Opinião

Seguro rural obrigatório no papel ainda precisa de orçamento real

A Lei 15.526 tornou obrigatória a subvenção ao seguro rural, mas o limite é o que o governo propõe no orçamento. É aí que mora o teste de verdade.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Pau-Brasil.

Ilustração abstrata em tons de terra e dourado, com um guarda-chuva geométrico sobre faixas que lembram talhões de lavoura
Imagem provisória, a ser substituída antes do lançamento.Ilustração: Imagem provisória

Na terça-feira, 29 de setembro, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei 15.526, publicada no dia seguinte no Diário Oficial da União. A norma transforma em despesa obrigatória a ajuda federal para o produtor pagar o seguro rural. É uma conquista antiga do campo. Mas, a meu ver, ela só vai valer alguma coisa se vier acompanhada de dinheiro.

A ajuda se chama Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR) e existe desde 2003. Prêmio é o valor que o produtor paga à seguradora pela apólice. O governo cobre uma parte desse valor, e o seguro fica mais barato.

Pela nova lei, o gasto com o PSR não pode mais ser contingenciado, ou seja, bloqueado ao longo do ano. Há, porém, um teto: o valor previsto no projeto de orçamento que o governo envia ao Congresso. E a obrigatoriedade ainda depende de medidas de compensação fiscal.

O teste está no orçamento

Os números mostram por que esse teto importa. Em 2026, o PSR começou o ano com R$ 1,017 bilhão no orçamento, segundo o jornal O Hoje. Depois de cancelamentos e bloqueios, só R$ 473,8 milhões ficaram livres para uso. Menos da metade do que estava no papel.

Para 2027, o projeto de lei orçamentária prevê R$ 1,2 bilhão para o programa. Segundo o G1, reproduzido pelo portal CQCS, só cerca de R$ 318,5 milhões são recursos livres. O resto depende de nova autorização do Congresso. Um observatório da FGV estima em R$ 2,37 bilhões o necessário para voltar à proteção de 2021.

Ou seja: a lei garante que o governo gaste o que ele mesmo propôs. Se a proposta vier pequena, a garantia também será pequena. Por isso, a briga de verdade vai acontecer todo ano, na votação do orçamento.

Seguro protege o crédito

Seguro rural não é luxo de grande produtor. Quando a lavoura quebra, quem tem apólice recebe a indenização e paga o banco. Quem não tem atrasa as parcelas e entra na fila da renegociação.

A nova lei reconhece essa ligação. A apólice passa a valer como garantia do crédito rural, e o banco pode ser o primeiro a receber a indenização. O texto também reformula um fundo de cobertura suplementar, previsto desde 2010 e nunca implantado. Ele serve para perdas grandes demais para as seguradoras sozinhas.

O país conhece bem o ciclo das renegociações. Em julho, o governo editou a Medida Provisória 1.376 para refinanciar dívidas de quem perdeu safras. Em setembro, o Conselho Monetário Nacional (CMN) ampliou o programa. Cada rodada custa caro e chega depois do prejuízo. Seguro bem financiado agiria antes.

O que diz o governo: Lula vetou a extensão da isenção a todos os tributos federais sobre o seguro rural, por recomendação da Advocacia-Geral da União e dos ministérios da Fazenda e do Planejamento. Segundo as razões do veto, citadas pelo site NovaCana, a medida “contraria o interesse público e é inconstitucional”, por criar renúncia de receita sem estimativa de impacto nem compensação.

O argumento fiscal é legítimo. Benefício sem fonte de receita vira conta para todos. Mas a mesma lógica vale para o outro lado: cada crise sem seguro também custa caro ao Tesouro. O veto ainda pode ser derrubado pelo Congresso. O que decide o futuro do seguro, porém, é o orçamento de 2027, que deputados e senadores votam nos próximos meses. Ali se verá se a obrigatoriedade é um compromisso ou só uma boa intenção.

Fontes