Defesa agropecuária é patrimônio de todos e precisa de investimento
O status de livre de aftosa sem vacinação abre mercados, e um único foco pode fechá-los. Fiscais, fronteiras e órgãos estaduais precisam de recursos.
Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Pau-Brasil.

Em 29 de maio de 2025, em Paris, a Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) reconheceu o Brasil como livre de febre aftosa sem vacinação. Foi o resultado de anos de trabalho de produtores, veterinários e governos. Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), o status abre mercados que pagam mais, como Japão e Coreia do Sul.
A febre aftosa é uma doença viral que atinge bois, porcos e outros animais de casco fendido. Ela não é um risco para a saúde humana, mas derruba a produção e fecha mercados. Por isso, poucos títulos valem tanto para a pecuária quanto esse reconhecimento.
Um foco basta
O mesmo ano de 2025 mostrou o outro lado da moeda. Em maio, o país registrou o primeiro foco de gripe aviária de alta patogenicidade numa granja comercial, em Montenegro (RS). A China, maior compradora do frango brasileiro, suspendeu as compras no mesmo mês.
O Brasil eliminou as aves, desinfetou a granja e se declarou livre da doença em 18 de junho, segundo a Agência Brasil. Mesmo assim, a China só retirou a proibição em 7 de novembro. Foram quase seis meses sem vender ao principal cliente. Em 2024, os chineses tinham comprado 562,2 mil toneladas de frango brasileiro, segundo a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).
A lição é simples. A resposta rápida evitou um estrago maior, mas o preço de um único foco foi alto. Sem a vigilância funcionando, ele poderia ter sido muito maior.
Quem cuida da porteira do país
A defesa agropecuária é feita por gente. Os auditores fiscais federais agropecuários inspecionam frigoríficos, portos, aeroportos e fronteiras. Os órgãos estaduais vacinam, vigiam o trânsito de animais e atendem suspeitas nas fazendas.
Esse time está curto. Em maio de 2025, o governo convocou 250 novos auditores aprovados em concurso. Na ocasião, o presidente do Anffa Sindical, Janus Pablo Macedo, chamou a medida de “importante, mas insuficiente”. Ele citou um déficit de 1.350 auditores, segundo a revista Cultivar.
A fronteira é outro ponto sensível. A Lei 14.515, de 2022, criou o Vigifronteiras, programa de vigilância agropecuária na faixa de fronteira. Seu objetivo é impedir a entrada de pragas e doenças que possam causar danos à produção. Um programa no papel, sem gente e sem equipamento, não protege ninguém.
Manter o status também exige trabalho contínuo. Segundo a CNA, o país prepara um banco de vacinas para emergências e a identificação individual de bovinos e búfalos.
O que diz quem pensa diferente: O orçamento federal é apertado, e cada nova vaga de auditor é despesa permanente. Os defensores da Lei 14.515 apostam no autocontrole, que obriga as empresas a manter programas próprios de controle da produção. Segundo o portal Brasil 61, eles argumentam que o número de fiscais não acompanhou o crescimento da agroindústria, e a fiscalização segue exclusiva do ministério.
O autocontrole pode ajudar, mas não substitui o Estado na fronteira, no laboratório e na resposta a um foco. Defesa agropecuária não é custo do agro, é seguro para todo o país, porque protege empregos, exportações e a comida na mesa. O próximo orçamento federal será o teste de quanto o país valoriza esse patrimônio.
Fontes
- Aftosa – Perguntas e respostas sobre o novo status sanitário do Brasil — CNA
- Brasil se declara país livre da gripe aviária — Agência Brasil
- China suspende proibição de compra de carne de frango do Brasil — Agência Brasil
- Após convocação de 250 fiscais, Anffa defende mais contratações — Revista Cultivar
- Lei nº 14.515, de 29 de dezembro de 2022 — Planalto
- Prazo para contribuir com regulamentação do autocontrole agropecuário termina nesta terça (16) — Brasil 61


