Opinião

Internet no campo é infraestrutura básica, como estrada e energia

Em 2025, 88% dos lares rurais tinham internet, contra 95,8% nos urbanos. Leilões com metas de cobertura e dados públicos podem fechar essa distância.

Este é um artigo de opinião. Ele reflete as ideias do autor, não necessariamente as do Jornal Pau-Brasil.

Ilustração abstrata em tons de azul e dourado, com ondas de sinal estilizadas sobre faixas que lembram uma plantação
Imagem provisória, a ser substituída antes do lançamento.Ilustração: Imagem provisória

Em 2 de julho, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou que 95% dos domicílios do país tinham internet em 2025. Na área rural, a taxa era de 88%, contra 95,8% na cidade. Em 2016, eram 35% no campo e 76,5% na cidade.

A distância caiu de 41,5 para 7,8 pontos percentuais em nove anos. É um avanço real. Mas o número mede o acesso dentro de casa, e não o sinal na lavoura, no curral ou na estrada de terra.

O que depende do sinal

A agricultura de precisão usa sensores, máquinas guiadas por satélite e mapas que precisam de conexão para funcionar. O Pix, sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central, também depende de conexão para vender e comprar. A teleconsulta encurta a distância até o especialista. A escola rural depende de internet para o conteúdo e para a gestão.

Nada disso é luxo. É o mesmo tipo de serviço que a estrada e a energia elétrica prestaram ao campo no século passado. Por isso, a conectividade rural deveria ser tratada como infraestrutura básica, com metas, prazos e cobrança.

Ainda há quem fique de fora por falta de rede. Entre os lares rurais sem internet, 8,9% citaram a falta de cobertura como motivo, segundo os dados do IBGE divulgados pela Folha BV. Na cidade, essa resposta quase não aparece.

Leilões são a hora de exigir

O Brasil já testou um bom modelo. No leilão do 5G, em novembro de 2021, as empresas assumiram compromissos de cobertura no lugar de parte do pagamento. Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), 391 sedes municipais e 7.430 localidades deveriam receber 4G ou tecnologia superior. Havia ainda metas para 31 mil quilômetros de rodovias federais.

Em maio de 2026, a Anatel leiloou de novo a faixa de 700 MHz. Os vencedores, segundo o Ministério das Comunicações, terão de cobrir cerca de 6,5 mil quilômetros de rodovias federais em 16 estados e 864 localidades. O investimento estimado é de R$ 2 bilhões, até 2030.

O caminho é esse, com dois ajustes. O primeiro é incluir áreas produtivas nas metas, e não só vilas e rodovias. O segundo é dar transparência: dados públicos de cobertura por área rural, atualizados e fáceis de consultar. O produtor precisa saber, antes de investir em máquinas conectadas, se a sua propriedade terá sinal.

O que diz quem pensa diferente: Levar antenas a áreas com pouca gente custa caro, e as operadoras pedem menos tributos para chegar lá. A Conexis Brasil Digital, que reúne as grandes empresas do setor, defende a isenção para a conectividade rural prevista no PL 426/2023. “Conectar os desconectados é um compromisso do setor”, disse o presidente-executivo da entidade, Marcos Ferrari, em abril, segundo o Teletime.

Metas de cobertura e alívio tributário não se excluem e podem andar juntos. O que não pode é o campo, que move a economia do interior, continuar sem saber quando o sinal vai chegar. Os próximos leilões e o uso dos fundos do setor dirão se o país trata a internet rural como prioridade.

Fontes