Comprar dívidas das famílias: a proposta de Flávio e as perguntas sem resposta
No debate da Band, Flávio propôs comprar dos bancos dívidas de pessoas e empresas; não disse quanto custa, quem paga nem quais dívidas entram na conta.

No debate da Band, no domingo (18), Flávio Bolsonaro (PL) apresentou uma proposta de forte apelo. Se eleito, o governo compraria junto aos bancos as dívidas de pessoas e de empresas. O registro é do Metrópoles e do portal ND+. No mesmo debate, ele prometeu liberar mais de R$ 200 bilhões no Orçamento e disse que os juros cairiam “de uma forma muito rápida”.
Para quem está endividado, a frase soa como socorro. No campo, onde o custeio, a máquina e o insumo muitas vezes viram parcela, a promessa tem eco. Mas uma proposta desse tamanho precisa de respostas simples. Até agora, nenhuma delas apareceu.
As perguntas que ficaram no ar
A primeira pergunta é quanto custa. Comprar dívidas de bancos significa usar dinheiro público para pagar credores privados. Nos relatos do debate, a proposta aparece sem valor e sem ordem de grandeza. O plano de governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não traz número para o seu “tesouraço” de gastos, segundo a Forbes.
A segunda é quem paga. O próprio Flávio citou, no mesmo debate, a dívida bruta do país: R$ 11,1 trilhões, ou 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB). A Agência Lupa checou o dado e o classificou como verdadeiro. Um candidato que aponta a dívida pública como problema propõe, na mesma noite, um gasto novo sem preço.
A terceira é quais dívidas entram. Cartão, cheque especial, financiamento de máquina ou crédito rural? De pessoas, de pequenas firmas ou também de grandes empresas, com desconto ou pelo valor cheio? Nada disso foi detalhado.
A quarta é a conta dos bancos. Se o governo compra a dívida, o banco recebe o dinheiro e o risco passa para o Estado. É uma operação que pode aliviar o devedor, mas também premiar quem emprestou mal. Sem regra clara, ninguém sabe quem ganha mais.
O corte que deveria pagar tudo
A campanha diz que o dinheiro virá do corte de gastos. Só que a conta já está cheia de promessas.
Flávio garante reajuste acima da inflação para aposentados, segundo o Poder360. Diz também que vai manter e ampliar o Bolsa Família, segundo O Tempo. Agora soma a compra de dívidas. Cada nova promessa disputa o mesmo dinheiro, que ainda não foi encontrado.
E o corte prometido é questionado dentro do próprio campo dele. Marcelo Kayath, citado como possível ministro, chamou de inviável um ajuste de R$ 200 bilhões em um ano, segundo o Terra.
E há a pergunta sobre de onde sairia o corte. Segundo a Folha, em relato reproduzido pela IstoÉ Dinheiro, a equipe econômica de Flávio estudou cortes de cerca de R$ 250 bilhões. A lista incluía corrigir aposentadorias do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e o Benefício de Prestação Continuada (BPC) só pela inflação. A campanha diz que essa não é sua posição oficial.
Se não é, falta dizer qual é. Sem essa resposta, o eleitor não sabe se a dívida do vizinho seria paga com o reajuste do aposentado.
Quando a receita do ajuste é vaga, a lista de gastos fica sem lastro. É como prometer pagar a parcela de todos os vizinhos com um dinheiro que ainda não entrou na conta.
Por que isso importa no interior
O produtor conhece bem a matemática da dívida. Sabe que renegociação boa tem prazo, taxa e regra escrita. Sabe também que promessa sem regra escrita não vira contrato.
Uma proposta séria diria quanto, para quem e com que dinheiro. Diria também o que acontece com o crédito depois: se os bancos voltariam a emprestar mais barato ou mais caro. A proposta de Flávio, por enquanto, é uma frase de debate.
O que diz Flávio Bolsonaro: No debate da Band, o candidato atribuiu os juros altos aos gastos do governo. Prometeu liberar mais de R$ 200 bilhões no Orçamento e comprar dívidas de pessoas e empresas junto aos bancos, segundo o Metrópoles e o ND+.
O segundo turno é no domingo (25). Faltam seis dias para o candidato transformar a frase em proposta. O eleitor endividado tem direito de saber se está diante de um plano ou de um slogan. E o contribuinte, que pagaria a conta, também.
Fontes
- Se eleito, Flávio diz que a taxa de juros vai cair de forma muito rápida — Metrópoles
- Economia no debate: Lula e Flávio Bolsonaro falam de dívida e juros — ND+
- Ao vivo: checagem do debate entre Lula e Flávio Bolsonaro na Band — Lupa
- Tesouraço: o plano econômico de Flávio Bolsonaro — Forbes
- Lula critica tesouraço e questiona onde Flávio Bolsonaro fará corte de R$ 250 bilhões — Terra
- Flávio Bolsonaro rebate Lula, nega fim do Bolsa Família e promete ampliar benefícios — O Tempo
- Flávio nega corte em aposentadoria e cita reajuste acima da inflação — Poder360
- Equipe de Flávio estuda corte de 2% do PIB em despesas, diz Folha — IstoÉ Dinheiro



