Opinião

O agro pagou o tarifaço que Flávio agradeceu

Em julho de 2025, Flávio Bolsonaro agradeceu a Trump, no X, o tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros; depois disse que se arrependeu e apagou o post.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Pau-Brasil.

Caminhões transitam na BR-163, em Rondonópolis (MT); na época da colheita, eles levam os produtos agrícolas até outras regiões e portos
Caminhões na BR-163, em Rondonópolis (MT): na época da colheita, a rodovia leva os produtos agrícolas até os portos, em foto de 28 de março de 2009.Foto: Roosevelt Pinheiro / Agência Brasil / Wikimedia Commons (CC BY 3.0 BR)

No dia 9 de julho de 2025, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) agradeceu ao presidente americano, Donald Trump, por causa do tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros. A publicação saiu no X, a rede social. A informação é da CNN Brasil e da SBT News.

O post foi apagado depois. Em entrevista à CNN Brasil, o senador disse: “me arrependo da postagem”.

Este colunista é de direita. Sou dos que defendem a Lava Jato, a polícia e o agro. E escrevo sobre esta eleição de olho na porteira, porque é lá que a conta chega.

Tarifa é o imposto que um país cobra sobre os produtos de outro. Quando o imposto sobe de propósito, para punir, vira tarifaço. Quem sente o peso é quem produz, quem carrega e quem vende.

A conta chegou na porteira

O agro exportou US$ 169,2 bilhões em 2025, um recorde, segundo o Forbes Agro. Esse dinheiro paga o frete, o insumo e a safra seguinte. Ele sustenta o comércio das cidades do interior.

Para quem vive de exportar, tarifa não é abstração. É a diferença entre lucro e prejuízo na mesma saca.

Quem acompanha a estrada entende o caminho do prejuízo: caminhões descem cheios até os portos, a mercadoria embarca e a tarifa encarece o produto brasileiro lá fora. Encarecido, ele vende menos ou vende por menos. Quem corrige a conta é o produtor, o caminhoneiro e a cidade que vive da lavoura.

O próprio governo federal reconheceu o tamanho do problema. O Plano Brasil Soberano abriu R$ 30 bilhões em crédito para exportadores atingidos pelo tarifaço, segundo a Agência Brasil. Exportador atingido é produtor que viu o custo de vender lá fora subir.

O recuo e a ida a Washington

Em 2026, a cobrança voltou. Tarifas americanas de 25% sobre produtos brasileiros entraram em vigor em 15 de julho. Nos dias 6 e 7 do mês, Flávio foi aos Estados Unidos para pedir a suspensão da medida, segundo a Band. Ele culpou o presidente Lula pela briga comercial.

O pedido foi ao USTR, o escritório do governo americano que cuida do comércio exterior. É o mesmo país que ele havia agradecido um ano antes. Apagar o post não apagou o tarifaço.

O eleitor respondeu antes dos editorialistas. Segundo uma pesquisa Quaest citada pela Reuters, 42% dos eleitores ficaram mais propensos a votar em Lula por causa das tarifas; 27% ficaram mais propensos a Flávio. Na leitura da pesquisa, o tarifaço ajudou o adversário, não o agradecido.

A história tem um agravante na família. O Supremo Tribunal Federal (STF) condenou em 16 de junho de 2026 Eduardo Bolsonaro, irmão do candidato, a 4 anos e 2 meses de prisão, por coação. Segundo a Agência Brasil, ele buscou tarifas e sanções americanas para travar o julgamento do pai.

Líderes do agro ouvidos pelo jornal O Globo, sem se identificar, chamaram a viagem de Flávio de “contraproducente”. Na leitura deles, o senador colocou a ideologia acima do campo. A reportagem foi republicada pelo portal Imirante.

Patriota não agradece tarifa contra o Brasil. Patriotismo é defender o exportador brasileiro, não o tarifaço de Trump. Nós, que defendemos o agro, conhecemos o valor de um mercado aberto: não é ideologia, é fatura.

Este colunista discorda de vários pontos da política externa de Lula. Discordar do governo, porém, não obriga ninguém a elogiar quem pune o país.

Por isso o apelo desta coluna a quem é de direita: não entregue a bandeira da soberania a Flávio Bolsonaro no dia 25. Não é preciso gostar de Lula para isso. Basta não esquecer quem agradeceu.

O que diz Flávio Bolsonaro: Ele afirma que se arrependeu da publicação de 2025 e que a apagou, segundo a CNN Brasil. Em julho de 2026, viajou a Washington para pedir ao USTR a suspensão das tarifas; segundo a Band, ele culpa o governo Lula pela cobrança.

O segundo turno é no domingo, 25 de outubro. Quem vive do campo sabe guardar contas: a safra bateu recorde, o tarifaço bateu na porteira e um candidato agradeceu. O voto de quem produz pode impedir que a direita fique marcada, por uma geração, com esse agradecimento.

Fontes