Interior

Flávio jura reajuste acima da inflação. A equipe dele estudou o contrário

Flávio promete ganho real a aposentados; a Folha revelou que a equipe dele estudou corrigir benefícios só pela inflação num corte de R$ 250 bilhões.

O senador Flávio Bolsonaro concede entrevista diante de um microfone da TV Senado
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) concede entrevista no Senado Federal, em Brasília, em junho de 2025.Foto: Carlos Moura / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 4.0)

Em 8 de outubro, Flávio Bolsonaro (PL) prometeu reajuste acima da inflação para os aposentados. Na mesma fala, chamou de notícia falsa do PT a história de que limitaria esses reajustes, segundo o Poder360. Na sexta-feira (16), repetiu a promessa à TV Globo. Disse que manterá o ganho real do salário mínimo e não vai desvincular os benefícios, segundo a InfoMoney.

A promessa veio depois de uma reportagem. Em 7 e 8 de outubro, a Folha de S.Paulo revelou que a equipe econômica do candidato estudou o oposto. As aposentadorias do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) passariam a ser corrigidos só pela inflação. A ideia fazia parte de um corte de cerca de R$ 250 bilhões.

A promessa e o estudo

A campanha respondeu que o estudo não é sua posição oficial. É uma resposta possível. Mas deixa uma pergunta no ar: se a equipe que vai governar estudou cortar o ganho real, o que impede a ideia de voltar depois da eleição?

A promessa de Flávio foi feita em entrevista e em palanque. O estudo da equipe, segundo a Folha, previa até o instrumento: uma “Super PEC” aprovada antes da posse. PEC é a Proposta de Emenda à Constituição.

De um lado, há uma frase. Do outro, um desenho de votação.

O plano de governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não resolve a dúvida. Segundo a Forbes, ele promete um “tesouraço” nos gastos e o corte de pelo menos dez ministérios. Mas não traz valor em reais nem diz de onde sairia o dinheiro.

A conta que contradiz a promessa

A BBC fez a conta, em reportagem reproduzida pelo O Povo na segunda-feira (19). Corrigir o salário mínimo só pela inflação economizaria cerca de R$ 15 bilhões a R$ 16 bilhões no primeiro ano. Isso é cerca de 6% dos R$ 250 bilhões. O resto teria de vir das aposentadorias, já que cerca de 70% dos beneficiários do INSS ganham o mínimo.

Ou seja: a promessa de manter o ganho real e a meta de corte estudada pela equipe não cabem juntas. Uma das duas teria de ceder. A campanha ainda não explicou qual.

Para chegar perto da meta sem tocar no aposentado, seria preciso achar mais de R$ 230 bilhões em outros gastos. A campanha não apresentou essa lista.

Quem garante

A regra que garante hoje o ganho real do mínimo é uma lei de 2023. O Senado a aprovou em agosto daquele ano, em votação simbólica, sem registro individual do voto de cada senador, segundo o Jornal do Comércio. Não há, portanto, registro de como Flávio votou nela.

E uma lei comum pode ser mudada por outra lei comum, com maioria simples no Congresso. Quem garante o ganho real, na prática, é quem governa e quem forma maioria. Uma promessa de entrevista não tem esse poder; um projeto enviado pelo Planalto tem.

O histórico recente do candidato também pesa na hora de confiar. Sobre o fim da escala 6x1, ele se opôs à proposta em 6 de outubro, segundo o Intercept Brasil. No dia 14, votou a favor dela no Senado, onde a proposta passou por 75 a 1, segundo a Exame.

A mudança favoreceu o trabalhador, e é justo registrar o voto. Mas mostra que a posição dele pode virar em uma semana.

O que diz Flávio Bolsonaro: O candidato afirma que dará reajuste acima da inflação aos aposentados e manterá o ganho real do salário mínimo, segundo o Poder360 e a InfoMoney. A campanha diz que o estudo revelado pela Folha não é sua posição oficial e chama a história de notícia falsa do PT.

No interior, o reajuste do mínimo decide o orçamento de muitas casas sustentadas por aposentadoria. Ali, a diferença entre corrigir pela inflação e dar ganho real aparece na feira, na farmácia e na conta de luz. Por isso, a promessa precisa vir acompanhada da conta.

O segundo turno é no domingo (25). Flávio jura que o ganho real fica. Sua equipe estudou tirá-lo, e a conta do corte só fecha se tirar. Entre a promessa e a planilha, o aposentado tem o direito de perguntar qual delas vale depois da posse.

Fontes