Interior

70% dos beneficiários do INSS ganham o mínimo: quem perde sem reajuste real

Segundo a BBC, congelar o ganho real do mínimo renderia só 6% do corte de R$ 250 bilhões estudado pela equipe de Flávio; o resto recairia sobre aposentados.

Agricultor idoso cuida da roça ao lado de uma casa de taipa na zona rural do sertão
O agricultor Pedro Sena cuida da roça ao lado de casa, na comunidade Olho d'Água dos Barros, zona rural de Madalena, no sertão do Ceará, em março de 2014.Foto: Sergio Amaral / Ministério do Desenvolvimento Social / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

Cerca de 70% dos beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) recebem exatamente um salário mínimo. O dado está numa análise da BBC Brasil, reproduzida na segunda-feira (19) pelo jornal O Povo. É esse grupo que mais perderia se o reajuste real do mínimo acabasse para os benefícios.

A conta da BBC parte de uma ideia estudada pela equipe econômica de Flávio Bolsonaro (PL). Segundo a Folha de S.Paulo, em 7 e 8 de outubro, a equipe discutiu um corte de cerca de R$ 250 bilhões. Aposentadorias e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) passariam a ser corrigidos só pela inflação. A campanha diz que essa não é sua posição oficial.

A conta que não fecha sem o aposentado

O reajuste real é o aumento acima da inflação. Desde 2023, o salário mínimo sobe pela inflação mais o crescimento da economia de dois anos antes. Quem ganha o piso do INSS recebe esse ganho junto.

A BBC fez a pergunta óbvia: de onde viriam os R$ 250 bilhões? Corrigir o salário mínimo só pela inflação economizaria cerca de R$ 15 bilhões a R$ 16 bilhões no primeiro ano. Isso é cerca de 6% da meta. O resto, segundo a análise, teria de vir das aposentadorias.

Ou seja, não há como chegar perto do valor sem mexer no benefício de quem ganha o piso. E o piso é a renda de sete em cada dez beneficiários. O corte grande, se viesse, cairia sobre a base da pirâmide.

Quem são os sete em cada dez

O beneficiário que ganha o mínimo raramente é o servidor de salário alto ou o executivo aposentado. Esses recebem acima do piso, e seus benefícios já são corrigidos só pela inflação. Quem recebe o mínimo é, em geral, quem contribuiu sobre salários baixos ou trabalhou no campo.

No interior, esse retrato é familiar. É o aposentado rural, a viúva com pensão, o trabalhador que passou a vida na lavoura. Em muitas cidades pequenas, o benefício do INSS é a renda fixa da casa e o dinheiro que circula no comércio local.

Para essas famílias, perder o ganho real não aparece de uma vez. Aparece aos poucos, ano a ano. O benefício mantém o poder de compra do ano anterior, mas fica para trás em relação ao salário de quem trabalha. A diferença se acumula a cada reajuste.

O que Flávio promete

Diante da repercussão, o candidato negou. Em 8 de outubro, prometeu reajuste acima da inflação para os aposentados e chamou a história de notícia falsa do PT, segundo o Poder360. Em 16 de outubro, disse à TV Globo que manterá o ganho real do mínimo e não vai desvincular os benefícios, segundo a InfoMoney.

A promessa é clara. O problema é a conta. Se o ganho real fica, o corte de R$ 250 bilhões estudado pela equipe precisa sair de outro lugar. E a campanha não diz de onde.

Até dentro do campo de Flávio há dúvida sobre o tamanho do ajuste. Marcelo Kayath, citado como possível ministro, chamou de inviável um corte de R$ 200 bilhões em um ano, segundo o Terra. No debate da Band, Flávio prometeu liberar mais de R$ 200 bilhões, mas disse que o “tesouraço” atingiria a corrupção, segundo o Poder360.

Vale lembrar a origem da regra que ele promete manter. A política de ganho real do mínimo foi aprovada pelo Senado em agosto de 2023, em votação simbólica. Nesse tipo de votação, não há registro individual do voto de cada senador, segundo o Jornal do Comércio.

O que diz Flávio Bolsonaro: O candidato afirma que manterá o ganho real do salário mínimo e não vai desvincular os benefícios do INSS, segundo a InfoMoney. Ele chama a história da desindexação de notícia falsa do PT, e a campanha diz que o estudo revelado pela Folha não é sua posição oficial.

O segundo turno é no domingo (25). Sete em cada dez beneficiários do INSS ganham o mínimo. A equipe de Flávio estudou um corte que, pela conta da BBC, só fecha se passar por eles.

O candidato promete que não vai passar. O eleitor do interior tem cinco dias para pedir a ele a conta que fecha sem o aposentado.

Fontes