Logística

Hidrovias: como a safra viaja pelos rios e o risco da seca

Comboios de barcaças levam grãos por rios como Madeira, Tapajós e Amazonas, mas a seca pode encolher as cargas e até parar a navegação, como em 2024.

Ilustração abstrata em tons de terra, vermelho-brasa e dourado, com faixas sinuosas que lembram um rio e retângulos enfileirados que sugerem barcaças
Imagem provisória, a ser substituída antes do lançamento.Ilustração: Imagem provisória

Em 23 de setembro de 2024, o porto de Porto Velho, em Rondônia, parou de operar. O rio Madeira chegou a 25 centímetros na régua da cidade, a menor marca desde 1967, segundo a CNN Brasil. Barcaças encalharam em bancos de areia, e cargas de milho, soja e fertilizantes ficaram paradas.

O episódio mostra a força e o ponto fraco das hidrovias, os rios usados como estradas de carga. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a região amazônica responde por quase dois terços do transporte fluvial do país.

Como funciona o transporte

Os grãos viajam em barcaças, grandes caixas flutuantes sem motor. Várias barcaças amarradas formam um comboio, movido por um barco empurrador. Como uma única embarcação motorizada leva muita carga de uma vez, o custo por tonelada tende a cair nas longas distâncias.

No Tapajós, os caminhões que sobem a BR-163 descarregam em Miritituba, no Pará. Dali, as barcaças descem até os portos de Santarém e de Barcarena. No Madeira, os comboios saem de Porto Velho e seguem até Itacoatiara, no Amazonas, num trecho navegável de cerca de 1.060 quilômetros.

O rio Amazonas liga essas rotas ao mar. No Sudeste, a hidrovia Tietê-Paraná atravessa São Paulo e chega a estados vizinhos. Ali, o rio passa por eclusas, espécies de elevadores de água que vencem o desnível das barragens.

Quando o rio baixa

Calado é a profundidade que o barco ocupa abaixo da linha d’água. Quando o rio baixa, as barcaças precisam levar menos carga para não tocar o fundo.

O Madeira viveu secas seguidas. Em 6 de outubro de 2023, o rio marcou 1,10 metro em Porto Velho, segundo o Serviço Geológico do Brasil, em dado publicado pela Agência Brasil. Em 2024, a marca caiu ainda mais. A Conab registrou que parte do milho que iria para Barcarena foi desviada para o Itaqui (MA) e para Santos (SP).

A navegação também segue regras para a estiagem. Em agosto de 2025, a Capitania Fluvial de Porto Velho, da Marinha, limitou o tamanho dos comboios conforme o nível do rio. Abaixo de 8 metros, o máximo é de 25 barcaças. Abaixo de 4 metros, 16. Abaixo de 2 metros, a autorização para navegar fica suspensa.

A Tietê-Paraná também já parou. A navegação no trecho paulista ficou interditada de 2014 a janeiro de 2016, segundo a Tribuna do Paraná. Com a estiagem, a água das represas de Três Irmãos e Ilha Solteira foi usada para gerar energia, e o rio ficou raso demais para as barcaças.

Quem cuida dos rios

Duas instituições federais dividem o trabalho. O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) cuida da estrutura das vias. Seu programa anual de dragagem retira sedimentos e rochas para manter a profundidade navegável.

A Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq) regula o setor. Ela autoriza as empresas de navegação, fiscaliza os serviços e publica as estatísticas de carga. A Marinha, por sua vez, cuida da segurança da navegação.

O que diz o DNIT: Em sua página sobre o Programa Anual de Dragagem de Manutenção Aquaviária, o DNIT afirma que as intervenções buscam manter o calado navegável e a navegação previsível ao longo dos meses. O órgão cita a retirada de sedimentos, o derrocamento e a construção de estruturas que orientam a correnteza.

A cada seca, o produtor sente o efeito no frete e no prazo de entrega. Para a Conab, os rios precisam de dragagem contínua e de mais investimento. Sem isso, rotas como a do Madeira seguem dependendo da chuva na Bolívia, onde fica cerca de 75% da bacia do rio, segundo a Agência Brasil.

Fontes