Política agrícola

Flávio, em 2022: o pai autorizou estudar a privatização da Petrobras

Em 2025, ele defendeu privatizar as partes da estatal que "não funcionam"; o plano retoma privatizações "caso a caso" e ele chama tudo de "boataria".

O senador Flávio Bolsonaro em entrevista no Senado Federal
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) concede entrevista no Senado Federal, em Brasília, em 12 de maio de 2022, pouco mais de um mês após declarar que o pai autorizou estudar a privatização da Petrobras.Foto: Edilson Rodrigues / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em 5 de abril de 2022, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) declarou que o pai, o então presidente Jair Bolsonaro, havia autorizado estudar a privatização da Petrobras. A declaração foi dada ao UOL, em vídeo publicado no YouTube. Quatro anos e meio depois, na disputa de segundo turno da Presidência, ele chama o mesmo assunto de “boataria”.

A mudança de tom interessaria pouco ao eleitor da cidade grande. Para quem produz, é assunto de porteira. O diesel entra em cada conta de frete da safra. O preço do fertilizante também embute combustível e transporte.

E a Petrobras, a estatal de petróleo, é a empresa cuja política de preços o produtor sente no bolso. O produtor não escolhe essa política: herda o que a empresa — e o governo que a controla — decidirem.

Privatizar, em palavras simples, é passar o controle de uma empresa pública para donos privados. Estatal é a empresa controlada pelo governo. O candidato do PL já defendeu essa mudança abertamente — e a trajetória está documentada.

De defesa aberta a plano sem nomes

Em 22 de dezembro de 2025, ainda pré-candidato, Flávio deu entrevista à Reuters, recapitulada pela InfoMoney. Disse que a Petrobras é “um grande conglomerado de empresas”. Nela, segundo ele, é preciso ver “o que funciona e tem que continuar” e “o que não funciona e pode ser privatizado”.

Em fevereiro de 2026, o discurso mudou de novo. Em entrevista a um canal do YouTube, o candidato declarou: “Você não pode simplesmente vender uma empresa que tem um monopólio estratégico”. O registro é do portal eixos.

Em 13 de agosto, a campanha protocolou o plano de governo no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O documento não cita a Petrobras em nenhum momento, conforme o eixos e a Forbes.

O plano, porém, promete retomar o Programa Nacional de Desestatização, o programa que lista as estatais que podem ser vendidas. O critério do texto: “avaliando caso a caso onde a presença do Estado deixou de fazer sentido”. O plano também promete rever a Lei das Estatais, que define as regras de gestão das empresas públicas.

E libera o chamado fracking, técnica para extrair gás preso na rocha. O gás é matéria-prima de fertilizante, insumo que hoje pesa no custo de qualquer lavoura.

Quem pediu os estudos em 2022 agora nega

Em outubro, a campanha passou a negar tudo. No dia 8, o coordenador da área econômica, Adolfo Sachsida, garantiu em vídeo que Banco do Brasil, Caixa e Petrobras “não serão tocadas”, segundo a InfoMoney. A Forbes notou que ele não disse se a promessa vale para as demais estatais.

Sachsida conhece o tema de perto. Como ministro de Minas e Energia em 2022, pediu, em seu primeiro ato, o “início dos estudos” para a desestatização da Petrobras, recordou o portal eixos. Hoje ele assina o compromisso de não mexer na empresa.

No dia 9, o próprio Flávio descartou o assunto. “Isso é uma boataria, é uma boataria atrás da outra”, disse a jornalistas, segundo a InfoMoney. Ele acusou o presidente Lula de fazer uso eleitoral da estatal.

Na sexta-feira (16), o Aos Fatos checou a entrevista do candidato à TV Globo. O candidato disse que o PT fazia “terrorismo” ao afirmar que ele privatizaria Petrobras, Caixa e Banco do Brasil. Mas omitiu as declarações recentes suas e de membros do próprio comitê eleitoral, apontou a checagem.

O que diz Flávio Bolsonaro: Em 9 de outubro, o candidato chamou a história da privatização da Petrobras de “boataria” e disse que o presidente Lula usa a estatal eleitoralmente, segundo a InfoMoney. Para a campanha, os rumores integram uma onda de boatos contra a candidatura, feita para reverter a liderança do primeiro turno.

O segundo turno será no domingo (25). O eleitor do campo sabe o que está em jogo: o diesel entra em cada viagem do caminhão, e o frete sai do bolso de quem planta. A posição do candidato sobre a estatal mudou pelo menos três vezes em quatro anos.

O registro de 2022 a 2026 está documentado em vídeo, entrevista e plano de governo. Chamar o assunto de boataria não apaga o histórico — e o produtor paga a conta de qualquer surpresa depois da eleição.

Fontes