Clima e tempo

Veranico: o que é e por que ameaça a soja e o milho

Dias seguidos sem chuva no meio da estação das águas pesam mais na floração e no enchimento de grãos. Veja como o Zarc e o manejo do solo reduzem o risco.

Ilustração abstrata em tons de azul e terra, com faixas horizontais que lembram linhas de plantio sob um céu sem nuvens
Imagem provisória, a ser substituída antes do lançamento.Ilustração: Imagem provisória

Dez dias seguidos sem chuva já bastam para reduzir a produtividade da soja se a seca cair na floração ou no enchimento de grãos. O alerta é de um pesquisador da Embrapa Cerrados, em artigo publicado pela revista Cultivar. No campo, esse período seco dentro da estação das águas tem nome: veranico.

O veranico é uma sequência de dias sem chuva, quase sempre com calor forte, em plena estação chuvosa. O solo perde água rápido, e a planta passa sede quando deveria estar crescendo. No Distrito Federal, segundo o mesmo artigo, a soja costuma ser semeada no início de novembro, quando as chuvas se firmam.

Por que a floração é a fase mais delicada

A Embrapa Cerrados aponta quatro momentos em que a soja sofre mais com o clima: germinação, emergência, floração e enchimento de grãos. Nas duas últimas fases, a planta define quantas vagens vai segurar e quanto cada grão vai pesar. Falta de água nessa hora significa menos sacas por hectare.

O milho também é sensível à falta de água na floração e na formação dos grãos. Por isso, um veranico na fase reprodutiva pode custar caro às duas culturas.

O plantio tardio aumenta o risco. Segundo o artigo da Embrapa Cerrados, quando a semeadura atrasa, o enchimento de grãos cai em meses de menos chuva. As cultivares de ciclo longo são as mais expostas.

Onde o veranico é mais comum

O problema é frequente no Brasil Central. Um trabalho da Embrapa Milho e Sorgo cita a “frequente ocorrência de veranico” na região, somada à baixa capacidade dos solos do Cerrado de reter umidade. Um estudo de 1994 citado pela Embrapa fez a conta para o Distrito Federal. Em fevereiro e março, veranicos de dez dias ocorrem de 10 a 15 vezes a cada 20 anos.

O Matopiba, fronteira agrícola formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, também fica em grande parte no Cerrado. Por isso, o produtor da região enfrenta o mesmo tipo de risco.

Como reduzir o risco

A primeira ferramenta é o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc), feito pela Embrapa e publicado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária. Ele indica, para cada município, o que plantar e em que datas o risco de perda é menor. O Zarc também mostra quando vale usar uma cultivar resiliente, adaptada à seca.

Seguir o Zarc pesa no bolso. Segundo a Embrapa, o zoneamento orienta o Proagro e o programa federal que paga parte do seguro rural. O Banco Central avisa que plantar fora das datas indicadas tira o direito à cobertura do Proagro.

O manejo do solo é a segunda frente. O Zarc recomenda técnicas que aumentam a infiltração da água e o aprofundamento das raízes, para o solo guardar mais umidade. O plantio direto, feito sobre a palha da safra anterior, ajuda nessa tarefa. A Embrapa aponta os veranicos frequentes como um dos fatores que favorecem esse sistema no Brasil Central.

A escolha da semente fecha a lista. Em 2023, a Embrapa Cerrados lançou a soja BRS 7981IPRO, que, segundo a empresa, resiste a até 15 dias de veranico.

O que diz a Embrapa: No folheto do Zarc, a Embrapa afirma que mais de 60% da variação na produção agrícola vem de condições do tempo adversas, como secas, geadas e granizo. Segundo a empresa, o zoneamento indica “o que”, “onde” e “quando” plantar com mais chance de sucesso.

Com a semeadura da safra de verão prestes a começar em várias regiões, consultar o Zarc antes de plantar é a proteção mais barata contra o veranico. Ele não evita a seca. Mas reduz a chance de a falta de chuva coincidir com a fase mais sensível da lavoura.

Fontes