Até um cotado para a Fazenda de Flávio acha inviável cortar R$ 200 bi em um ano
Marcelo Kayath, nome citado para a equipe econômica, chamou de inviável o ajuste de R$ 200 bilhões em um ano que Flávio repetiu no debate da Band.

No debate da Band, no domingo (18), Flávio Bolsonaro (PL) prometeu liberar mais de R$ 200 bilhões no Orçamento. A promessa foi registrada pelo Metrópoles. O problema é que um dos nomes citados para comandar a economia num governo dele já disse que isso não cabe em um ano.
O economista Marcelo Kayath, apontado como possível ministro, chamou de inviável um ajuste de R$ 200 bilhões em um ano, segundo o Terra. Kayath aparece numa lista de nomes ventilados para a Fazenda, ao lado de Adolfo Sachsida, Roberto Campos Neto, Mansueto Almeida e Gustavo Montezano, segundo o NSC Total. Não é um crítico de fora. É um nome cotado para a própria equipe.
O prazo faz toda a diferença. Um ajuste dividido em vários anos pesa menos de uma vez. Prometer tudo no primeiro ano obriga a mexer no que é maior no Orçamento, e o maior gasto obrigatório do governo federal é a Previdência.
De onde viria tanto dinheiro
O número de R$ 200 bilhões não nasceu no debate. Em 7 e 8 de outubro, a Folha revelou que a equipe econômica de Flávio estudava cortes obrigatórios de cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB). O PIB é a soma de tudo o que o país produz em um ano. Os 2% equivalem a cerca de R$ 250 bilhões, segundo o relato reproduzido pela IstoÉ Dinheiro.
A lista estudada, segundo a Folha, tinha alvos claros. Aposentadorias do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) passariam a ser corrigidos só pela inflação. Os pisos de saúde e educação também. Tudo seria aprovado numa “Super PEC” antes da posse.
PEC é a proposta de emenda à Constituição.
A campanha disse que essa não é sua posição oficial. O plano registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) fala em “tesouraço” e no corte de pelo menos dez ministérios. Mas não traz valor em reais, segundo a Forbes.
A conta que não fecha
Se não vier das aposentadorias, o dinheiro teria de vir de outro lugar. A BBC fez a conta, em reportagem reproduzida pelo O Povo. Corrigir o salário mínimo só pela inflação economizaria cerca de R$ 15 bilhões a R$ 16 bilhões no primeiro ano. Isso é cerca de 6% da meta de R$ 250 bilhões.
O resto teria de sair das aposentadorias, segundo a mesma análise. E cerca de 70% dos beneficiários do INSS ganham um salário mínimo. Ou seja, o corte grande passa, de um jeito ou de outro, pelo bolso de quem recebe o piso.
No debate, Flávio deu outra explicação. Disse que o “tesouraço” seria um corte na corrupção do governo Lula, segundo o Poder360. A frase é boa de palanque.
Mas nenhum documento da campanha mostra quanto dos R$ 200 bilhões viria daí. Combater desvio é dever de qualquer governo, só que corrupção não tem linha própria no Orçamento para ser cortada com valor marcado.
Por que isso pesa no interior
Nas cidades pequenas, a aposentadoria e o BPC são renda certa de muitas famílias, e esse dinheiro circula no comércio local. Um ajuste que mire esses benefícios chega ao comércio do interior em poucos meses. O produtor que vende na cidade também sente.
Por isso, a pergunta sobre o corte não é técnica. É uma pergunta sobre quem paga. E a resposta mais franca dada até aqui veio de um nome cotado para a equipe, não do candidato: em um ano, não dá.
O que diz Flávio Bolsonaro: O candidato nega que vá cortar aposentadorias e promete reajuste acima da inflação, segundo o Poder360. No debate da Band, disse que o “tesouraço” será um corte na corrupção do governo Lula, segundo o Poder360. A campanha afirma que o estudo revelado pela Folha não é sua posição oficial.
O segundo turno é no domingo (25). Flávio promete R$ 200 bilhões, nega cortar aposentadorias e não mostra a fonte. Um nome cotado para a sua própria equipe diz que o número não cabe em um ano. Quando até os aliados duvidam da conta, o eleitor tem motivo de sobra para duvidar também.
Fontes
- Se eleito, Flávio diz que a taxa de juros vai cair de forma muito rápida — Metrópoles
- Lula critica tesouraço e questiona onde Flávio Bolsonaro fará corte de R$ 250 bilhões — Terra
- Flávio Bolsonaro: os nomes cotados para os ministérios — NSC Total
- Equipe de Flávio estuda corte de 2% do PIB em despesas, diz Folha — IstoÉ Dinheiro
- Tesouraço: o plano econômico de Flávio Bolsonaro — Forbes
- O que Flávio Bolsonaro e Lula propõem sobre reajuste do salário mínimo e aposentadorias — BBC via O Povo
- Flávio fala em tesouraço na corrupção do governo Lula — Poder360
- Flávio nega corte em aposentadoria e cita reajuste acima da inflação — Poder360



