Opinião

Cota da China mostra que a carne brasileira precisa de mais mercados

Com a cota chinesa esgotada, a exportação de carne bovina caiu 35,1% em setembro. Depender de um só comprador é um risco que o país não pode repetir.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Pau-Brasil.

Ilustração abstrata em tons de vermelho-brasa e dourado, com setas que partem de um ponto central em várias direções
Imagem provisória, a ser substituída antes do lançamento.Ilustração: Imagem provisória

Na quarta-feira (7), a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) divulgou um número que deveria servir de alerta. Em setembro, o Brasil exportou 229,3 mil toneladas de carne bovina, 35,1% a menos que um ano antes. As vendas para a China caíram 93,2%.

A causa é conhecida. Desde janeiro, a China aplica uma salvaguarda, medida de defesa comercial que limita as compras para proteger os criadores locais. O Brasil podia vender até 1,106 milhão de toneladas em 2026 com a tarifa normal de 12%.

A cota acabou no fim de setembro. Agora, cada quilo extra paga mais 55%, e a tarifa total chega a 67%.

O risco de um cliente só

Nenhum comerciante sensato deixa mais de um terço das vendas nas mãos de um único cliente. Foi o que aconteceu com a carne bovina. De janeiro a setembro, a China levou 37,5% de todo o volume exportado, segundo a Abiec.

Quando esse cliente fecha a porta, o efeito tende a chegar à fazenda. Frigorífico que vende menos costuma comprar menos boi, e o pecuarista pode sentir no preço da arroba. A cota de 2027 será de 1,128 milhão de toneladas, só 22 mil a mais. Segundo o site Economic News Brasil, a Abiec teme que ela acabe já em março.

Os mercados que responderam

Setembro também mostrou que há espaço. Os Estados Unidos compraram 48,3 mil toneladas, quase cinco vezes o volume de um ano antes. O Chile levou 87,2% a mais, e a União Europeia, 29,7% a mais, segundo os dados da Abiec publicados pelo Brasilagro.

Esses números não fecham o buraco, mas mostram o caminho. Abrir mercado leva anos de negociação técnica, auditorias e acordos sanitários. Por isso, o trabalho precisa ser permanente, e não só quando a crise aparece.

A sanidade como argumento de venda

O país tem um trunfo pouco explorado. Em maio de 2025, a Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA) reconheceu o Brasil como livre de febre aftosa sem vacinação. Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), esse status abre portas em países exigentes, como Japão e Coreia do Sul. São mercados que costumam pagar mais.

O governo já mira esse caminho. Em fevereiro, o secretário de Comércio e Relações Internacionais do Ministério da Agricultura, Luis Rua, disse esperar “terminar 2026 com a abertura do mercado japonês”. A meta é boa. Ela precisa vir acompanhada de diplomacia comercial ativa, adidos agrícolas nos mercados certos e promoção da carne brasileira como produto seguro.

O que diz quem pensa diferente: A própria Abiec lembra que a China continua sendo, de longe, a maior compradora. Em nota citada pelo Brasilagro, a entidade disse que há “alguns alentos em outros mercados”, mas que eles “ainda não são capazes de substituir automaticamente a demanda chinesa”. O governo brasileiro tenta negociar com Pequim uma ampliação do limite, segundo o Economic News Brasil.

Negociar com a China é necessário, e ninguém propõe abrir mão desse mercado. Mas a cota vai se repetir nos próximos anos, e a pecuária não pode viver de esperar a virada do calendário chinês. Cada novo mercado aberto agora é um seguro contra a próxima porta que se fechar.

Fontes