Logística

Armazenagem: por que a capacidade de silos não acompanha a safra

Em 2023, a primeira safra de grãos superou em quase 12 milhões de toneladas a capacidade de armazenagem a granel do país, segundo a Conab.

Ilustração abstrata em tons de terra, vermelho-brasa e dourado, com formas cilíndricas que lembram silos lado a lado
Imagem provisória, a ser substituída antes do lançamento.Ilustração: Imagem provisória

O Brasil tinha capacidade para guardar 212,1 milhões de toneladas de produtos agrícolas em 2024. O número é do Anuário Agrologístico 2025, da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). Parece muito, mas a própria Conab diz que a capacidade não acompanha o crescimento da produção.

O dado usado é a capacidade estática, ou seja, quanto cabe nos armazéns ao mesmo tempo. Mato Grosso concentra 33% desse total. Em seguida vêm Rio Grande do Sul, com 19%, e Paraná, com 18%.

Onde está o aperto

A Conab comparou a capacidade a granel com a primeira safra de arroz, milho e soja. Essas culturas são colhidas em épocas parecidas e disputam o mesmo espaço. Em 2023, a produção superou a capacidade instalada em quase 12 milhões de toneladas.

Parte da diferença é coberta por silos-bolsa, grandes sacos plásticos deitados no chão da lavoura. O fluxo contínuo de entrada e saída de grãos também ajuda. Mesmo assim, a Conab vê sinal de alerta para gargalos nos próximos anos. O problema é maior nas novas fronteiras agrícolas, como o Matopiba e o Sealba.

Sem armazém, o produtor fica refém do calendário. Muitas vezes, precisa vender ou embarcar a produção logo depois da colheita, sem escolher o melhor momento.

O cadastro e a certificação

Todo armazém agrícola deve ser cadastrado, segundo a Lei 8.171/1991. Quem cuida do cadastro é a Conab, por meio do Sistema de Cadastro Nacional de Unidades Armazenadoras (Sicarm). O pedido é gratuito e feito pela internet. Após a análise, a Conab emite o Código do Armazém (CDA), e uma equipe visita a unidade para completar os dados.

A certificação é outra etapa. Ela atesta que a unidade cumpre requisitos técnicos e operacionais definidos pelo Ministério da Agricultura. Até junho de 2026, os armazéns que prestavam serviço de guarda a terceiros eram obrigados a aderir ao sistema público. Em junho, a Lei 15.429 tornou a adesão voluntária e abriu espaço para certificadoras privadas.

Crédito para construir

O Plano Safra tem uma linha própria para armazéns, o Programa para Construção e Ampliação de Armazéns (PCA). Ele é operado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), por meio de bancos credenciados. Produtores rurais e cooperativas podem financiar a construção, a ampliação e a reforma de armazéns.

Na safra 2026/27, segundo condições do BNDES divulgadas pelo Agrolink, os juros vão até 8% ao ano para armazéns de grãos de até 12 mil toneladas. Nos demais casos, a taxa vai até 9,5%. O prazo chega a dez anos, com até dois de carência.

A vantagem de guardar na fazenda

A armazenagem dentro das propriedades cresceu 72,13% entre 2010 e 2025, segundo a Conab. A capacidade total do país cresceu 52,49% no mesmo período. Ainda assim, os armazéns nas fazendas somam só 16,8% da capacidade nacional.

Com silo próprio, o produtor escolhe a hora de vender e pode esperar preços melhores. Segundo a Conab, a prática também reduz as perdas depois da colheita.

O que diz a Conab: No anuário, a companhia afirma que a capacidade de armazenagem é “insuficiente frente ao crescimento da produção agrícola nacional”. A Conab recomenda foco em investimentos em unidades armazenadoras no Matopiba e no Sealba.

A soja da safra 2026/27 já começa a ser plantada e será colhida a partir do início de 2027. Quem pensa em construir precisa olhar o calendário do PCA e o prazo de obra. Cada nova safra recorde aumenta a pressão sobre um sistema que cresce mais devagar que as lavouras.

Fontes