriedades nem o preço final ao consumidor.
Fontes
- Maior oferta e importações pressionam leite ao produtor — Cepea (acesso em 05/11/2026)
- Higher supply and imports pressure milk prices — Cepea (acesso em 05/11/2026)
- Ordenha mecânica em Ouro Preto — Wikimedia Commons (CC BY 3.0) (acesso em 05/11/2026)



