Interior

BPC sem ganho real: a proposta que a campanha diz não ser oficial

Equipe de Flávio estudou corrigir o BPC só pela inflação, segundo a Folha; o benefício de idosos e pessoas com deficiência pobres hoje vale um salário mínimo.

Idosos, entre eles uma pessoa em cadeira de rodas, participam de atividade em um centro de convivência
Idosos participam de atividade de terapia ocupacional na Casa do Idoso, centro público de assistência social em São José dos Campos (SP), em agosto de 2014.Foto: Sergio Amaral / Ministério do Desenvolvimento Social / Wikimedia Commons (CC BY-SA 2.0)

O Benefício de Prestação Continuada (BPC) paga um salário mínimo por mês a idosos a partir de 65 anos e a pessoas com deficiência de baixa renda. Em 7 e 8 de outubro, a Folha de S.Paulo revelou que a equipe econômica de Flávio Bolsonaro (PL) estudou mudar essa regra. O BPC passaria a ser corrigido só pela inflação, sem o ganho real do salário mínimo.

A ideia estava num pacote de cortes de cerca de 2% do Produto Interno Bruto (PIB), ou cerca de R$ 250 bilhões. O relato foi reproduzido pela IstoÉ Dinheiro e pelo Estado de Minas. A campanha respondeu que a proposta não é sua posição oficial.

Por que a mudança precisaria de uma PEC

O BPC não é aposentadoria. Quem recebe não precisa ter contribuído para o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). É um benefício de assistência social, para quem não tem como se sustentar nem ser sustentado pela família.

A Constituição garante a esse público um salário mínimo de benefício mensal. Por isso, separar o BPC do mínimo não se faz por lei comum. Exige uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC).

Segundo a Folha, a equipe pensava justamente nisso: aprovar o pacote numa “Super PEC” antes da posse. O texto incluiria também as aposentadorias do INSS e os pisos de saúde e educação. Seria uma mudança constitucional votada às pressas, na transição entre governos.

O que significa perder o ganho real

Desde 2023, o salário mínimo sobe pela inflação mais o crescimento da economia de dois anos antes. Esse aumento acima da inflação é o ganho real. Com ele, o benefício compra um pouco mais a cada ano.

Se o BPC fosse corrigido só pela inflação, o idoso manteria o poder de compra do ano anterior. Mas perderia o aumento que o trabalhador da ativa recebe. Com o tempo, o BPC deixaria de valer um salário mínimo e passaria a valer menos que ele.

No interior, o efeito seria sentido rápido. O beneficiário do BPC é, muitas vezes, o idoso que nunca teve carteira assinada. Foi o trabalhador da roça sem registro ou a mulher que cuidou da casa e da lavoura a vida inteira. É também a família que cuida de um filho com deficiência longe dos grandes centros.

O histórico e o que é falso

Há um episódio anterior que pesa na conta. Em março de 2020, o Congresso derrubou um veto de Jair Bolsonaro que barrava a ampliação do acesso ao BPC. O placar no Senado foi de 45 votos a 14, segundo a Agência Senado.

O ICL Notícias, veículo de esquerda, afirma que Flávio estava entre os 14 senadores que votaram para manter o veto. A Agência Senado confirma o placar, mas não o voto individual dele. O dado, portanto, deve ser lido com essa ressalva.

Também é preciso separar fato de boato. Posts dizendo que Flávio vai acabar com o BPC e com o 13º salário são falsos, segundo o TMC. Ninguém documentou proposta de extinguir o benefício. O que foi documentado é a ideia de tirar dele o ganho real.

A negativa e o que falta

Na sexta-feira (16), em entrevista à TV Globo, Flávio disse que manterá o ganho real do salário mínimo. Afirmou também que não vai desvincular os benefícios do mínimo, segundo a InfoMoney. É a promessa mais clara dele sobre o tema até agora.

O plano de governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não trata de mudanças no BPC nem nas aposentadorias. Também não traz valor em reais para o “tesouraço” de gastos, segundo a Forbes. E a equipe que estudou a medida continua a mesma.

O que diz a campanha: A campanha de Flávio Bolsonaro afirma que a correção do BPC só pela inflação não é sua posição oficial. Em 16 de outubro, o candidato disse que não vai desvincular os benefícios do salário mínimo e que manterá o ganho real, segundo a InfoMoney.

O segundo turno é no domingo (25). Para o idoso pobre do interior, o BPC é a renda da casa. A campanha diz que a proposta não é oficial. O eleitor tem o direito de perguntar por que ela foi estudada, e o que garante que não volte depois da eleição.

Fontes