Política agrícola

Até um cotado para a Fazenda de Flávio acha inviável cortar R$ 200 bi em um ano

Marcelo Kayath, nome citado para a equipe econômica, chamou de inviável o ajuste de R$ 200 bilhões em um ano que Flávio repetiu no debate da Band.

Fachada do prédio do Ministério da Fazenda na Esplanada dos Ministérios, com o letreiro do ministério
O prédio do Ministério da Fazenda, no Bloco P da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, em janeiro de 2023.Foto: Pedro França / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

No debate da Band, no domingo (18), Flávio Bolsonaro (PL) prometeu liberar mais de R$ 200 bilhões no Orçamento. A promessa foi registrada pelo Metrópoles. O problema é que um dos nomes citados para comandar a economia num governo dele já disse que isso não cabe em um ano.

O economista Marcelo Kayath, apontado como possível ministro, chamou de inviável um ajuste de R$ 200 bilhões em um ano, segundo o Terra. Kayath aparece numa lista de nomes ventilados para a Fazenda, ao lado de Adolfo Sachsida, Roberto Campos Neto, Mansueto Almeida e Gustavo Montezano, segundo o NSC Total. Não é um crítico de fora. É um nome cotado para a própria equipe.

O prazo faz toda a diferença. Um ajuste dividido em vários anos pesa menos de uma vez. Prometer tudo no primeiro ano obriga a mexer no que é maior no Orçamento, e o maior gasto obrigatório do governo federal é a Previdência.

De onde viria tanto dinheiro

O número de R$ 200 bilhões não nasceu no debate. Em 7 e 8 de outubro, a Folha revelou que a equipe econômica de Flávio estudava cortes obrigatórios de cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB). O PIB é a soma de tudo o que o país produz em um ano. Os 2% equivalem a cerca de R$ 250 bilhões, segundo o relato reproduzido pela IstoÉ Dinheiro.

A lista estudada, segundo a Folha, tinha alvos claros. Aposentadorias do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) passariam a ser corrigidos só pela inflação. Os pisos de saúde e educação também. Tudo seria aprovado numa “Super PEC” antes da posse.

PEC é a proposta de emenda à Constituição.

A campanha disse que essa não é sua posição oficial. O plano registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) fala em “tesouraço” e no corte de pelo menos dez ministérios. Mas não traz valor em reais, segundo a Forbes.

A conta que não fecha

Se não vier das aposentadorias, o dinheiro teria de vir de outro lugar. A BBC fez a conta, em reportagem reproduzida pelo O Povo. Corrigir o salário mínimo só pela inflação economizaria cerca de R$ 15 bilhões a R$ 16 bilhões no primeiro ano. Isso é cerca de 6% da meta de R$ 250 bilhões.

O resto teria de sair das aposentadorias, segundo a mesma análise. E cerca de 70% dos beneficiários do INSS ganham um salário mínimo. Ou seja, o corte grande passa, de um jeito ou de outro, pelo bolso de quem recebe o piso.

No debate, Flávio deu outra explicação. Disse que o “tesouraço” seria um corte na corrupção do governo Lula, segundo o Poder360. A frase é boa de palanque.

Mas nenhum documento da campanha mostra quanto dos R$ 200 bilhões viria daí. Combater desvio é dever de qualquer governo, só que corrupção não tem linha própria no Orçamento para ser cortada com valor marcado.

Por que isso pesa no interior

Nas cidades pequenas, a aposentadoria e o BPC são renda certa de muitas famílias, e esse dinheiro circula no comércio local. Um ajuste que mire esses benefícios chega ao comércio do interior em poucos meses. O produtor que vende na cidade também sente.

Por isso, a pergunta sobre o corte não é técnica. É uma pergunta sobre quem paga. E a resposta mais franca dada até aqui veio de um nome cotado para a equipe, não do candidato: em um ano, não dá.

O que diz Flávio Bolsonaro: O candidato nega que vá cortar aposentadorias e promete reajuste acima da inflação, segundo o Poder360. No debate da Band, disse que o “tesouraço” será um corte na corrupção do governo Lula, segundo o Poder360. A campanha afirma que o estudo revelado pela Folha não é sua posição oficial.

O segundo turno é no domingo (25). Flávio promete R$ 200 bilhões, nega cortar aposentadorias e não mostra a fonte. Um nome cotado para a sua própria equipe diz que o número não cabe em um ano. Quando até os aliados duvidam da conta, o eleitor tem motivo de sobra para duvidar também.

Fontes